segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Edon Baffi

Faço uma homenagem bastante sincera, embora simples, à figura de Edson Baffi, jornalista fotográfico, mas acima de tudo um bom amigo, excelente pai e marido, pessoa politizada e bastante atuante.
Sua partida prematura deixou um buraco irreparável no cenário riopretense, por pertencer ao grupo seleto das pessoas que discutiam o cenário político da cidade.
Nossos votos de pesar aos familiares e amigos da família Baffi.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A HISTÓRIA DOS CARNAVAIS NO BRASIL

Matéria publicada na revista Força (http://www.revistaforça.com.br/), traz uma série importante de informações sobre a história do Carnaval.
É muito interessante conhecer a evolução dos cordões de rua, do primeiro trio elétrico e mesmo das marchinhas (que não existem mais).
Vou tentar fazer um resumo rápido, lembrando que vale muito a pena conhecer a matéria na sua integridade.

O carnaval teve sua origem nas celebrações das colheitas dos povos da antiguidade e nos chegou por meio dos portugueses.
O início de suas comemorações no Brasil data de 1.600 e registra uma manifestação popular na qual escravos e populares saiam às ruas da cidade, fantasiados a jogar água e farinha nas pessoas.
Os ricos, faziam o mesmo, dentro dos muros de suas casas.
Mais de dois séculos depois (1840), os carnavais ganharam os salões do país já com influência espanhola e italiana (máscaras e fantasias).  Dançavam, ceavam enquanto os pobres continuavam o costume das ruas.
Cerca de 40 anos depois, começam cordões e ranchos (cortejo pelas ruas), gerando o que mais tarde seriam os blocos de rua.
Desfiles de carros conversíveis começam a ocorrer no ano de 1907 pelas principais avenidas do Rio de Janeiro.
Dez anos depois, numa famosa doceria baiana no Rio de Janeiro, compositores trazem o Samba para as comemorações.
Em 1929, o Samba passa a ser tocado no lugar das valsas e outros rítmos importados.  Em Salvador, começam os primeiros blocos.  Surgem no Rio as primeiras escolas de samba.  A primeira, com nome de Deixa Falar é hoje a Estácio de Sá.
Em 32, no Rio de Janeiro, surge o primeiro baile carnavalesco.  E em 50, nasce o trio elétrico na Bahia.
Em 59, São Paulo passa a ter seus desfiles.
São Paulo oficializa suas escolas de samba 9 anos depois e solta uma verba maravilhosa para a realização do carnaval.  O Rio acusa São Paulo de tentar "roubar" a festa carioca.  A escola Portela, tenta mas não consegue trocar o desfile do Rio por São Paulo.  Na década de 70,  Salvador na Bahia e outros estados do Nordeste, fortalecem seu carnaval com ritmos próprios e ganham também seu espaço nas festividades.
Os próximos anos são marcados pelo apoio dos bicheiros ao carnaval do Rio, pela construção dos sambódromos e por apoio de empresários, governo e políticos como Hugo Chavez, da Venezuela, que ajudou a Unidos de Vila Isabel a ilustrar o enredo "Soy loco por ti América" em seu desfile de 2006.
O Carnaval ainda se constitui na maior festa popular do Brasil.
Nos salões de hoje, pouco encontramos as marchinhas e outras características que faziam do nosso carnaval tão gostoso, estão desaparecendo.  Mas enfim, tudo é evolução.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Diversas

Se há quem, efetivamente acompanha este blog, pode estar pensando o que me terá levado a diminuir minha postagem que era tão constante.
Estou trabalhando em um projeto muito especial ligado à Construção Civil e que tem representado para muitos, na possibilidade de um negócio extremamente inovador e saudável para o sustento de suas famílias.
Mais adiante falarei detalhes sobre este trabalho e as aspirações da empresa para todo o território nacional.

Enquanto isso, volto a cena para discutir algumas questões que tomaram conta do dia-a-dia de nossa cidade, país e planeta.  Dentre estas, destaque para a mobilização popular em torno da derrubada de ditadores históricos de alguns países no norte da áfrica, por exemplo.  Isto é uma prova de que há grandes possibilidades e que a revolução nunca foi impossível ou sonho acabado como pregam tantos autores.
Lição para o resto do mundo, este tipo de arrancada das massas pode não parar e, como efeito dominó, atingir gente que não está esperando.

Quero falar do Site do amigo Lelé Arantes e cumprimetá-lo pelo seu trabalho de construtor de informações na nossa cidade e região.  Seu link está publicado em definitivo neste blog para amigos e leitores.

Estou lendo o livro Calendário do Poder, de Frei Betto e recomendo.  Em que pese algumas críticas ao Governo de Lula, do qual fez parte, há muita informação importante, algumas das quais revelam o caráter principal que nunca foi perdido em toda esta história.  Eu, particularmente, continuo na defesa ardorosa deste grupo que colocou o Brasil em um local de destaque no cenário mundial e mesmo em nossos livros de história.

Tenho acompanhado pouco o Twiter nos últimos dias, mas quero reafirmar a importãncia desta ferramenta na vida das pessoas.  Por favor, quem como eu, é resistente ao "mini blog", precisa conhecer seu poder de abrangência e atingir as massas formadoras de opinião.

Enquanto escrevo na sala, escuto na cozinha Pedro Bial dar vivas ao fim do integralismo... É, faço coro... Foi-se pra nunca mais voltar.

Em Guapiaçu o PT está "batuta"... começaram hoje a acompanhar as sessões da Câmara Municipal... Vão ouvir até as leituras de expediente... anotar votos e acompanhar quem é quem e vota pelo que... Durma-se com um barulho desses.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O ser humano e seus anjos

Do amigo Antônio Caprio
Tanabi-SP

O ser humano não pode ficar sozinho, em nenhuma circunstância, seja ela qual for. A solidão absoluta só existe na ficção. Mesmo nos conventos mais fechados a solidão não está presente, visto que as freiras reclusas têm Jesus, seus santos, anjos e superiores. A solidão pessoal é quebrada pela presença concreta, palpável e indiscutível de figuras denominadas anjos, que se apresentam em forma de seres humanos, na grande maioria alados, com vistosas e alvas asas. Cristãos, muçulmanos e judeus têm seus exércitos de anjos, com suas hierarquias, poderes e funções específicas.


Segundo um conjunto enorme de escritos, religiosos ou não, o nome mais usado para os seres guardiães que nos acompanham desde o nascimento até a morte, e depois dela nos auxiliam nas vidas posteriores, se resume em ‘anjo da guarda’. A expressão anjo vem do latim ângelus e do grego ággelos significando basicamente mensageiro. Na tradição judaico-cristã, que predomina em praticamente todo o planeta, o anjo é uma criatura celestial, portador de vistosas asas (alguns com duas outros com quatro) e a indispensável auréola em torno e sobre a cabeça, emitindo continuamente uma luz penetrante e vinculadora. A forma como o anjo se apresenta ao homem é variada, podendo ser uma criança ou um adulto, sem características sexuais e sempre com beleza ímpar. Os espíritas já dão ao anjo uma característica física assemelhada ao homem e mulher comum, chamados de espíritos de luz , sendo pertencentes a planos superiores de evolução humana, mas sempre inferiores aos anjos, que não experimentam processos reencarnatórios.

Como não poderia deixar de ser, há anjos bons, maus e os dotados de certo grau de ambigüidade, conforme a ação de seu ‘protegido’. Os anjos estão em uma vasta coleção de livros e citações humanas. No Cristianismo é figura presente e constante na Bíblia desde Abrão até o Cristo. Os Evangelhos mantêm tais figuras unipresentes. São inúmeras as divisões de categorias dos anjos, mostrando uma hierarquia natural e bem próxima da própria humanidade. Em geral se classificam em Serafins, Querubins, Éons, Hostes, Potestades, Autoridades, Principados, Tronos, Arcanjos, Anjos e Dominações. Esta é a mais antiga e chamada de classificação de São Clemente e a mais moderna é a de Dante Alighieri, registrada em seu livro Divina Comédia, que indica: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Arcanjos, Principados e Anjos. Em todas as classificações conhecidas se inicia com Serafim, que são os anjos mais próximos a Deus e se termina com anjos, indicando que anjo é a menor categoria de tais entidades e, portanto, mais próxima do homem. Estas categorias divinas, obviamente, não usam alimentos, como faz o homem.

O Budismo e o Hinduísmo têm seus anjos sob a denominação de devas (brilhante) e, alguns, usam alimentos como os humanos. O Islamismo divide seus anjos em bons, fiéis a Deus e os maus, que são privados da graça divina por terem recusado a prestar suas homenagens a Adão, o ‘top’ da criação divina e motivo de ciúmes entre estes anjos e a criatura humana maior, o Homem. Na visão teosófica, a existência dos seres angélicos torna rica a literatura religiosa mundial. Entende que a categoria angélica foi criada por Deus para assessorá-Lo. Teólogos como Charles Leadbeater (A Ciência dos Sacramentos) e Geoffrey Hodson (O Reino dos Deuses), tratam do assunto e até dão detalhes do sistema que rege tais entidades.

Nada escapa à tutela angelical. Também a Astrologia enfoca o assunto, indicando responsáveis por cada planeta do zodíaco, sendo o reitor do Sol Miguel; da Lua Gabriel; de Mercúrio Rafael; de Vênus Uriel/Anael; de Marte Camael/Samuel, de Júpiter Zacariel/Sadkiel/Zeus/Zacarias e de Saturno Orifiel/Cassiel. Os demais planetas não eram conhecidos na antiguidade.

Os anjos mais conhecidos e invocados são os chamados ‘anjos da guarda, os quais têm invocação especial e própria, como por exemplo: “ Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade Divina, sempre me rege, me guarda, me governe e ilumina. Amém.” ( Igreja católica e espíritas)

É bastante conhecida a ação do anjo mensageiro, chamados também de Anjo do Senhor. Esta categoria de anjo está presente nas mensagens que Deus enviou a determinadas pessoas da antiguidade bíblica e de outros livros considerados sagrados. Notável a presença deste anjo com relação a Abraão, a Hagar, Gideão, à Virgem Maria e nos momentos cruciais de Sodoma e Gomorra e do próprio dilúvio. Há aqueles que classificam o episódio da sarsa ardente a este tipo de anjo, representando a própria figura divina, bem como a entrega das taboas da lei a Moises.

Interessante a participação de anjos dos conflitos celestiais, onde a inveja, a disputa pelo olhar de Deus e de lugar de mais destaque em torno do Trono Divino se torna na tônica humana. Lúcifer, o anjo mais próximo de Deus, acabou sendo expulso da presença divina por não se sujeitar às homenagens que todos deveriam fazer a Adão, a criação maior de Deus. A concessão do livre arbítrio ao homem o que é vedado aos anjos em todas as suas categorias, acabou sendo a pedra fundamental da discórdia. Lançado aquém do céu, Lúcifer busca até hoje demonstrar que sua tese não era errada, e que Deus jamais deveria ter criado o homem à imagem e semelhança do Criador. Vendo nisto uma humilhação a todos os anjos,e em todos os níveis.

Outra figura angelical na teologia cristã é o Anjo da Presença. Esta figura não tem vida própria e sim uma forma-pensamento, representando o Cristo no sacramento da Eucaristia, onde o Deus Cristão está vivo, latente, presente e transubstanciado na própria hóstia eucarística. O espiritismo transubstancia este anjo na figura dos mentores espirituais que, indo e vindo nas escalas evolutivas, pode auxiliar os de círculos menores na ascensão a círculos mais elevados. Os umbandistas atuam através do ‘nego véio’, de seus guias, seus cantos e ritos, onde os ‘anjos’ atuam na missão de resolver e ou minimizar os problemas dos encarnados no cumprimento de seus ‘carmas’ ou destino.

Cidinha D’Agostino, terapeuta holística, entende que cada um dos seres humanos tem um anjo guia protetor, jamais interferindo na vida de seu protegido, em seu livre arbítrio, mas, buscando evitar que determinados acontecimentos não se registrem, sem contudo, ingerir sob nenhuma forma no destino daquele.

Enfim, o homem precisa de seus anjos para cumprir sua missão neste eterno vale de lágrimas. Esta ‘ necessidade’ humana vem de encontro com a própria instabilidade do espírito humano, sua inconstância, seus medos e suas fraquezas frente ao desconhecido, visto que o homem é o único entre os demais animais que conhece a força do tempo nas suas escravagistas divisões: passado, presente e futuro.

O anjo é a força complementar que o homem usa como a uma muleta indispensável para a travessia dos anos da existência e que lhe auxilia na superação de seus obstáculos e ansiedades, desde o momento do nascimento até seu último momento enquanto matéria.

Socialistas e Muçulmanos - Unidade Necessária



A onda revolucionária nos países árabes recoloca em debate a necessidade de unir as lutas de muçulmanos e socialistas. Talvez, seja bom lembrar algumas experiências da Revolução Russa de 1917.
Na medida do possível, os bolcheviques tentaram reparar os crimes do czarismo contra as minorias nacionais e suas religiões. Em novembro de 1917, o governo soviético declarou:
“Muçulmanos da Rússia (...), suas crenças e práticas, suas instituições nacionais e culturais serão livres e invioláveis. Saibam que seus direitos, como os de todos os povos da Rússia, estão sob a poderosa proteção da Revolução ”.
Foi criado um grande programa daquilo que chamaríamos, hoje, de ações afirmativas. O idioma russo deixou de dominar nas regiões de maioria islâmica. Línguas locais voltaram a ser usadas em escolas, repartições e publicações. Nativos foram promovidos a posições de liderança no Estado e nos partidos comunistas. Passaram a ter preferência nas oportunidades de emprego. Foram criadas universidades para formar novos líderes não-russos.
Livros e objetos sagrados que haviam sido saqueados pelos czares foram devolvidos às mesquitas. A sexta-feira, dia de celebração religiosa muçulmana, foi declarada dia de descanso em toda a Ásia Central.
Foi estabelecido um sistema de ensino paralelo. Em 1922 os direitos a certas propriedades foram restaurados a muçulmanos, com a ressalva de que fossem utilizados para a educação. Como resultado, em 1925 havia 1.500 escolas religiosas islâmicas com 45 mil estudantes na república do Daguestão, contra apenas 183 escolas laicas.
Por outro lado, algumas penalidades previstas no Corão, como apedrejamento ou mãos decepadas, tiveram sua legalidade restringida. Em dezembro de 1922, tornou-se possível que uma das partes envolvidas em disputas judiciais escolhesse o julgamento por tribunais soviéticos no lugar das cortes muçulmanas. Ao mesmo tempo, era possível que juízes soviéticos condenassem muçulmanos por desrespeitarem leis islâmicas.
O efeito das políticas bolcheviques foi dividir o movimento islâmico entre direita e esquerda. Quase todos os historiadores concordam que a maioria dos líderes muçulmanos manifestou apoio ao estado operário, convencidos de que havia uma chance maior de liberdade religiosa sob o poder soviético.
Moscou empregou tropas não-russas, muitos deles muçulmanas, em combates na Ásia Central. Destacamentos foram lançados contra os invasores em Tatar, Bashkir, Cazaquistão, Usbequistão e Turcomenistão. O líder bolchevique tártaro Mir-Said Sultan Galiev escreveu:
"Durante a guerra civil havia aldeias e até tribos inteiras lutando ao lado das forças soviéticas, unicamente por motivos religiosos: ‘o poder soviético nos dá mais liberdade religiosa do que os brancos [contra-revolucionários]’, diziam”.
Em certas regiões da Ásia Central, os muçulmanos formavam cerca 70% dos membros do Partido Comunista. Trouxeram com eles seus costumes e crenças religiosas: em meados da década de 1920 até as esposas de altos membros do Partido Comunista na Ásia Central usavam véus.
Não era só uma questão de justiça e democracia. Era fundamental mostrar aos muçulmanos explorados que a revolução socialista estava a seu lado, contra seus patrões islâmicos. Pena que essas conquistas tenham sido enterradas pelo nacionalismo conservador stalinista.

Para quem lê inglês, muito mais informações em The Bolsheviks and Islam

FONTE: REVOLUTAS
SITE: http://www.revolutas.net
PUBLICAÇÃO: 05/02/2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Egito à beira do Sangue

Importante reflexão sobre o Egito.


por Thierry Meyssan [*]


De há uma semana a esta parte os meios de comunicação ocidentais fazem-se eco das manifestações e da repressão que agitam as grandes cidades egípcias. Traçam um paralelo com as que levaram ao derrube de Zine el-Abidine Ben Ali na Tunísia e evocam um vendaval de revolta no mundo árabe. Segundo eles, este movimento podia estender-se à Líbia e à Síria. Devia favorecer os democratas laicos e não os islamitas, prosseguem eles, porque a influência dos religiosos foi sobrestimada pela administração Bush e o "regime dos molllah" no Irão é um dissuasor. Assim se concretizariam os votos de Barack Obama na Universidade do Cairo: a democracia reinará no Próximo Oriente.

Esta análise é falsa segundo todas as perspectivas.


• Primeiro, as manifestações começaram no Egipto já há alguns meses. Os meios de comunicação ocidentais não lhes prestaram atenção porque pensavam que elas não levariam a nada. Os egípcios não foram contaminados pelos tunisinos, mas foram os tunisinos que abriram os olhos dos ocidentais sobre o que se passa naquela região.
• Em segundo lugar, os tunisinos revoltaram-se contra um governo e uma administração corruptos que foram espoliando gradualmente toda a sociedade, privando de qualquer esperança classes sociais cada vez mais numerosas. A revolta egípcia não é dirigida contra esse modo de exploração, mas contra um governo e uma administração que estão tão ocupados em servir os interesses estrangeiros que já não têm energia para satisfazer as necessidades básicas da sua população. No decurso dos últimos anos, o Egipto assistiu a inúmeros motins, quer contra a colaboração com o sionismo, quer provocados pela fome. Estes dois assuntos estão intimamente ligados. Os manifestantes evocam indistintamente os acordos de Camp David, o bloqueio a Gaza, os direitos do Egipto às águas do Nilo, a partilha do Sudão, a crise de habitação, o desemprego, a injustiça e a pobreza.
Além disso, a Tunísia era administrada por um regime policial, enquanto que o Egipto é-o por um regime militar. Digo aqui 'administrado' – e não 'governado' – porque em ambos os casos, trata-se de Estados sob uma tutela pós-colonialista, privados de política estrangeira e de defesa independente.
Segue-se que na Tunísia, o exército pôde interpor-se entre o Povo e a polícia do ditador, enquanto que no Egipto, o problema será resolvido pelo fuzil automático entre militares.


• Em terceiro lugar, se o que se passa na Tunísia e no Egipto serve de encorajamento para todos os povos oprimidos, estes últimos não são os que os meios de comunicação ocidentais imaginam. Para os jornalistas, os maus são os governos que contestam – ou fingem contestar – a política ocidental. Enquanto que para os povos, os tiranos são os que os exploram e humilham. É por isso que penso que não iremos assistir às mesmas revoltas em Damasco. O governo de Bachar el-Assad é o orgulho dos sírios: alinhou do lado da Resistência e soube preservar os seus interesses nacionais sem nunca ceder às pressões. Acima de tudo, soube proteger o país do destino que Washington lhe reservava: ou o caos à moda iraquiana, ou o despotismo religioso à moda saudita. Claro que é muito contestado em muitos aspectos da sua gestão, mas desenvolve uma burguesia e os procedimentos democráticos que a acompanham. Pelo contrário, estados como a Jordânia e o Iémen são instáveis no que se refere ao mundo árabe, e o contágio também pode atingir a África negra, por exemplo o Senegal.
• Em quarto lugar, os meios de comunicação ocidentais descobrem tarde demais que o perigo islamista é um espantalho. No entanto é preciso reconhecer que foi activado pelos Estados Unidos de Clinton e pela França de Miterrand nos anos 90 na Argélia, e depois foi exagerado pela administração Bush na sequência dos atentados de 11 de Setembro, e alimentado pelos governos neo-conservadores europeus de Blair, Merkel e Sarkozy.

Também é preciso reconhecer que não há nada em comum entre o wahhabismo à saudita e a Revolução islâmica de Rouhollah Khomeiny. Qualificá-los a ambos de 'islamitas' não só é absurdo como é impedir que se compreenda o que se está a passar.
Os Seoud financiaram, de acordo com os Estados Unidos, grupos muçulmanos sectários que defendem o regresso à imagem que têm da sociedade do século VII, no tempo do profeta Maomé. Já não têm mais impacto no mundo árabe do que têm os amish nos Estados Unidos, com as suas carroças puxadas a cavalos.
A Revolução de Khomeiny não pretende instaurar uma sociedade religiosa perfeita, mas derrubar o sistema de dominação mundial. Afirma que a acção política é um meio para o homem se sacrificar e se transcender e, por conseguinte, que é possível encontrar no Islão a energia necessária à mudança.
Os povos do Próximo Oriente não querem substituir as ditaduras policiais ou militares que os esmagam por ditaduras religiosas. Não há perigo islamita. Simultaneamente, o ideal revolucionário islâmico que já produziu o Hezbollah na comunidade xiita libanesa, influencia agora o Hamas na comunidade sunita palestina. Pode de facto desempenhar um papel nos movimentos em curso, e já o desempenha no Egipto.


• Em quinto lugar, por muito que desagrade a certos observadores, apesar de assistirmos a um regresso da questão social, este movimento não pode ser reduzido a uma simples luta de classes. É verdade que as classes dominantes receiam as revoluções populares, mas as coisas são mais complicadas. Assim, sem surpresas, o rei Abdallah da Arábia Saudita telefonou ao presidente Obama para lhe pedir que faça parar a desordem no Egipto e proteja os governos existentes na região, prioritariamente o seu. Mas este mesmo rei Abdallah acaba de favorecer uma mudança de regime no Líbano pela via democrática. Abandonou o multimilionário líbano-saudita Saad Hariri e apoiou a coligação de 8-Março, Hezbollah incluído, para o substituir como primeiro-ministro por um outro multimilionário líbano-saudita Najib Mikati. Hariri tinha sido eleito por parlamentares que representavam 45% do eleitorado, enquanto que Mikati acaba de ser eleito por parlamentares representando 70% do eleitorado. Hariri estava enfeudado a Paris e a Washingtom, Mikati anuncia uma política de apoio à Resistência nacional. A questão da luta contra o projecto sionista é actualmente superdeterminante em relação aos interesses de classe. Além disso, mais do que a distribuição da riqueza, os manifestantes põem em causa o sistema capitalista pseudoliberal imposto pelos sionistas.
• Em sexto lugar, para voltar ao caso egípcio, os meios de comunicação ocidentais lançaram-se em volta de Mohamed ElBaradei que designaram por líder da oposição. É ridículo. M. ElBaradei é uma personalidade com uma reputação simpática na Europa, porque resistiu algum tempo à administração Bush, sem se lhe opor totalmente. Personifica pois a boa consciência europeia face ao Iraque, que se opunha à guerra e acabou por apoiar a ocupação. No entanto, objectivamente, M. ElBaradei é a água morna que recebeu o Prémio Nobel da Paz para que Hans Blix não o recebesse. É sobretudo uma personalidade sem qualquer eco no seu próprio país. Não existe politicamente a não ser porque a Irmandade Muçulmana o escolheu para seu porta-voz nos meios de comunicação ocidental.

Os Estados Unidos fabricaram adversários mais representativos, como Ayman Nour, que não tarda muito vai ser tirado do chapéu, apesar de as suas posições a favor do pseudo-liberalismo económico o desqualificarem perante a crise social que o país atravessa.
Como quer que seja, na realidade, só existem duas organizações de massas, implantadas na população, que há muito se opõem à política actual: a Irmandade Muçulmana, por um lado, e a Igreja cristã copta, por outro lado, (apesar de S.B. Chenoudda III distinguir a política sionista de Mubarak que ele combate, do rais [1] com que se entende). Este ponto escapou aos meios de comunicação ocidentais porque fizeram crer há pouco tempo ao público que os coptas estavam a ser perseguidos pelos muçulmanos quando estavam a ser perseguidos pela ditadura de Mubarak.
Aqui torna-se útil um parêntesis: Hosni Mubarak acaba de nomear Omar Suleiman para vice-presidente. É um gesto claro que pretende tornar mais difícil a sua eventual eliminação física pelos Estados Unidos. Mubarak chegou a presidente porque tinha sido designado vice-presidente e os Estados Unidos mandaram assassinar o presidente Anuar el-Sadate pelo grupo de Ayman al-Zawahri. Portanto, sempre se recusou até agora a arranjar um vice-presidente com medo de ser assassinado por sua vez. Ao designar o general Suleiman, escolheu um dos seus cúmplices com quem manchou as mãos no sangue de Sadate. A partir de agora, para conquistar o poder, não bastará matar apenas o presidente, será preciso executar também o seu vice-presidente. Ora, Omar Suuleiman é o principal artífice da colaboração com Israel. Washington e Londres vão pois protegê-lo como às meninas dos seus olhos.
Além do mais, Suleiman pode apoiar-se em Tsahal [2] contra a Casa Branca. Já começou por chamar atiradores de elite e material israelwnses que estão prontos para matar os cabecilhas da multidão.
O general-presidente Hosni Mubarak e o seu general-vice-presidente Omar Suleiman apareceram na televisão com os seus generais conselheiros para dar a entender que o exército tem o poder e vai mantê-lo.

• Em sétimo lugar, a situação actual revela as contradições da administração americana. Barack Obama estendeu a mão aos muçulmanos e apelou à democracia aquando do seu discurso na universidade do Cairo. No entanto, agora, vai utilizar todo o seu empenho para impedir eleições democráticas no Egipto. Se pode aceitar um governo legítimo na Tunísia, não pode fazê-lo no Egipto. As eleições beneficiariam a Irmandade Muçulmana e os coptas. Escolheriam um governo que abriria a fronteira de Gaza e libertaria o milhão de pessoas que lá estão encerradas. Os palestinos, apoiados pelos seus vizinhos, o Líbano, a Síria e o Egipto, derrubariam o jugo sionista.

É preciso assinalar aqui que, no decurso dos dois últimos anos, estrategas israelenses conceberam um golpe retorcido. Considerando que o Egipto é uma bomba social, que a revolução é inevitável e está iminente, conceberam favorecer um golpe de estado militar em benefício de um oficial ambicioso e incompetente. Este lançaria uma guerra contra Israel e seria vencido. Tel-Aviv poderia assim reencontrar o seu prestígio militar e recuperar o monte Sinai e as suas riquezas naturais. Sabe-se que Washington se opôs decididamente a este cenário demasiado difícil de controlar.

O que é certo é que o Império anglo-saxão se mantém agarrado aos princípios que fixou em 1945: é favorável às democracias que fazem uma 'boa escolha' (a do servilismo), e opõe-se aos povos que fazem a 'má escolha' (a da independência).

Por conseguinte, se acharem necessário, Washington e Londres apoiarão sem reservas um banho de sangue no Egipto, desde que o militar que levar a melhor se comprometa a perpetuar o statu quo internacional.
31/Janeiro/2011

NT
[1] Rais: título usado pelos dirigentes de estados muçulmanos na Índia, no Médio Oriente e na Ásia do Sul.
[2] Tsahal: nome dado às forças armadas de Israel.
• Imagens do Egipto em http://totallycoolpix.com/2011/01/the-egypt-protests/
[*] Analista político francês, presidente-fundador do Réseau Voltaire da conferência Axis for Peace . Publica toda semana crónicas de política estrangeira na imprensa árabe e russa. Última obra publicada: L'Effroyable imposture 2 , éd. JP Bertand (2007).
O original encontra-se em http://www.voltairenet.org/article168311.html . . Tradução de Marg
arida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

A rainha caipira.

A partir de hoje, me dedicarei a publicar, de quando em quando, contos e crônicas escritos por meu pai, Carlos Alberto Gomes, que assina com...