sábado, 29 de março de 2025

O Fórum de Associações de Moradores de São José do Rio Preto. Uma Revolução Silenciosa na Democracia Participativa.


Participação Popular
Imagem - Jus Navigandi

No início dos anos 2000, chegou à Prefeitura de São José do Rio Preto Edinho Araújo, que conquistou sua vitória graças a uma ampla coligação de partidos, denominada Frente Progressista, composta dentre outros, pelos partidos PT e PPS.

Inaugurando uma nova forma de trabalhar a interlocução com o legislativo, o prefeito então resolveu substituir a figura do Líder do Prefeito por um Secretário de Governo.

Para o cargo, convidou Carlos Feitosa, ex-vereador e hábil interlocutor.

Recém-criada, a Secretaria sob o comando de Feitosa deveria, no entanto, se ocupar de outras importantes tarefas, para o que fomos igualmente convidados, o Prof. Cleyton Romano e eu que ocupamos sua Assessoria.

Criamos a estrutura da Secretaria com a participação de outras figuras como Roberto Vasconcelos (Vasco), então Presidente de Honra do PCB local e João Paulo Rillo, hoje vereador pelo PSOL, como importantes conselheiros.

Juntos, passamos a desenhar o organograma da pasta e a avaliar a cidade que enfrentava um dilema comum a muitas metrópoles brasileiras: como garantir que as demandas dos bairros chegassem ao poder público de forma organizada, direta e legítima, sem precisar se desgastar em balcões ou trocar favores com vereadores.

A resposta surgiu com a criação do Fórum de Associações de Moradores, uma iniciativa pioneira que uniu gestão pública inovadora e participação popular efetiva.

Como assessor direto da Secretaria Municipal de Governo e co-idealizador do projeto, testemunhei como essa experiência não apenas modernizou a relação entre Estado e sociedade, mas revelou uma nova geração de lideranças comunitárias.

Quero destacar algumas como o advogado Marcelo Henrique, primeiro presidente do Fórum, o advogado Paulo Dodi, ex-presidente da Associação Amigos de Rio Preto, Walter Fernandes da Associação do Mansur Daud, Wilma Goulart do Jd. Nazaré e o já vereador Pedro Roberto Gomes.

Todos eram presidentes de Associações de Moradores dos respectivos bairros e atuaram de maneira contundente no desenvolvimento e ações do Fórum.

Esse, por sua vez, devia congregar as Associações por meio de seus representantes e conduzir ao “nono andar”, sede da Secretaria de Governo, as principais reivindicações dos habitantes de cada bairro.

Muitas dessas associações eram informais ou controladas por lideranças vitalícias.

Criamos um marco regulatório com estatutos-padrão e eleições periódicas as quais eu acompanhava com a Assessoria de Damaris Iraê e Valéria Brandt, também assessoras.

Oferecíamos assessoria jurídica gratuita além de orientar a elaboração dos Estatutos e garantir as formalidades nas assembleias.

Depois ainda, participávamos das reuniões do Fórum que visavam apresentar problemas detectados nos bairros e oferecer soluções trabalhando para isso e quando necessário, o envolvimento das demais secretarias da Administração.

Coordenei a equipe que percorreu os bairros para convencer líderes da importância da formalização das Associações e ajudei na conexão do Fórum com o Orçamento Participativo, então presidido pela vice-prefeita Maureen Cury do PT.

Pela primeira vez, associações votavam diretamente em obras prioritárias garantindo a melhor aplicação das verbas orçamentárias.

Enquanto outras cidades tinham Orçamento Participativo apenas no papel, em Rio Preto ele funcionou porque tinha base organizada (o Fórum garantia representatividade real).

Durante nossa gestão, evitamos o clientelismo (as demandas eram técnicas, não políticas).

Na ocasião, também coordenamos o mesmo processo com bairros não regularizados, gerando fiscalização para coibir o nascimento de novos loteamentos irregulares e promover as diretrizes para o processo de regularização.

Nessa altura, conseguimos asfaltar e regularizar a Vila Miguelzinho (no coração do Eldorado) e entregar as escrituras de um grande loteamento de chácaras.

A força do Fórum era inegável, e mobilizado no próprio Paço Municipal era um peso para o Prefeito que já não tinha liberdade total nas suas decisões.

Talvez essa tenha sido a real causa da demissão do Secretário Feitosa, que foi exonerado após denunciar um incontável número de faltas abonadas por servidores sob o laudo de um mesmo médico (que era vereador). Estranho, já que a denúncia, na verdade, favorecia a Administração do Município.

Com seu desligamento, tornei-me o interino na Pasta e por cerca de 2 anos, segui fazendo o trabalho de interlocutor entre o Fórum e a Prefeitura.

O fato é que o Fórum mostrou que participação popular precisa de estrutura, que então garantimos, a partir da Secretaria.

Sua criação gerou importantes líderes, dos quais muitos ocupam cargos públicos.

Ainda, conseguimos provar que uma cidade média do interior pode ser laboratório de inovação democrática. Talvez a mais importante de todas as experiências das quais participei na vida.

Deixei a Secretaria me demitindo após a nomeação deu um outro secretário.

Mas o Fórum continuou incomodando e após minha saída da Secretaria, ele foi aos poucos sendo cooptado pelo governo municipal perdendo gradativamente sua força até desaparecer na gestão seguinte.

Resta dizer que o Fórum não foi um projeto de governo. Foi um pacto entre cidadãos e poder público e eu tive a honra de ajudar a costurá-lo.

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