terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Reconciliação em primeiro lugar

Eu imagino sempre, quando vejo tragédias na televisão, como ficam as cabeças das crianças.  Pois meu lado criança, me cobra explicações que não sei me dar.
Eu e minha mulher tentamos fazer um discurso, aqui em casa, de que é importante viver a reconciliação, sempre e sob todos os aspectos.
Claro que muitas coisas nos tiram do eixo, nos entristecem, magoam e até nos deixam bravos.  Mas ficar com estes sentimentos menores, não resolve o problema principal, tampouco nos traz qualquer coisa de bom.  Por isso, antes de uma atitude "santificadora" ou virtuosa, se reconciliar com as pessoas, coisas e fatos, também é questão de saúde física e mental.
O melhor então é tentar entender a situação e se reconciliar com o caso.  O entendimento leva ao perdão, ao amor, ao crescimento (evolução).
Certa noite, meu filho menor prendeu os dedos na porta de seu quarto.  Claro, foi forte e com certeza, doeu muito.
Enquanto chorava, maldizia a porta e o mundo em geral.
Em que pese o desabafo ser importante, mostrar a ele que a porta está ali para cumprir sua função de abrir e fechar, independente de dedos ou qualquer outro obstáculo, parece que ajudou um pouco.
Mas de que adianta este discurso pra lá de "transcendente", se algumas horas à frente da TV são suficientes para destruir por completo qualquer pensamento ligado ao entendimento e a concórdia?
Esta semana, todo o planeta ficou estarrecido com o atentado ocorrido em Paris.
Os jornais não noticiaram outra coisa.  As pessoas em geral, só falavam nisso e até arriscaram um francês para "adesão" ao slogan, no qual muitos sequer sabiam o significado.
Por fim, no domingo, a grande caminhada "da dor" em cidades da França, com líderes de diversos países marchando na dianteira de um protesto gigantesco.  Alguns, por sinal, grandes estrategistas de guerra, sobre quem, aliás, pesam muitas mortes.
Claro que tudo isso é compreensível.  A comoção é  correta.  A indignação a qualquer tipo de violência deve existir pelo nosso bem e de toda a raça humana.  Ficar indiferente ao assassinato e morte de quem quer que seja, representa um rompimento com nossa origem pacífica e de entes sociais que naturalmente somos.
Mas como explicar, de novo, aos filhos, às crianças, os motivos de atos como estes?
Como explicar que as pessoas devem respeitar a religião, umas das outras?  Não seria óbvio isso?   Que os veículos de informação que deviam noticiar, fazem suas provocações, mesmo cientes de que reações como estas poderiam ocorrer em algum momento?  Como explicar que o terrorista cruel existe como resultado de algo anterior?  Explicar o por quê quando alguns negros morrem na África, não recebem a mesma repercussão daquela de quando brancos morrem na Europa, independente da quantidade ser maior e constante?
Se soubesse ou pudesse responder tudo isso, ao fazer estas explanações, correr-se-ia o risco de ser interpretado como "defensor" da causa terrorista, coisa que não sou.  E claro que não quero nenhum filho meu pensando que defendo qualquer tipo de ataque com bombas, armas ou estilingue que seja.
Ensaio uma conversa com os meninos e daí me detenho.
Tem tanta coisa junta... tanta informação para ser analisada... tanto sangue derramado em toda parte.
Não sei dizer quantos conflitos estão acontecendo neste exato momento.  Não sei dizer quantas pessoas morrem todas as noites em bombardeios espalhados pelo globo.  Não imagino quantos filhos são separados de seus pais por aí afora, todos os dias. E nem os por quês.
Será que estamos no fim?  E se sim, no fim de que?
Seria mais fácil falar da situação Israel x Palestina, já velha conhecida de todos nós.  Também daria pra falar da Síria, das guerras civis em nações africanas... Mas o que dizer das brigas na periferia de nossas cidades?  Esta semana duas "crianças" mataram o amigo, outra "criança", em um bairro familiar de minha cidade.  Motivo?  Ainda não sei.  Provavelmente nenhum que justifique o ato.  Do mesmo modo que nada justifica as demais mortes em qualquer lugar.
Serão os jogos de vídeo game com armas, balas e morte constante trabalhando na cabeça das crianças? (Não, tem lugar em que elas mal tem comida, quanto mais brinquedos eletrônicos).
Será a falta de religiosidade verdadeira nos corações? (Não me parece, já que tem gente que mata em nome da fé).  Pode ser a simples banalização da vida.  Mas baseada em que?  Na descrença numa justiça terrena ou celestial?
Levantar dúvidas sempre foi a melhor maneira de entender algo.  Nestas linhas, acho que fiz umas trinta perguntas.  Continuo no entanto sem entender qualquer coisa.
Algumas conclusões, no entanto podem ser tiradas.  Pra mim não há mais esquerda ou direita.  Há simplesmente "humanos e desumanos" como alertou um amigo recente.  E sendo assim, de que lado estamos?  E precisamos estar de algum lado?
Por que não pode simplesmente haver a lei da reconciliação?  O prometido lugar ao sol para todos? Petróleo, poder, Deus, dólar, terra... São estas as razões?
Estou um pouco cansado... Um pouco frustrado... Um pouco deprimido.
Desde criança eu sonho com um mundo único, sem fronteiras, sem "multi-governos", sem religiões, sem hinos, sem línguas ou moedas diferentes... Um mundo planetário onde todos possam ser mais iguais do que qualquer sonho seja capaz de nos mostrar na tela mental.  Um mundo equânime mesmo em que todos possam se sentir verdadeiramente "patrícios", próximos, irmãos...
E todos os dias, vejo o oposto.  A divisão total e mais fracionada do que nunca.
Não sei se é muito romantismo, só sei que sou assim.  Direito que tenho de fantasiar.
Na verdade, esta é a causa que eu gostaria de defender.  Em nome dela, ao londo de minha vida escolhi estar em tal religião, em tal partido político, em tal grupo de amigos... Contudo já tenho pra mim que é causa perdida. E tudo o que já tentei descobrir ou aprender, cai por terra quando algo semelhante acontece.
Agora, sigo numa direção nada boa pra minha alma, pois sinto que não mais me faz bem ver notícias, ou ler qualquer coisa que me faça raciocinar, refletir sobre a causa e o efeito dos acontecimentos.
Aparentemente, tudo aponta para eu viver os dias que me restam admirando a natureza e desfrutando a companhia dos que me são caros e próximos.  Quem sabe só viver "churrascando" com amigos sem discussões muito profundas.
Seria melhor ser um "jeca"... Um ignorante completo... Um alienado total.  Um "quarta-feira", como se diz por aí.
Sofreria menos, esperaria menos, me decepcionaria nada.

A rainha caipira.

A partir de hoje, me dedicarei a publicar, de quando em quando, contos e crônicas escritos por meu pai, Carlos Alberto Gomes, que assina com...