sábado, 22 de agosto de 2026

7 homens. 3 talentos. 1 propósito. Nasce um novo projeto: construir a melhor corretora de seguros do Brasil.


San Martin Corretora premiada com o título de
Melhores do Seguro no ano 2019
Há momentos na vida em que a gente precisa parar, olhar para trás e reconhecer quem esteve ao nosso lado quando a caminhada ficou mais difícil.

Ao completar 58 anos de vida e 35 de uma trajetória dedicada ao mercado de seguros, tenho uma certeza a me encher de orgulho.  Eu não conseguiria retomar essa luta e sonhar novamente com o topo sem a presença, o trabalho, a liderança e a dedicação dos meus três filhos, Gabriel, Rafael e Daniel.

Cada um, à sua maneira, ocupa um espaço fundamental nessa reconstrução.

Mas há algo que preciso deixar muito claro. Eles não estão aqui simplesmente porque são meus filhos. Não estão aqui apenas porque herdaram uma profissão, uma empresa ou uma história construída pelo pai e pela mãe. Estão aqui porque são homens feitos, adultos, sérios, comprometidos e porque, em algum momento de suas vidas, compreenderam que assumir os negócios da família também significava assumir responsabilidades, desafios e escolhas.

Eles poderiam seguir outros caminhos. E certamente ainda seguirão muitos outros. Cada um tem seus próprios sonhos, suas próprias vocações e grandes projetos que, tenho certeza, ainda irão construir ao longo da vida.

Mas entenderam que, neste momento, era preciso colocar os pés no chão, trabalhar, consolidar uma base e ajudar a construir algo sólido sobre o qual possam, amanhã, erguer seus próprios sonhos.

E isso, para um pai, não tem preço.

Rafael ainda menino
na San Martin

Rafael é o companheiro de todos os dias, presente no escritório, enfrentando comigo a rotina, os problemas, as urgências e principalmente, as pessoas. É quem está ali, no dia a dia, colocando a mão na massa e ajudando a transformar dificuldades em soluções. Principalmente quando o tema é tecnologia.

O que seria de mim sem seu apoio nessa área, num mercado tomado pelos avanços da informática? E quanta paciência para ensinar a mim e aos franqueados a trafegar pelos sites, sistemas e portais das seguradoras.

Agora, Rafael se prepara também para realizar sua habilitação na SUSEP e dar continuidade a uma história profissional que começou antes da década de 90, construída com honestidade, firmeza, trabalho e respeito ao mercado. Lições que aprendi de um pai vendedor nato e de uma mãe empreendedora.

Gabriel ministrando seu
primeiro treinamento a
 franqueados na San Martin

Gabriel tem uma capacidade admirável de dividir sua vida entre os estudos e o trabalho. Estudante de Filosofia em Uberlândia, aprende, pesquisa, questiona, evolui e ao mesmo tempo, coloca seu conhecimento a serviço das empresas e dos nossos parceiros a quem atende. Sua contribuição muitas vezes é silenciosa e até invisível, pela distância física e trabalho “home”, mas é igualmente essencial para que possamos avançar. Férias?  Já não conhece essa palavra. Sempre que tem folga, se une a nós no escritório. 

Daniel - ainda na escola
em noite de autógrafos
E Danielo mais novo nessa caminhada, vem descobrindo, dia após dia, que sempre é possível aprender um pouco mais. Tem sede de conhecimento, vontade de crescer, ajudar, atender e sobretudo, disposição para ouvir.

E é bonito ver seus irmãos compartilhando aquilo que já aprenderam, orientando, corrigindo, explicando e tendo paciência para ajudá-lo a construir seu próprio caminho.

Essa talvez seja uma das maiores riquezas do nosso projeto.  Eles não competem entre si. Eles se completam.

E há outra coisa que tenho aprendido nessa convivência.

Durante muitos anos, fui eu quem ensinou. Hoje, sob a batuta deles em muitas situações, sou eu quem aprende diariamente.

Aprendo com a maneira como enxergam a tecnologia, com a velocidade com que absorvem informações, com a forma como lidam com os problemas, com a paciência que precisam ter e até com aquilo que, às vezes, fazem diferente de mim.

E isso não diminui em nada a minha história. Pelo contrário.

Talvez seja uma das maiores recompensas de uma vida profissional. Perceber que os filhos cresceram, tornaram-se homens e que chegou o momento de também aprender com eles. Hoje, são meus chefes.

À frente da Samba Corretora e agora com o Projeto Velox Seguros, estamos vivendo um novo momento.

E talvez o mais desafiador.  Trabalhar com uma rede constituída e gigante de pessoas que chegam ao mercado cheias de vontade de crescer, faturar e conquistar seu espaço, mas que muitas vezes ainda não possuem o conhecimento técnico necessário para enfrentar a complexidade do seguro.

É preciso ter paciência. É preciso ensinar. É preciso analisar cada situação, resolver conflitos, orientar, acompanhar propostas, explicar procedimentos e muitas vezes, “pegar nas mãos” de quem está começando.

E esses três caras têm feito isso diariamente. Não é pouca coisa.

É um trabalho que exige conhecimento, dedicação, equilíbrio e acima de tudo, generosidade para compartilhar aquilo que aprenderam.  Por vezes, ouvir desabafos, razoavelmente ingratos de quem não percebe as regras de um sistema “bruto” e cheio de detalhes.

Tudo isso me leva a crer que, juntos, podemos chegar novamente ao topo.

Reconquistar aquilo que um dia foi o brilho da San Martin, que chegou a ser a segunda maior corretora de seguros do franchising brasileiro.

Sede do Grupo Velox e da Velox Seguros
O Projeto Velox Corretora de Seguros, em continuidade à Samba Brasil, nasce com a ambição de construir uma das melhores corretoras de seguros do Brasil. E temos, para isso, ao nosso lado, a confiança e carta branca de empresários competentes como Mário Sergio e Edmundo Diniz, sócios do Grupo Velox, que, através da Velox Soluções e da Velox Solar, trazem para esse projeto a experiência e a expertise acumuladas na condução de suas próprias e vigorosas redes.

E pra complicar muito, pra concorrência, nos próximos dias, teremos ainda a chegada de um novo componente ao nosso quadro societário, vindo de uma seguradora e trazendo novas forças, conhecimento e novas possibilidades para fortalecer nossa atuação no mercado de seguros.

Mas quero deixar algo registrado aqui.

Sim, há muita vontade em mim. Há energia. Há vigor. Mas eu não teria conseguido voltar para essa luta sozinho.

Se estou novamente disposto a enfrentar desafios, construir, empreender e sonhar grande é porque tenho ao meu lado o Rafa, o Gabri e o Dani. Meus filhos. Meus parceiros. Meus companheiros de trabalho. E acima de tudo, três homens que escolheram estar aqui. Não por obrigação. Não simplesmente por serem meus filhos. Mas porque entenderam que havia uma história que precisava ser preservada, um trabalho que precisava ser reconstruído e uma base que precisava ser fortalecida.

E talvez seja exatamente isso que permitirá que cada um deles, no futuro, possa seguir ainda mais longe.

Porque crescer agora não significa apenas crescer a empresa. Significa, antes de tudo, construir conhecimento, experiência, caráter, responsabilidade e uma linha de conduta que lhes permita, amanhã, perseguir seus próprios sonhos, sejam eles quais forem.

Quero deixar para eles mais do que uma empresa. Quero deixar uma maneira de trabalhar, uma reputação, uma história e princípios que possam sustentar os próximos passos.

Cada um com seu jeito, sua personalidade, suas virtudes e também seus desafios. Mas todos contribuindo para que uma história iniciada há mais de três décadas possa ganhar um novo capítulo.

E talvez essa seja a maior vitória de todas. Perceber que aquilo que construí ao longo de uma vida profissional não precisa simplesmente terminar em mim.

Pode ser transformado por eles. Pode ser ampliado por eles. Pode até ser superado por eles.

E espero, sinceramente, que seja.

Porque o maior orgulho de um pai não é ver os filhos repetirem os seus passos. É vê-los caminhar com as próprias pernas.

Que venham os novos desafios. Que venham os novos parceiros, os novos franqueados e os novos projetos. Que venham as lutas e enfrentamentos da concorrência, quase sempre extremamente agressiva.

Vamos trabalhar, aprender, ensinar, corrigir, crescer e acima de tudo, permanecer juntos.

Porque se existe uma coisa que aprendi nesses anos é que grandes empresas podem ser construídas com estratégia, competência e trabalho. Mas grandes histórias só são construídas com confiança, companheirismo, dedicação, princípios e muito, mas muito amor envolvido.

Obrigado, Rafa. Obrigado, Gabri. Obrigado, Dani.

Vocês são incríveis. Fundamentais. Essenciais. E a presença de vocês nos nossos projetos é a energia necessária para que possamos perseguir nossos objetivos comuns.

Tenho orgulho dos filhos que criei. Mas tenho ainda mais orgulho dos homens que vocês se tornaram.

E a partir de agora, quero continuar ensinando o que puder, mas principalmente quero continuar aprendendo muito com vocês.

Vamos juntos. A história ainda não terminou. O melhor ainda está por vir.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BETs - quando a aposta deixa de ser diversão e começa a comer a renda das famílias

 

Imagem - Agência GOV BR

Há uma mentira confortável sendo vendida aos brasileiros, a saber, de que as bets são apenas uma forma moderna de entretenimento, uma diversão inofensiva para quem quer arriscar alguns reais.

Não são. O tamanho que esse mercado alcançou e principalmente, a forma como ele passou a disputar o dinheiro das famílias brasileiras transformaram as apostas online em um problema econômico e social que o país não pode mais tratar como simples questão de gosto individual.

Os números são impressionantes. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), com base em informações do Banco Central, mostram que as bets movimentaram cerca de R$ 351 bilhões em transferências via Pix no período analisado, enquanto as perdas líquidas das famílias chegaram a R$ 62,5 bilhões. Isso significa dinheiro que entrou nas plataformas e não voltou para os apostadores na forma de prêmios. O valor equivale a cerca de 68 milhões de cestas básicas paulistas, tomando como referência os R$ 915,01 registrados pelo DIEESE em julho de 2026.

E aqui está uma questão que deveria provocar indignação. R$ 62,5 bilhões não são dinheiro que apareceu do nada. São recursos que saíram do orçamento de pessoas e famílias. Dinheiro que poderia estar pagando uma conta, comprando alimentos, quitando uma dívida, comprando uma roupa, fazendo uma pequena reforma, pagando uma escola, frequentando um restaurante ou simplesmente ficando guardado para enfrentar uma emergência.

O Banco Central já havia identificado o problema antes mesmo de termos a dimensão atual do fenômeno. Em agosto de 2024, estimou cerca de R$ 20,8 bilhões em transferências mensais para empresas de apostas e calculou que aproximadamente 15% do valor apostado ficava retido pelas plataformas. Mais preocupante ainda é que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets naquele mês, sendo que 4 milhões eram chefes de família. O próprio Banco Central advertiu que as famílias de baixa renda estavam entre as mais prejudicadas e que o fenômeno merecia atenção por seus efeitos sobre o bem-estar financeiro e a economia.

Não estamos, portanto, falando apenas de pessoas com dinheiro sobrando procurando diversão. Estamos falando de uma indústria que descobriu uma maneira extremamente eficiente de alcançar justamente quem tem menos margem financeira.

Uma pesquisa do Procon-SP, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, encontrou outro dado assustador. 39,7% dos apostadores pesquisados disseram ter se endividado depois de começar a apostar. E uma pesquisa nacional do CNDL/SPC Brasil mostrou que, entre os apostadores, 19% admitiram ter comprometido a própria renda, 17% deixaram de pagar alguma conta para jogar e 29% já tiveram o nome negativado por causa das apostas.

O problema não termina no bolso do apostador. Ele chega ao comércio.

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou aproximadamente R$ 143 bilhões do comércio varejista, cerca de 2,5% do faturamento do setor no período. A entidade estima ainda que os gastos com apostas passaram de R$ 30 bilhões por mês e contribuíram para o agravamento da inadimplência. É importante registrar que o setor de apostas contestou a metodologia da CNC e afirmou que o endividamento brasileiro tem múltiplas causas, como juros elevados e custo do crédito. A contestação deve ser considerada, mas ela não apaga os demais dados que mostram a transferência de renda das famílias para as plataformas.

E é justamente aí que precisamos discutir as bets também como um problema macroeconômico.

Quando uma família compra comida, paga uma prestação, contrata um serviço ou compra um produto no comércio local, aquele dinheiro continua circulando.  Remunera trabalhadores, paga fornecedores, gera impostos e volta para a economia. Quando parte desse dinheiro é perdida em uma aposta, a família não recebe um produto ou serviço equivalente em troca. E quando a perda é grande, ela ainda pode precisar recorrer a crédito para pagar aquilo que antes seria pago com a própria renda.

Isso cria um efeito perverso.  A pessoa aposta porque precisa melhorar sua renda.  Perde dinheiro e reduz o consumo.  Endivida-se e depois precisa trabalhar mais ou tomar crédito para recompor aquilo que perdeu.

É uma máquina de transformar esperança em dívida.

Também precisamos tomar cuidado com a forma como interpretamos os indicadores econômicos. Não é correto afirmar que as bets simplesmente "maquiam" o PIB ou que todo dinheiro apostado representa crescimento econômico. Nas contas nacionais, não se contabiliza o valor bruto apostado como se fosse produção. Mas existe, sim, um problema de interpretação quando olhamos apenas para determinados indicadores de atividade e ignoramos para onde está indo a renda das famílias e qual é a qualidade desse consumo.

Uma economia pode registrar emprego, renda e circulação financeira enquanto milhões de pessoas estão comprometendo sua renda com apostas. Pode haver dinheiro circulando e ao mesmo tempo, famílias reduzindo a compra de alimentos, roupas, serviços e bens duráveis. Pode haver crescimento nominal da atividade sem que isso signifique melhora proporcional do bem-estar.

É preciso olhar não apenas quanto dinheiro circula, mas o que esse dinheiro está financiando.

E há uma diferença fundamental entre uma economia que cresce porque as famílias consomem, as empresas investem e os trabalhadores recebem melhores salários e uma economia em que uma parcela crescente da renda disponível é capturada por um mercado cuja lógica matemática é fazer com que, no conjunto, o apostador perca.

As bets podem até gerar impostos e empregos. Será? Mas isso não transforma um modelo baseado na perda financeira de milhões de consumidores em uma política de desenvolvimento. O governo já precisou proibir crédito para apostas, bônus de entrada e cartão de crédito justamente para tentar conter o endividamento. Também criou mecanismos de autoexclusão para impedir que pessoas bloqueadas continuem apostando.

Isso demonstra que até o Estado reconhece que não estamos diante de um mercado qualquer.

Precisamos parar de aceitar a propaganda que apresenta a aposta como investimento, renda extra ou caminho para mudar de vida. Aposta não é investimento. Aposta não é renda. E para a imensa maioria, não é caminho para enriquecimento.

É um jogo em que a plataforma conhece as probabilidades antes de você jogar.

Por isso, a discussão brasileira não deveria ser simplesmente se somos "a favor" ou "contra" quem aposta. Precisamos perguntar algo muito maior. Quanto de renda das famílias brasileiras estamos dispostos a permitir que seja drenado por uma indústria que cresce justamente sobre a esperança de quem precisa de dinheiro?

“Quando a aposta começa a disputar espaço com a comida, com a conta de luz, com o aluguel, com a prestação e com a cesta básica, ela deixou de ser entretenimento.

Virou um problema econômico, social e de saúde pública.

E diante de um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais, endivida milhões de brasileiros e retira recursos do consumo cotidiano, não basta dizer ao cidadão: "jogue com responsabilidade".

É hora de dizer às bets que lucro não pode valer mais do que a proteção das famílias brasileiras.

domingo, 9 de agosto de 2026

943 árvores não são apenas 943 árvores

Mais uma vez a administração pública de Rio Preto, na pessoa do seu executivo o Prefeito Fábio Cândido do PL, quer solucionar alguma coisa com "machadadas" a exemplo das "marteladas" do governador do Estado de sua mesma linha política.

A obra que visa minimizar o impacto das enchentes na Murchid Honsi, propõe o corte de quase mil árvores.

É revoltante imaginar que uma decisão com impacto tão grande sobre o meio ambiente e a qualidade de vida de Rio Preto possa avançar sem transparência, sem diálogo amplo com a população e sem que sejam apresentadas, de forma convincente, todas as alternativas possíveis.

Estamos falando de 943 árvores. São décadas de crescimento, sombra, equilíbrio ambiental, redução do calor, qualidade do ar e vida para a nossa cidade. Não se pode tratar uma árvore como simples obstáculo a uma obra ou a um projeto. Antes de qualquer corte, é obrigação do poder público demonstrar que todas as possibilidades de preservação, adequação, transplante ou alteração do projeto foram efetivamente estudadas.

O que não podemos aceitar é a lógica do “é preciso cortar e pronto”. A população tem o direito de saber quem decidiu, por quê, com base em quais estudos, quais alternativas foram analisadas e por que foram descartadas.

Desenvolvimento não pode ser sinônimo de destruição. Obras públicas precisam respeitar a cidade, o meio ambiente e, principalmente, as pessoas que vivem nela.

Por isso, quarta-feira, 12 de agosto, às 18h30, na Câmara Municipal, teremos uma audiência pública sobre a questão das árvores da Murchid Honsi.

Rio Preto precisa estar presente. Não podemos deixar que 943 árvores sejam reduzidas a uma estatística. Vamos ocupar a Câmara, exigir transparência e defender o direito da população de participar das decisões sobre a cidade que é de todos nós.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Soberania não se comunica com resignação

Imagem - Correio Brasiliense

 É evidente que nenhuma pessoa minimamente informada acredita que o Brasil tenha capacidade militar para enfrentar sozinho uma potência como os Estados Unidos em um conflito convencional. Essa constatação não é o problema. O problema é quando essa ideia é expressa pelo próprio ministro da Defesa em termos como "abrir o portão". Um ministro dessa área não representa apenas uma opinião pessoal.  Ele representa a postura institucional de um país soberano.

A função de um ministro da Defesa é transmitir confiança, capacidade de dissuasão e compromisso permanente com a proteção da integridade nacional. Mesmo quando defende a necessidade de ampliar investimentos nas Forças Armadas, sua comunicação deve reforçar que o Brasil trabalha para preservar sua soberania, fortalecer sua indústria de defesa e garantir condições para proteger seu território e seus interesses. É justamente esse o argumento que o próprio ministro vem apresentando ao defender um orçamento mais previsível para o setor.

Governos democráticos precisam conciliar transparência com responsabilidade institucional. Reconhecer limitações orçamentárias é legítimo. Transformá-las em uma metáfora de rendição pode transmitir uma mensagem muito diferente da pretendida. Em política internacional, palavras têm peso. Elas influenciam a percepção sobre a capacidade, a confiança e a determinação de um país.

Cabe ao presidente da República, como comandante supremo das Forças Armadas, definir a orientação política da área de Defesa e assegurar que a comunicação de seus ministros esteja alinhada aos interesses permanentes do Estado brasileiro. O Brasil deve investir em sua capacidade de defesa não para alimentar aventuras militares, mas para fortalecer a soberania, ampliar sua capacidade de dissuasão e demonstrar que a paz se constrói, também, pela credibilidade de suas instituições.


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Espiritismo e eleições: é possível ser progressista à luz de Kardec?

 

A cada período eleitoral, muitos espíritas voltam a se perguntar qual deve ser sua postura diante da política. Afinal, um espírita pode assumir um posicionamento político definido? É possível ser progressista sem contrariar os ensinamentos de Allan Kardec? Ou a Doutrina Espírita exige neutralidade absoluta diante das questões sociais?

A resposta exige uma reflexão serena e, acima de tudo, fiel à obra kardequiana. O Espiritismo não nasceu como uma doutrina política, nem pretendeu indicar partidos, candidatos ou modelos de governo. Allan Kardec jamais procurou transformar a Doutrina em instrumento de disputa ideológica. Ao contrário, preocupou-se em oferecer princípios morais capazes de orientar o progresso espiritual do ser humano, preservando sempre a liberdade de consciência e o uso da razão.

Isso, entretanto, não significa que o espírita deva ser indiferente aos problemas da sociedade. O próprio Espiritismo ensina que o progresso da humanidade ocorre simultaneamente em duas dimensões.  A do indivíduo e a das instituições humanas. À medida que os Espíritos evoluem moralmente, também são chamados a construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec apresenta a Lei de Justiça, Amor e Caridade como uma das leis morais que regem a vida humana. Ensina também que todos os Espíritos são criados simples e ignorantes, iguais perante Deus e destinados ao aperfeiçoamento. Não há privilégios naturais entre os homens que justifiquem a exploração, a opressão ou a negação da dignidade de qualquer pessoa.

Esses princípios possuem profundas implicações sociais. Defender políticas que combatam a pobreza, ampliem oportunidades, reduzam desigualdades, fortaleçam a educação, promovam a saúde pública e garantam proteção aos mais vulneráveis pode ser uma consequência natural da compreensão que muitos espíritas têm da lei de amor ao próximo. Para esses espíritas, assumir uma posição progressista não representa abandonar Kardec, mas procurar aplicar, na organização da sociedade, os valores de fraternidade, solidariedade e justiça ensinados por Jesus e reafirmados pela Doutrina Espírita.

Isso não significa afirmar que o Espiritismo seja uma doutrina de esquerda ou que Kardec defenderia determinado partido político. Tal conclusão não encontra respaldo em suas obras. O Espiritismo oferece princípios, não programas de governo. Ele forma consciências, não eleitorados. Cabe a cada indivíduo, utilizando sua inteligência, seu conhecimento da realidade e sua consciência moral, escolher quais propostas considera mais coerentes com esses princípios.

Da mesma forma, espíritas podem chegar a conclusões políticas diferentes sem, por isso, deixarem de ser sinceros seguidores da Doutrina. A diversidade de opiniões faz parte da liberdade de consciência defendida por Kardec. O que não encontra amparo na ética espírita é a intolerância, o fanatismo, o ódio, a mentira deliberada, a perseguição aos adversários ou a utilização da religião como instrumento de manipulação política.

O espírita deve lembrar que nenhum candidato representa o bem absoluto e nenhum adversário encarna o mal absoluto. A visão espírita convida à humildade, ao discernimento e à compreensão das imperfeições humanas. Todos estamos em processo de evolução, inclusive aqueles que exercem funções públicas.

Também é importante recordar que Jesus jamais se omitiu diante das injustiças de seu tempo. Não organizou partidos nem buscou o poder político, mas colocou-se sempre ao lado dos marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos excluídos. Sua mensagem rompeu estruturas sociais injustas ao proclamar que todos são filhos de Deus e igualmente dignos de respeito e amor.

Inspirado por esse exemplo, o espírita pode compreender que participar da vida política é também uma forma de exercer a caridade. Votar com responsabilidade, acompanhar os governantes, defender políticas públicas que promovam o bem comum, combater a corrupção e exigir honestidade dos representantes são formas legítimas de colaborar para o progresso coletivo.

Ser progressista, portanto, não é incompatível com o Espiritismo. Tampouco ser conservador exclui alguém da vivência espírita. O que define a fidelidade à Doutrina não é a posição ideológica, mas a maneira como cada pessoa vive os ensinamentos de justiça, amor, caridade, respeito, tolerância e fraternidade.

Nas próximas eleições, talvez a pergunta mais importante não seja em quem votar, mas quais valores orientarão essa escolha. O espírita coerente procurará candidatos e propostas que respeitem a dignidade humana, promovam a paz, combatam as desigualdades sem alimentar o ódio e fortaleçam uma sociedade onde todos possam desenvolver plenamente suas potencialidades.

Em última análise, Kardec nos convida a pensar antes de seguir, a raciocinar antes de repetir e a agir sempre movidos pelo amor ao próximo. Se nossas escolhas políticas nascerem dessa consciência, estaremos exercendo não apenas um direito de cidadania, mas também um compromisso com o progresso moral da humanidade.

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Terrorismo, soberania e o velho complexo de vira-lata

 

Imagem - ICL Notícias
O governo dos Estados Unidos decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas estrangeiras”. A medida veio logo após a visita de Flávio Bolsonaro a autoridades americanas e foi celebrada pela extrema-direita brasileira como se fosse uma medalha de honra nacional. Mas antes do delírio colonizado dos patriotas de joelho dobrado diante da bandeira dos EUA, talvez seja necessário fazer algumas perguntas sérias.

Desde quando cabe a um governo estrangeiro definir unilateralmente o enquadramento jurídico de organizações que atuam em território brasileiro?

Desde quando a soberania nacional virou mera sugestão diplomática?

O Brasil possui legislação própria sobre terrorismo. E o próprio governo brasileiro, por meio de especialistas em segurança pública, já afirmou anteriormente que PCC e CV não se enquadram juridicamente na definição de terrorismo prevista em nossa legislação, justamente porque não possuem motivação política, religiosa ou ideológica. São organizações criminosas violentas? Evidentemente. Mas isso não autoriza qualquer potência estrangeira a reclassificar juridicamente fenômenos internos brasileiros conforme seus interesses geopolíticos.

Porque é disso que se trata.

Os Estados Unidos nunca agem apenas por princípios abstratos. A história mundial mostra exatamente o contrário. Quando Washington decide transformar algo em “ameaça à segurança nacional”, normalmente o passo seguinte envolve pressão diplomática, sanções, interferência econômica, espionagem, cooperação militar assimétrica ou tutela política.

É exatamente aí que mora o perigo.

Hoje classificam facções brasileiras. Amanhã alegam que existe ameaça regional. Depois dizem que precisam “cooperar diretamente” no combate ao terrorismo dentro do território nacional. E quando percebemos, parte da elite brasileira já está aplaudindo a relativização da própria soberania em nome da submissão ideológica aos interesses americanos.

O mais impressionante é ver setores que se dizem patrióticos comemorando isso.

Patriotas de verdade defendem a autonomia nacional. Não entregam prerrogativas estratégicas do país para governos estrangeiros. Não transformam o Brasil em quintal geopolítico dos Estados Unidos. Não vibram quando autoridades estrangeiras passam a reivindicar autoridade moral, política ou operacional sobre problemas internos brasileiros.

O combate ao crime organizado é obrigação do Estado brasileiro. Das instituições brasileiras. Da inteligência brasileira. Das leis brasileiras.

Ou agora teremos que pedir autorização em Washington para definir nossa política de segurança pública?

E é inevitável a pergunta: qual foi exatamente o papel da visita de Flávio Bolsonaro nessa decisão?

Porque, se houve participação direta de um senador brasileiro estimulando uma potência estrangeira a endurecer mecanismos de pressão internacional sobre o próprio país, o debate deixa de ser apenas diplomático e passa a envolver algo muito mais profundo. A deterioração completa do conceito de soberania entre setores da extrema-direita brasileira.

Existe uma diferença brutal entre cooperação internacional e submissão política.

Uma coisa é trocar informações, integrar inteligência e combater fluxos internacionais do crime organizado. Outra, completamente diferente é celebrar a ampliação informal do poder político estadunidense sobre assuntos internos brasileiros.

O Brasil não precisa de tutela estrangeira. Precisa de instituições fortes, inteligência estatal séria, investimento em investigação financeira, controle de fronteiras e combate estrutural às organizações criminosas.

Mas talvez isso dê menos likes do que posar sorridente ao lado de autoridades do norte enquanto se terceiriza a própria soberania nacional.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Patriotismo em Inglês dos Bolsonaro. O bolsonarismo tentando trocar de máscara.

Imagem ICL Notícias

A extrema-direita brasileira começa a viver um problema que sempre tentou esconder atrás do marketing agressivo, dos vídeos inflamados e do patriotismo performático.  A ausência completa de projeto político real para o país. E talvez nenhum símbolo disso seja mais evidente do que a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas presidenciais e o constrangimento cada vez maior produzido pelos movimentos da própria família Bolsonaro.

Enquanto o presidente Lula governa, articula internacionalmente, entrega obras, recompõe políticas públicas e tenta reorganizar um país devastado pelo negacionismo e pelo caos administrativo, o bolsonarismo parece preso numa mistura de ressentimento, escândalo e autopromoção caricata. O episódio envolvendo recursos ligados ao banqueiro Vorcaro, associados à tentativa de produção de um filme político sobre Bolsonaro, escancarou algo constrangedor.  A transformação definitiva da política bolsonarista numa indústria familiar de vitimização e propaganda.

E talvez nada represente melhor esse ridículo do que a ideia de produzir um filme em inglês para falar de patriotismo brasileiro. É quase uma metáfora perfeita da lógica vira-lata do bolsonarismo. Passaram anos berrando “Brasil acima de tudo”, enrolados em bandeiras nacionais, enquanto sonhavam, no fundo, com aplausos vindos de Miami, da Flórida ou dos círculos mais radicais da direita internacional. Não é nacionalismo. É dependência cultural fantasiada de conservadorismo tropical.

A própria trajetória de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos reforça isso. Um parlamentar brasileiro que prefere atuar como influencer político internacional contra o próprio país enquanto alimenta narrativas de perseguição para consumo externo. Um patriotismo tão frágil que precisa ser legendado em inglês para existir.

E agora, diante do desgaste crescente de Flávio, surge de maneira cada vez mais organizada a figura de Michelle Bolsonaro. Não como uma liderança política construída no debate público, na formulação de ideias ou na experiência administrativa, mas como produto cuidadosamente embalado para manter viva a marca eleitoral bolsonarista. Uma candidatura que avança sorrateiramente, protegida pela estética religiosa, pela linguagem emocional e pela blindagem construída em setores conservadores.

O presidente do PL sabe disso. Sabe que o sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza uma parcela importante do eleitorado radicalizado, mas também percebe que Flávio Bolsonaro, agora carrega rejeição elevada, problemas judiciais e enorme desgaste político. Michelle aparece, então, como uma alternativa menos agressiva na aparência, embora profundamente vinculada ao mesmo projeto autoritário, moralista e antipopular.

A estratégia é evidente, ou seja, trocar o grito pela doçura ensaiada, substituir a brutalidade explícita por um discurso emocional cuidadosamente moldado para as redes sociais e para setores religiosos. Mas o conteúdo permanece o mesmo. Continua ali o ataque às minorias, o negacionismo social, a submissão ao mercado financeiro, o moralismo seletivo e a exploração política da fé. E claro, toda a história de desvios, encobertas de malfeitos e outras questões nunca explicadas devidamente ao eleitorado da direita.

No fundo, o bolsonarismo tenta sobreviver mudando a embalagem sem alterar o produto.

E talvez seja justamente isso que faça, a partir de agora, parte do Brasil enxergar.

domingo, 10 de maio de 2026

Entre a origem e o sentido. Por que o Dia das Mães ainda importa.

 

Imagem - News Brasil

Muito se tem dito sobre as contradições que envolvem o Dia das Mães. A história de Anna Jarvis é frequentemente resgatada para lembrar que a data nasceu de um gesto sincero de amor e reconhecimento e não de uma estratégia de mercado. De fato, ao idealizar a homenagem à sua mãe, Ann Reeves Jarvis, Anna desejava um dia de reflexão, afeto verdadeiro e valorização das mulheres, longe das vitrines, das campanhas publicitárias e do consumo desenfreado que, mais tarde, passariam a marcar a celebração.

Esse resgate histórico é importante e merece respeito. No entanto, há um equívoco em transformar essa crítica em negação do próprio valor que a data adquiriu ao longo do tempo. O fato de o Dia das Mães ter sido incorporado à lógica comercial não anula, por si só, o seu significado mais profundo. Afinal, vivemos em uma sociedade onde praticamente todas as datas simbólicas convivem com o mercado. Ainda assim, isso não impede que sejam, também, momentos legítimos de encontro, memória e expressão de sentimentos.

Reduzir o Dia das Mães a uma “data comercial” é, em certa medida, desconsiderar a experiência concreta de milhões de pessoas que encontram nesse dia uma oportunidade, muitas vezes rara, de expressar gratidão, carinho e reconhecimento.

Em meio à correria da vida cotidiana, nem sempre conseguimos dizer o que sentimos. Há afetos que ficam adiados, palavras que não encontram tempo. E nesse contexto, datas como essa funcionam como um convite coletivo à pausa, à lembrança e ao gesto.

É preciso reconhecer que o valor de uma data não está apenas na sua origem, mas naquilo que fazemos com ela. Se há quem compre presentes por obrigação ou convenção, há também quem escreva mensagens sinceras, quem abrace mais forte, quem relembre histórias, quem agradeça. O comércio pode até cercar a data, mas não é capaz de esvaziar, por completo, o sentido que cada pessoa decide atribuir a ela.

Além disso, o próprio conceito de maternidade se ampliou. Hoje, celebramos não apenas as mães biológicas, mas todas as formas de cuidado, dedicação e amor que se manifestam na experiência de ser mãe, inclusive aquelas construídas por escolha, por vínculo e por afeto. Isso torna a data ainda mais relevante, pois reconhece a diversidade das relações humanas e a profundidade do papel que essas mulheres exercem na formação de vidas.

Honrar o Dia das Mães, portanto, não é ignorar sua história, mas dar continuidade ao seu propósito essencial. É reconhecer que, mesmo em um mundo marcado por contradições, ainda somos capazes de transformar uma data em algo significativo. Celebrar não é se render ao consumo.  É reafirmar valores.

Porque, no fim das contas, o que sustenta o Dia das Mães não são as vitrines, mas os sentimentos. E enquanto houver amor, memória e gratidão, sempre haverá motivo, legítimo e necessário, para celebrar.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Juventude velhaca ou envelhecida?

Jovens na Fila dos Cartórios - 1º título eleitoral
Imagem - Agência Nacional

Existe algo de profundamente inquietante no nosso tempo. Uma parcela da juventude brasileira, que deveria representar rebeldia contra injustiças, defesa de direitos e abertura ao novo, parece caminhar na direção oposta.  Abraça discursos autoritários, veste símbolos da extrema-direita e em muitos casos, transforma a intolerância em identidade política.

A pergunta que surge é inevitável: o que está acontecendo?

Talvez estejamos diante de uma juventude sem memória histórica. Jovens que não viveram os anos duros da ditadura militar brasileira e que, por isso, não conseguem dimensionar o peso da censura, da tortura, da perseguição política e da ausência de liberdade. Da mesma forma, muitos desconhecem as consequências sociais da hiperinflação do governo Sarney, do confisco da poupança promovido por Fernando Collor de Mello ou dos desmontes trabalhistas e previdenciários ocorridos durante o governo Michel Temer.

Sem essa memória, parte da juventude passa a enxergar a política apenas pela superfície das redes sociais, dos cortes rápidos, dos memes e da estética do confronto. E isso é decisivo. A extrema-direita compreendeu antes de muitos setores progressistas que, no mundo digital, emoção mobiliza mais do que argumento. Raiva, medo, sensação de pertencimento e discurso simplificado têm enorme poder de sedução, principalmente em tempos de insegurança econômica, ansiedade social e crise de perspectivas.

Há também um elemento psicológico importante.  Muitos jovens cresceram em um ambiente de hipercompetição, individualismo e frustração. Encontram dificuldade de inserção econômica, convivem com trabalhos precarizados e vivem sob constante pressão por desempenho e reconhecimento. Nesse contexto, discursos autoritários oferecem algo sedutor.  Respostas fáceis para problemas complexos e a falsa sensação de força e identidade.

Isso não significa que toda juventude conservadora seja “descerebrada”, como muitas vezes a indignação nos leva a afirmar. Seria um erro repetir a mesma lógica de desumanização que criticamos. O desafio talvez seja outro.  Compreender como uma geração conectada a tudo pode, paradoxalmente, estar desconectada da própria história.

Também existe uma falha das forças democráticas e progressistas. Durante muito tempo, acreditou-se que avanços sociais falariam por si mesmos. Mas direitos sem memória política se tornam frágeis. Quando a história deixa de ser ensinada de maneira viva, emocional e concreta, ela passa a parecer distante, abstrata e irrelevante para quem não a viveu.

O resultado é uma juventude que, em alguns casos, envelhece antes do tempo. Não biologicamente, mas moral e politicamente. Jovens que deveriam sonhar com mais liberdade acabam defendendo controle. Que deveriam ampliar direitos acabam relativizando desigualdades.  Que deveriam combater opressões acabam reproduzindo intolerância.

Ainda assim, seria injusto transformar essa reflexão numa condenação definitiva da juventude. Há milhares de jovens organizados em movimentos sociais, universidades, coletivos culturais e lutas populares. A disputa está em aberto. E talvez a saída não esteja em desprezar ou ridicularizar quem pensa diferente, mas em reconstruir pontes de diálogo, memória e consciência crítica.

Porque nenhuma geração nasce pronta. Toda juventude é, antes de tudo, um território em disputa.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Entre tensões globais e impasses internos, para onde estamos indo?

 

Imagem - ICL Noticias
O cenário político atual, no Brasil e no mundo, revela um tempo de instabilidade, disputas e decisões que impactam diretamente a vida das pessoas.

Até por isso, Lula visita Trump com a clara tarefa de exigir (ou negociar) seu distanciamento do processo eleitoral brasileiro.

Como vimos, no plano internacional, aumentam as tensões e os conflitos. Rússia e Ucrânia, com destaque para Irã, EUA e Libano, esses por conta de Israel, agora envolto no episódio da prisão do ativista brasileiro.

Ações estatais e denúncias de violações de direitos que reacendem debates importantes sobre soberania, justiça e direitos humanos.

Esses acontecimentos não são distantes, pois refletem um mundo em que a política internacional volta a ocupar o centro das preocupações.

No Brasil, o ambiente político também segue marcado por forte disputa institucional. O governo do presidente Lula enfrenta dificuldades na articulação com o Congresso, com episódios recentes como a rejeição do indicado do presidente ao Supremo e a derrubada dos vetos presidenciais sobre a PL da dosimetria, que evidenciam essa tensão.

Nesse contexto, iniciativas de investigação e controle, como a proposta de CPI envolvendo o Banco Máster, ganham relevância ao colocar em debate a necessidade de transparência e responsabilização no sistema financeiro e nas relações institucionais, sobretudo expondo os envolvidos do Congresso inimigo do povo.

Ao mesmo tempo, o debate político nacional segue atravessado por projetos distintos de país, representados por diferentes lideranças, como Romeu Zema, que se posiciona dentro da extrema-direita e tem apresentado propostas que geram debates e divergências sobre seus impactos sociais e econômicos.  Dentre elas o aumento da idade para aposentadorias, a liberação do trabalho infantil e outros absurdos.

Diante desse cenário, o que se impõe é uma reflexão mais profunda.  Qual projeto de sociedade queremos construir? Um país marcado por conflitos institucionais e disputas permanentes, ou um ambiente político capaz de equilibrar interesses, garantir direitos e promover desenvolvimento com justiça social?

A resposta a essa pergunta não está apenas nos governos ou nas lideranças, mas na capacidade da sociedade de acompanhar, compreender e participar do debate público com responsabilidade e consciência crítica.

Mais do que nunca, o momento exige atenção, informação qualificada e compromisso com os valores democráticos.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Espiritismo, Evangelho e Política

 

Imagem Carta Capital
Em tempos de intensa polarização é comum ouvirmos que espiritualidade e política não devem se misturar.

No entanto, essa separação rígida nem sempre encontra respaldo nas próprias bases morais que orientam muitas tradições religiosas.

No caso da doutrina espírita, codificada por Allan Kardec, há elementos claros que apontam para a importância da vida em sociedade como campo de evolução moral, o que inevitavelmente nos conduz à reflexão sobre o papel da política em nossas vidas.

Em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões que tratam da lei de sociedade, afirma-se que o ser humano não foi feito para viver isolado. A convivência é uma necessidade natural e é por meio dela que se desenvolvem virtudes, se corrigem imperfeições e se constrói o progresso coletivo.

Se viver em sociedade é uma lei natural, então a forma como essa sociedade se organiza também se torna uma responsabilidade humana. E é exatamente nesse ponto que a política, entendida como organização da vida comum, se insere.

A doutrina espírita também aborda a lei de justiça, amor e caridade, indicando que as leis humanas devem se aproximar cada vez mais das leis divinas. Quando há desigualdade, exploração ou injustiça, isso não é reflexo de uma ordem superior, mas sim das imperfeições humanas ainda presentes. Cabe, portanto, ao próprio homem trabalhar pela melhoria dessas estruturas. Essa tarefa não se limita ao campo individual, mas se estende às instituições, às leis e às decisões coletivas que moldam a sociedade.

Nesse sentido, a omissão diante das questões sociais não parece compatível com o ideal espírita. Se temos consciência, se compreendemos o certo e o errado, somos também responsáveis por agir, não apenas em nossas relações pessoais, mas no espaço coletivo. A política, nesse contexto, deixa de ser um território distante ou “impuro” e passa a ser um instrumento possível de construção do bem comum.

Os ensinamentos de Jesus Cristo reforçam ainda mais essa perspectiva. Ao longo do Evangelho, vemos uma mensagem profundamente comprometida com a dignidade humana. Jesus não se limitou a discursos abstratos.  Esteve ao lado dos marginalizados, confrontou hipocrisias, denunciou injustiças e apontou para uma ética baseada no amor ao próximo. Quando ensina “amai-vos uns aos outros” ou “fazei ao próximo o que quereis que vos façam”, ele estabelece princípios que, se levados a sério, têm impacto direto na organização da sociedade.

Não se trata de defender partidos ou ideologias específicas, mas de reconhecer que a construção de uma sociedade mais justa exige posicionamento, consciência e participação. A neutralidade absoluta, diante de cenários de desigualdade e sofrimento, pode significar, na prática, a manutenção dessas mesmas condições.

Assim, tanto a doutrina espírita quanto os ensinamentos do Evangelho convergem em um ponto essencial, a saber, que a vida em sociedade é parte do processo evolutivo do ser humano, e a busca por justiça, dignidade e fraternidade não pode ser apenas individual, precisa também se refletir nas estruturas coletivas.

Participar, refletir, escolher e agir são, portanto, expressões não apenas de cidadania, mas também de compromisso moral. Afinal, transformar o mundo ao nosso redor é em última instância, uma das formas mais concretas de viver aquilo que se acredita.

sábado, 25 de abril de 2026

Entre o craque e o homem

 

Imagem UOL
Meu pai era corinthiano daqueles de raiz. Mas, mais do que isso, era apaixonado pelo futebol bem jogado. Não era só o clube, era o espetáculo, a arte, o improviso, a genialidade em campo. E nisso ele era generoso. Reconhecia talento onde ele estivesse.

Por isso, nossas discussões eram inevitáveis.

Ele defendia Pelé com a convicção de quem não aceitava comparação. Eu, teimoso, tentava levar Diego Maradona ao mesmo altar. E ali, entre argumentos e provocações, travávamos batalhas que, hoje vejo, eram menos sobre futebol e mais sobre amor.  Aquele amor que só se expressa assim, no calor das palavras.

Mas foi na última Copa, em 2022, que tivemos nossa conversa mais difícil.

Já próximo de sua partida, meu pai ainda tinha energia pra defender o jogo bonito e, naquele momento, ele enxergava isso em Neymar. Dizia que era um grande jogador, que merecia respeito, que minhas críticas eram duras demais.

E eram mesmo.

Porque eu nunca consegui separar o jogador do homem. Nunca consegui ver só o drible, ignorando o que estava fora de campo. Meu pai, não. Ele tinha essa sabedoria.  Enxergava o futebol na sua essência, quase como uma obra de arte que existe por si.

Discutimos. Elevamos o tom. Como sempre fizemos.

Hoje, isso me dói.

Não pelo que pensamos, porque pensar diferente sempre fez parte de nós, mas pela intensidade, pelo excesso, pelo tempo que já não volta.

Com o passar dos dias, fui entendendo que meu pai via algo que eu ainda estou aprendendo a ver.  O futebol como linguagem própria, como beleza autônoma, como expressão que não precisa carregar todo o peso do mundo.

Ele entendia mais. E eu reconheço isso com humildade.

Mas ainda carrego em mim essa dificuldade, essa insistência em misturar o campo com a vida, o craque com o cidadão. Talvez seja defeito. Talvez seja convicção. Talvez seja só o meu jeito de ver o mundo.

E é por isso que, mesmo hoje, não consigo lamentar a ausência de Neymar em uma convocação. Há em mim algo que ainda cobra mais do que talento.

Meu pai, provavelmente, discordaria.

E talvez sorrisse diante disso.

No fim, nossas discussões nunca foram sobre quem estava certo. Foram sobre estarmos juntos, vivendo o futebol com paixão, cada um à sua maneira.

E se hoje eu penso diferente, ainda assim carrego comigo o que ele me ensinou sem dizer que o futebol, como a vida, é feito de olhares.

E o dele… era mais bonito que o meu.


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