Mais uma vez a administração pública de Rio Preto, na pessoa do seu executivo o Prefeito Fábio Cândido do PL, quer solucionar alguma coisa com "machadadas" a exemplo das "marteladas" do governador do Estado de sua mesma linha política.
A obra que visa minimizar o impacto das enchentes na Murchid Honsi, propõe o corte de quase mil árvores.
É revoltante imaginar que uma decisão com impacto tão grande sobre o meio ambiente e a qualidade de vida de Rio Preto possa avançar sem transparência, sem diálogo amplo com a população e sem que sejam apresentadas, de forma convincente, todas as alternativas possíveis.
domingo, 9 de agosto de 2026
943 árvores não são apenas 943 árvores
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Soberania não se comunica com resignação
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| Imagem - Correio Brasiliense |
É evidente que nenhuma pessoa minimamente informada acredita que o Brasil tenha capacidade militar para enfrentar sozinho uma potência como os Estados Unidos em um conflito convencional. Essa constatação não é o problema. O problema é quando essa ideia é expressa pelo próprio ministro da Defesa em termos como "abrir o portão". Um ministro dessa área não representa apenas uma opinião pessoal. Ele representa a postura institucional de um país soberano.
A função de um ministro da Defesa é transmitir
confiança, capacidade de dissuasão e compromisso permanente com a proteção da
integridade nacional. Mesmo quando defende a necessidade de ampliar
investimentos nas Forças Armadas, sua comunicação deve reforçar que o Brasil
trabalha para preservar sua soberania, fortalecer sua indústria de defesa e
garantir condições para proteger seu território e seus interesses. É justamente
esse o argumento que o próprio ministro vem apresentando ao defender um
orçamento mais previsível para o setor.
Governos democráticos precisam conciliar
transparência com responsabilidade institucional. Reconhecer limitações
orçamentárias é legítimo. Transformá-las em uma metáfora de rendição pode
transmitir uma mensagem muito diferente da pretendida. Em política internacional,
palavras têm peso. Elas influenciam a percepção sobre a capacidade, a confiança
e a determinação de um país.
Cabe ao presidente da República, como comandante supremo das Forças Armadas, definir a orientação política da área de Defesa e assegurar que a comunicação de seus ministros esteja alinhada aos interesses permanentes do Estado brasileiro. O Brasil deve investir em sua capacidade de defesa não para alimentar aventuras militares, mas para fortalecer a soberania, ampliar sua capacidade de dissuasão e demonstrar que a paz se constrói, também, pela credibilidade de suas instituições.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Espiritismo e eleições: é possível ser progressista à luz de Kardec?
A cada período eleitoral, muitos
espíritas voltam a se perguntar qual deve ser sua postura diante da política.
Afinal, um espírita pode assumir um posicionamento político definido? É
possível ser progressista sem contrariar os ensinamentos de Allan Kardec? Ou a
Doutrina Espírita exige neutralidade absoluta diante das questões sociais?
A resposta exige uma reflexão
serena e, acima de tudo, fiel à obra kardequiana. O Espiritismo não nasceu como
uma doutrina política, nem pretendeu indicar partidos, candidatos ou modelos de
governo. Allan Kardec jamais procurou transformar a Doutrina em instrumento de
disputa ideológica. Ao contrário, preocupou-se em oferecer princípios morais
capazes de orientar o progresso espiritual do ser humano, preservando sempre a
liberdade de consciência e o uso da razão.
Isso, entretanto, não significa
que o espírita deva ser indiferente aos problemas da sociedade. O próprio
Espiritismo ensina que o progresso da humanidade ocorre simultaneamente em duas
dimensões. A do indivíduo e a das
instituições humanas. À medida que os Espíritos evoluem moralmente, também são
chamados a construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.
Em O Livro dos Espíritos,
Kardec apresenta a Lei de Justiça, Amor e Caridade como uma das leis morais que
regem a vida humana. Ensina também que todos os Espíritos são criados simples e
ignorantes, iguais perante Deus e destinados ao aperfeiçoamento. Não há
privilégios naturais entre os homens que justifiquem a exploração, a opressão
ou a negação da dignidade de qualquer pessoa.
Esses princípios possuem profundas
implicações sociais. Defender políticas que combatam a pobreza, ampliem
oportunidades, reduzam desigualdades, fortaleçam a educação, promovam a saúde
pública e garantam proteção aos mais vulneráveis pode ser uma consequência
natural da compreensão que muitos espíritas têm da lei de amor ao próximo. Para
esses espíritas, assumir uma posição progressista não representa abandonar
Kardec, mas procurar aplicar, na organização da sociedade, os valores de
fraternidade, solidariedade e justiça ensinados por Jesus e reafirmados pela
Doutrina Espírita.
Isso não significa afirmar que o
Espiritismo seja uma doutrina de esquerda ou que Kardec defenderia determinado
partido político. Tal conclusão não encontra respaldo em suas obras. O
Espiritismo oferece princípios, não programas de governo. Ele forma consciências,
não eleitorados. Cabe a cada indivíduo, utilizando sua inteligência, seu
conhecimento da realidade e sua consciência moral, escolher quais propostas
considera mais coerentes com esses princípios.
Da mesma forma, espíritas podem
chegar a conclusões políticas diferentes sem, por isso, deixarem de ser
sinceros seguidores da Doutrina. A diversidade de opiniões faz parte da
liberdade de consciência defendida por Kardec. O que não encontra amparo na ética
espírita é a intolerância, o fanatismo, o ódio, a mentira deliberada, a
perseguição aos adversários ou a utilização da religião como instrumento de
manipulação política.
O espírita deve lembrar que nenhum
candidato representa o bem absoluto e nenhum adversário encarna o mal absoluto.
A visão espírita convida à humildade, ao discernimento e à compreensão das
imperfeições humanas. Todos estamos em processo de evolução, inclusive aqueles
que exercem funções públicas.
Também é importante recordar que
Jesus jamais se omitiu diante das injustiças de seu tempo. Não organizou
partidos nem buscou o poder político, mas colocou-se sempre ao lado dos
marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos excluídos. Sua mensagem rompeu
estruturas sociais injustas ao proclamar que todos são filhos de Deus e
igualmente dignos de respeito e amor.
Inspirado por
esse exemplo, o espírita pode compreender que participar da vida política é
também uma forma de exercer a caridade.
Votar com responsabilidade, acompanhar os governantes, defender políticas
públicas que promovam o bem comum, combater a corrupção e exigir honestidade
dos representantes são formas legítimas de colaborar para o progresso coletivo.
Ser
progressista, portanto, não é incompatível com o Espiritismo. Tampouco ser conservador exclui alguém da vivência espírita. O
que define a fidelidade à Doutrina não é a posição ideológica, mas a maneira
como cada pessoa vive os ensinamentos de justiça, amor, caridade, respeito,
tolerância e fraternidade.
Nas próximas eleições, talvez a
pergunta mais importante não seja em quem votar, mas quais valores orientarão
essa escolha. O espírita coerente procurará candidatos e propostas que
respeitem a dignidade humana, promovam a paz, combatam as desigualdades sem
alimentar o ódio e fortaleçam uma sociedade onde todos possam desenvolver
plenamente suas potencialidades.
Em última análise, Kardec nos
convida a pensar antes de seguir, a raciocinar antes de repetir e a agir sempre
movidos pelo amor ao próximo. Se nossas escolhas políticas nascerem dessa
consciência, estaremos exercendo não apenas um direito de cidadania, mas também
um compromisso com o progresso moral da humanidade.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Terrorismo, soberania e o velho complexo de vira-lata
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| Imagem - ICL Notícias |
Desde quando cabe a
um governo estrangeiro definir unilateralmente o enquadramento jurídico de
organizações que atuam em território brasileiro?
Desde quando a
soberania nacional virou mera sugestão diplomática?
O Brasil possui
legislação própria sobre terrorismo. E o próprio governo brasileiro, por meio
de especialistas em segurança pública, já afirmou anteriormente que PCC e CV
não se enquadram juridicamente na definição de terrorismo prevista em nossa
legislação, justamente porque não possuem motivação política, religiosa ou
ideológica. São organizações criminosas violentas? Evidentemente. Mas isso não
autoriza qualquer potência estrangeira a reclassificar juridicamente fenômenos
internos brasileiros conforme seus interesses geopolíticos.
Porque é disso que
se trata.
Os Estados Unidos
nunca agem apenas por princípios abstratos. A história mundial mostra
exatamente o contrário. Quando Washington decide transformar algo em “ameaça à
segurança nacional”, normalmente o passo seguinte envolve pressão diplomática,
sanções, interferência econômica, espionagem, cooperação militar assimétrica ou
tutela política.
É exatamente aí que
mora o perigo.
Hoje classificam
facções brasileiras. Amanhã alegam que existe ameaça regional. Depois dizem que
precisam “cooperar diretamente” no combate ao terrorismo dentro do território
nacional. E quando percebemos, parte da elite brasileira já está aplaudindo a relativização
da própria soberania em nome da submissão ideológica aos interesses americanos.
O mais
impressionante é ver setores que se dizem patrióticos comemorando isso.
Patriotas de
verdade defendem a autonomia nacional. Não entregam prerrogativas estratégicas
do país para governos estrangeiros. Não transformam o Brasil em quintal
geopolítico dos Estados Unidos. Não vibram quando autoridades estrangeiras
passam a reivindicar autoridade moral, política ou operacional sobre problemas
internos brasileiros.
O combate ao crime
organizado é obrigação do Estado brasileiro. Das instituições brasileiras. Da
inteligência brasileira. Das leis brasileiras.
Ou agora teremos
que pedir autorização em Washington para definir nossa política de segurança
pública?
E é inevitável a
pergunta: qual foi exatamente o papel da visita de Flávio Bolsonaro nessa
decisão?
Porque, se houve
participação direta de um senador brasileiro estimulando uma potência
estrangeira a endurecer mecanismos de pressão internacional sobre o próprio
país, o debate deixa de ser apenas diplomático e passa a envolver algo muito
mais profundo. A deterioração completa do conceito
de soberania entre setores da extrema-direita brasileira.
Existe uma
diferença brutal entre cooperação internacional e submissão política.
Uma coisa é trocar
informações, integrar inteligência e combater fluxos internacionais do crime
organizado. Outra, completamente diferente é celebrar a ampliação informal do
poder político estadunidense sobre assuntos internos brasileiros.
O Brasil não
precisa de tutela estrangeira. Precisa de instituições fortes, inteligência
estatal séria, investimento em investigação financeira, controle de fronteiras
e combate estrutural às organizações criminosas.
Mas talvez isso dê
menos likes do que posar sorridente ao lado de autoridades do norte enquanto se
terceiriza a própria soberania nacional.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
O Patriotismo em Inglês dos Bolsonaro. O bolsonarismo tentando trocar de máscara.
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| Imagem ICL Notícias |
A extrema-direita brasileira começa a viver um problema que sempre tentou esconder atrás do marketing agressivo, dos vídeos inflamados e do patriotismo performático. A ausência completa de projeto político real para o país. E talvez nenhum símbolo disso seja mais evidente do que a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas presidenciais e o constrangimento cada vez maior produzido pelos movimentos da própria família Bolsonaro.
Enquanto o presidente Lula governa, articula
internacionalmente, entrega obras, recompõe políticas públicas e tenta
reorganizar um país devastado pelo negacionismo e pelo caos administrativo, o
bolsonarismo parece preso numa mistura de ressentimento, escândalo e
autopromoção caricata. O episódio envolvendo recursos ligados ao banqueiro Vorcaro,
associados à tentativa de produção de um filme político sobre Bolsonaro,
escancarou algo constrangedor. A
transformação definitiva da política bolsonarista numa indústria familiar de
vitimização e propaganda.
E talvez nada represente melhor esse ridículo do
que a ideia de produzir um filme em inglês para falar de patriotismo
brasileiro. É quase uma metáfora perfeita da lógica vira-lata do bolsonarismo.
Passaram anos berrando “Brasil acima de tudo”, enrolados em bandeiras
nacionais, enquanto sonhavam, no fundo, com aplausos vindos de Miami, da
Flórida ou dos círculos mais radicais da direita internacional. Não é
nacionalismo. É dependência cultural fantasiada de conservadorismo tropical.
A própria trajetória de Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos reforça isso. Um parlamentar brasileiro que prefere atuar como
influencer político internacional contra o próprio país enquanto alimenta
narrativas de perseguição para consumo externo. Um patriotismo tão frágil que
precisa ser legendado em inglês para existir.
E agora, diante do desgaste crescente de Flávio,
surge de maneira cada vez mais organizada a figura de Michelle Bolsonaro. Não
como uma liderança política construída no debate público, na formulação de
ideias ou na experiência administrativa, mas como produto cuidadosamente
embalado para manter viva a marca eleitoral bolsonarista. Uma candidatura que
avança sorrateiramente, protegida pela estética religiosa, pela linguagem
emocional e pela blindagem construída em setores conservadores.
O presidente do PL sabe disso. Sabe que o
sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza uma parcela importante do eleitorado
radicalizado, mas também percebe que Flávio Bolsonaro, agora carrega rejeição
elevada, problemas judiciais e enorme desgaste político. Michelle aparece,
então, como uma alternativa menos agressiva na aparência, embora profundamente
vinculada ao mesmo projeto autoritário, moralista e antipopular.
A estratégia é evidente, ou seja, trocar o grito
pela doçura ensaiada, substituir a brutalidade explícita por um discurso
emocional cuidadosamente moldado para as redes sociais e para setores
religiosos. Mas o conteúdo permanece o mesmo. Continua ali o ataque às
minorias, o negacionismo social, a submissão ao mercado financeiro, o moralismo
seletivo e a exploração política da fé. E claro, toda a história de desvios,
encobertas de malfeitos e outras questões nunca explicadas devidamente ao
eleitorado da direita.
No fundo, o bolsonarismo tenta sobreviver mudando
a embalagem sem alterar o produto.
E talvez seja justamente isso que faça, a partir de agora, parte do Brasil enxergar.
domingo, 10 de maio de 2026
Entre a origem e o sentido. Por que o Dia das Mães ainda importa.
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| Imagem - News Brasil |
Muito se tem dito sobre as contradições que envolvem o Dia das Mães. A história de Anna Jarvis é frequentemente resgatada para lembrar que a data nasceu de um gesto sincero de amor e reconhecimento e não de uma estratégia de mercado. De fato, ao idealizar a homenagem à sua mãe, Ann Reeves Jarvis, Anna desejava um dia de reflexão, afeto verdadeiro e valorização das mulheres, longe das vitrines, das campanhas publicitárias e do consumo desenfreado que, mais tarde, passariam a marcar a celebração.
Esse resgate histórico é importante
e merece respeito. No entanto, há um equívoco em transformar essa crítica em
negação do próprio valor que a data adquiriu ao longo do tempo. O fato de o Dia
das Mães ter sido incorporado à lógica comercial não anula, por si só, o seu
significado mais profundo. Afinal, vivemos em uma sociedade onde praticamente
todas as datas simbólicas convivem com o mercado. Ainda assim, isso não impede
que sejam, também, momentos legítimos de encontro, memória e expressão de
sentimentos.
Reduzir o Dia das Mães a uma “data
comercial” é, em certa medida, desconsiderar a experiência concreta de milhões
de pessoas que encontram nesse dia uma oportunidade, muitas vezes rara, de
expressar gratidão, carinho e reconhecimento.
Em meio à correria da vida
cotidiana, nem sempre conseguimos dizer o que sentimos. Há afetos que ficam
adiados, palavras que não encontram tempo. E nesse contexto, datas como essa
funcionam como um convite coletivo à pausa, à lembrança e ao gesto.
É preciso reconhecer que o valor de
uma data não está apenas na sua origem, mas naquilo que fazemos com ela. Se há
quem compre presentes por obrigação ou convenção, há também quem escreva
mensagens sinceras, quem abrace mais forte, quem relembre histórias, quem
agradeça. O comércio pode até cercar a data, mas não é capaz de esvaziar, por
completo, o sentido que cada pessoa decide atribuir a ela.
Além disso, o próprio conceito de
maternidade se ampliou. Hoje, celebramos não apenas as mães biológicas, mas
todas as formas de cuidado, dedicação e amor que se manifestam na experiência
de ser mãe, inclusive aquelas construídas por escolha, por vínculo e por afeto.
Isso torna a data ainda mais relevante, pois reconhece a diversidade das
relações humanas e a profundidade do papel que essas mulheres exercem na
formação de vidas.
Honrar o Dia das Mães, portanto, não
é ignorar sua história, mas dar continuidade ao seu propósito essencial. É
reconhecer que, mesmo em um mundo marcado por contradições, ainda somos capazes
de transformar uma data em algo significativo. Celebrar não é se render ao
consumo. É reafirmar valores.
Porque, no fim das contas, o que
sustenta o Dia das Mães não são as vitrines, mas os sentimentos. E enquanto
houver amor, memória e gratidão, sempre haverá motivo, legítimo e necessário, para
celebrar.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Juventude velhaca ou envelhecida?
| Jovens na Fila dos Cartórios - 1º título eleitoral Imagem - Agência Nacional |
Existe algo de profundamente inquietante no nosso tempo. Uma parcela da juventude brasileira, que deveria representar rebeldia contra injustiças, defesa de direitos e abertura ao novo, parece caminhar na direção oposta. Abraça discursos autoritários, veste símbolos da extrema-direita e em muitos casos, transforma a intolerância em identidade política.
A pergunta que surge é inevitável: o
que está acontecendo?
Talvez estejamos diante de uma juventude sem
memória histórica. Jovens que não viveram os anos duros da ditadura militar
brasileira e que, por isso, não conseguem dimensionar o peso da censura, da
tortura, da perseguição política e da ausência de liberdade. Da mesma forma,
muitos desconhecem as consequências sociais da hiperinflação do governo Sarney,
do confisco da poupança promovido por Fernando Collor de Mello ou dos desmontes
trabalhistas e previdenciários ocorridos durante o governo Michel Temer.
Sem essa memória, parte da juventude passa a
enxergar a política apenas pela superfície das redes sociais, dos cortes
rápidos, dos memes e da estética do confronto. E isso é decisivo. A
extrema-direita compreendeu antes de muitos setores progressistas que, no mundo
digital, emoção mobiliza mais do que argumento. Raiva, medo, sensação de
pertencimento e discurso simplificado têm enorme poder de sedução,
principalmente em tempos de insegurança econômica, ansiedade social e crise de
perspectivas.
Há também um elemento psicológico importante. Muitos jovens cresceram em um ambiente de
hipercompetição, individualismo e frustração. Encontram dificuldade de inserção
econômica, convivem com trabalhos precarizados e vivem sob constante pressão
por desempenho e reconhecimento. Nesse contexto, discursos autoritários
oferecem algo sedutor. Respostas fáceis
para problemas complexos e a falsa sensação de força e identidade.
Isso não significa que toda juventude
conservadora seja “descerebrada”, como muitas vezes a indignação nos leva a
afirmar. Seria um erro repetir a mesma lógica de desumanização que criticamos.
O desafio talvez seja outro. Compreender
como uma geração conectada a tudo pode, paradoxalmente, estar desconectada da
própria história.
Também existe uma falha das forças democráticas
e progressistas. Durante muito tempo, acreditou-se que avanços sociais falariam
por si mesmos. Mas direitos sem memória política se tornam frágeis. Quando a
história deixa de ser ensinada de maneira viva, emocional e concreta, ela passa
a parecer distante, abstrata e irrelevante para quem não a viveu.
O resultado é uma juventude que, em alguns
casos, envelhece antes do tempo. Não biologicamente, mas moral e politicamente.
Jovens que deveriam sonhar com mais liberdade acabam defendendo controle. Que
deveriam ampliar direitos acabam relativizando desigualdades. Que deveriam combater opressões acabam
reproduzindo intolerância.
Ainda assim, seria injusto transformar essa
reflexão numa condenação definitiva da juventude. Há milhares de jovens
organizados em movimentos sociais, universidades, coletivos culturais e lutas
populares. A disputa está em aberto. E talvez a saída não esteja em desprezar
ou ridicularizar quem pensa diferente, mas em reconstruir pontes de diálogo,
memória e consciência crítica.
Porque nenhuma geração nasce pronta. Toda
juventude é, antes de tudo, um território em disputa.
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Entre tensões globais e impasses internos, para onde estamos indo?
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| Imagem - ICL Noticias |
Até por isso, Lula visita Trump com
a clara tarefa de exigir (ou negociar) seu distanciamento do processo eleitoral
brasileiro.
Como vimos, no plano internacional,
aumentam as tensões e os conflitos. Rússia e Ucrânia, com destaque para Irã,
EUA e Libano, esses por conta de Israel, agora envolto no episódio da prisão do
ativista brasileiro.
Ações estatais e denúncias de
violações de direitos que reacendem debates importantes sobre soberania,
justiça e direitos humanos.
Esses acontecimentos não são
distantes, pois refletem um mundo em que a política internacional volta a
ocupar o centro das preocupações.
No Brasil, o ambiente político
também segue marcado por forte disputa institucional. O governo do presidente Lula
enfrenta dificuldades na articulação com o Congresso, com episódios recentes como
a rejeição do indicado do presidente ao Supremo e a derrubada dos vetos
presidenciais sobre a PL da dosimetria, que evidenciam essa tensão.
Nesse contexto, iniciativas de
investigação e controle, como a proposta de CPI envolvendo o Banco Máster,
ganham relevância ao colocar em debate a necessidade de transparência e
responsabilização no sistema financeiro e nas relações institucionais,
sobretudo expondo os envolvidos do Congresso inimigo do povo.
Ao mesmo tempo, o debate político
nacional segue atravessado por projetos distintos de país, representados por
diferentes lideranças, como Romeu Zema, que se posiciona dentro da extrema-direita
e tem apresentado propostas que geram debates e divergências sobre seus
impactos sociais e econômicos. Dentre
elas o aumento da idade para aposentadorias, a liberação do trabalho infantil e
outros absurdos.
Diante desse cenário, o que se impõe
é uma reflexão mais profunda. Qual
projeto de sociedade queremos construir? Um país marcado por conflitos
institucionais e disputas permanentes, ou um ambiente político capaz de
equilibrar interesses, garantir direitos e promover desenvolvimento com justiça
social?
A resposta a essa pergunta não está
apenas nos governos ou nas lideranças, mas na capacidade da sociedade de
acompanhar, compreender e participar do debate público com responsabilidade e
consciência crítica.
Mais do que nunca, o momento exige
atenção, informação qualificada e compromisso com os valores democráticos.
terça-feira, 28 de abril de 2026
Espiritismo, Evangelho e Política
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| Imagem Carta Capital |
No entanto, essa separação rígida
nem sempre encontra respaldo nas próprias bases morais que orientam muitas
tradições religiosas.
No caso da doutrina espírita,
codificada por Allan Kardec, há elementos claros que apontam para a importância
da vida em sociedade como campo de evolução moral, o que inevitavelmente nos
conduz à reflexão sobre o papel da política em nossas vidas.
Em O Livro dos Espíritos,
especialmente nas questões que tratam da lei de sociedade, afirma-se que o ser
humano não foi feito para viver isolado. A convivência é uma necessidade
natural e é por meio dela que se desenvolvem virtudes, se corrigem imperfeições
e se constrói o progresso coletivo.
Se viver em sociedade é uma lei
natural, então a forma como essa sociedade se organiza também se torna uma
responsabilidade humana. E é exatamente nesse ponto que a política, entendida
como organização da vida comum, se insere.
A doutrina espírita também aborda a
lei de justiça, amor e caridade, indicando que as leis humanas devem se
aproximar cada vez mais das leis divinas. Quando há desigualdade, exploração ou
injustiça, isso não é reflexo de uma ordem superior, mas sim das imperfeições
humanas ainda presentes. Cabe, portanto, ao próprio homem trabalhar pela
melhoria dessas estruturas. Essa tarefa não se limita ao campo individual, mas
se estende às instituições, às leis e às decisões coletivas que moldam a
sociedade.
Nesse sentido, a omissão diante das
questões sociais não parece compatível com o ideal espírita. Se temos
consciência, se compreendemos o certo e o errado, somos também responsáveis por
agir, não apenas em nossas relações pessoais, mas no espaço coletivo. A
política, nesse contexto, deixa de ser um território distante ou “impuro” e
passa a ser um instrumento possível de construção do bem comum.
Os ensinamentos de Jesus Cristo
reforçam ainda mais essa perspectiva. Ao longo do Evangelho, vemos uma mensagem
profundamente comprometida com a dignidade humana. Jesus não se limitou a
discursos abstratos. Esteve ao lado dos
marginalizados, confrontou hipocrisias, denunciou injustiças e apontou para uma
ética baseada no amor ao próximo. Quando ensina “amai-vos uns aos outros” ou
“fazei ao próximo o que quereis que vos façam”, ele estabelece princípios que, se
levados a sério, têm impacto direto na organização da sociedade.
Não se trata de defender partidos ou
ideologias específicas, mas de reconhecer que a construção de uma sociedade
mais justa exige posicionamento, consciência e participação. A neutralidade
absoluta, diante de cenários de desigualdade e sofrimento, pode significar, na
prática, a manutenção dessas mesmas condições.
Assim, tanto a doutrina espírita
quanto os ensinamentos do Evangelho convergem em um ponto essencial, a saber,
que a vida em sociedade é parte do processo evolutivo do ser humano, e a busca
por justiça, dignidade e fraternidade não pode ser apenas individual, precisa
também se refletir nas estruturas coletivas.
Participar, refletir, escolher e
agir são, portanto, expressões não apenas de cidadania, mas também de
compromisso moral. Afinal, transformar o mundo ao nosso redor é em última
instância, uma das formas mais concretas de viver aquilo que se acredita.
sábado, 25 de abril de 2026
Entre o craque e o homem
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| Imagem UOL |
Por isso,
nossas discussões eram inevitáveis.
Ele defendia
Pelé com a convicção de quem não aceitava comparação. Eu, teimoso, tentava
levar Diego Maradona ao mesmo altar. E ali, entre argumentos e provocações,
travávamos batalhas que, hoje vejo, eram menos sobre futebol e mais sobre amor. Aquele amor que só se expressa assim, no
calor das palavras.
Mas foi na
última Copa, em 2022, que tivemos nossa conversa mais difícil.
Já próximo
de sua partida, meu pai ainda tinha energia pra defender o jogo bonito e,
naquele momento, ele enxergava isso em Neymar. Dizia que era um grande jogador,
que merecia respeito, que minhas críticas eram duras demais.
E eram
mesmo.
Porque eu
nunca consegui separar o jogador do homem. Nunca consegui ver só o drible,
ignorando o que estava fora de campo. Meu pai, não. Ele tinha essa sabedoria. Enxergava o futebol na sua essência, quase
como uma obra de arte que existe por si.
Discutimos.
Elevamos o tom. Como sempre fizemos.
Hoje, isso
me dói.
Não pelo que
pensamos, porque pensar diferente sempre fez parte de nós, mas pela
intensidade, pelo excesso, pelo tempo que já não volta.
Com o passar
dos dias, fui entendendo que meu pai via algo que eu ainda estou aprendendo a
ver. O futebol como linguagem própria,
como beleza autônoma, como expressão que não precisa carregar todo o peso do
mundo.
Ele entendia
mais. E eu reconheço isso com humildade.
Mas ainda
carrego em mim essa dificuldade, essa insistência em misturar o campo com a
vida, o craque com o cidadão. Talvez seja defeito. Talvez seja convicção.
Talvez seja só o meu jeito de ver o mundo.
E é por isso
que, mesmo hoje, não consigo lamentar a ausência de Neymar em uma convocação.
Há em mim algo que ainda cobra mais do que talento.
Meu pai,
provavelmente, discordaria.
E talvez
sorrisse diante disso.
No fim,
nossas discussões nunca foram sobre quem estava certo. Foram sobre estarmos
juntos, vivendo o futebol com paixão, cada um à sua maneira.
E se hoje eu
penso diferente, ainda assim carrego comigo o que ele me ensinou sem dizer que
o futebol, como a vida, é feito de olhares.
E o dele…
era mais bonito que o meu.
A mídia tem lado e isso precisa ser compreendido.
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| Imagem Carta Capital |
A ideia de uma mídia
completamente neutra é mais um ideal do que uma realidade concreta. Em um mundo
atravessado por disputas econômicas, políticas e culturais, a informação também
é parte desse jogo. O que vemos diariamente nos grandes veículos de comunicação
não é apenas a descrição dos fatos, mas a construção de narrativas e toda
narrativa carrega escolhas.
Basta observar a cobertura de
temas internacionais para perceber esse fenômeno com clareza. Conflitos
envolvendo países como o Irã costumam ser apresentados sob uma ótica
específica, na qual determinados atores são rapidamente posicionados como
vilões, enquanto outros, agressores de fato como os EUA ou Israel, têm suas
ações relativizadas ou justificadas. Movimentos como o Hezbollah ou Hamas são
frequentemente rotulados apenas como terroristas, desconsiderando sua dimensão
política e social em seus territórios de atuação. Isso não significa ignorar
práticas condenáveis, mas evidencia que a forma de narrar influencia
diretamente a percepção pública.
O mesmo ocorre com lideranças
políticas de países que não estão alinhados aos interesses das grandes
potências ocidentais. Governantes de nações como Venezuela, Cuba ou Coreia do
Norte são frequentemente enquadrados sob rótulos como “ditadores” ou “regimes”,
enquanto aliados estratégicos recebem tratamentos mais moderados, mesmo diante
de situações igualmente controversas, como a Arábia Saudita. A linguagem não é neutra, ela orienta o
olhar.
No cenário interno, a lógica não
é muito diferente. Figuras públicas que atuam simultaneamente como líderes
religiosos e empresários de comunicação são muitas vezes, apresentadas apenas
por seus títulos eclesiásticos (pastores, bispos), o que pode obscurecer sua
atuação econômica e política. Isso revela como a mídia também simplifica ou
enquadra personagens conforme determinadas convenções e interesses, deixando de
lado nuances importantes.
Esse processo não decorre,
necessariamente, de uma conspiração deliberada, mas de fatores estruturais. A
concentração dos meios de comunicação em grandes grupos econômicos, a
dependência de fontes oficiais, o alinhamento histórico com determinados
centros de poder e a necessidade de simplificar temas complexos para consumo
rápido. Tudo isso contribui para a reprodução de determinadas visões de mundo
em detrimento de outras.
Diante desse cenário, o desafio
não é rejeitar ou tentar transformar a mídia, mas aprender a lê-la
criticamente. Isso significa buscar diferentes fontes, comparar versões,
entender quem fala e de onde fala, e reconhecer que toda informação carrega
contexto. A pluralidade de olhares é essencial para evitar uma compreensão limitada
da realidade.
A mídia tem lado ou, mais
precisamente, múltiplos lados em disputa. Ignorar isso é abrir mão da própria
capacidade de interpretar o mundo. Compreender esse processo, por outro lado, é
um passo fundamental para exercer cidadania com consciência e autonomia.
Deus salve os jornalistas livres
que podem exercer suas profissões com verdade e fatos.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
O santo que não se curva diante da injustiça
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| Imagem - The Independent - UK |
Celebrado em
23 de abril, São Jorge é muito mais do que um santo da tradição cristã. Ele é
símbolo universal de coragem, resistência e justiça. Um guerreiro que atravessou séculos e
culturas, mantendo viva a chama da luta contra o mal.
Sua história
remonta ao século III. Jorge foi um soldado romano que se recusou a negar sua
fé cristã diante das perseguições do imperador. Por essa coragem, foi torturado
e morto, tornando-se mártir.
A tradição
conta que seus restos mortais foram enterrados em Lida, na antiga região da
Palestina, local que até hoje recebe peregrinos.
Mas é na imagem
que São Jorge ganha contornos ainda mais grandiosos. Em tempos difíceis, sua
imagem montada no cavalo, enfrentando o dragão, nos lembra de algo essencial. O mal pode ser grande, mas nunca é
invencível.
Mais do que
um combate físico, esse episódio simboliza a vitória da justiça sobre a
opressão, da fé sobre o medo, da dignidade sobre a violência.
Não por
acaso, São Jorge é padroeiro de diversos lugares e instituições ao redor do
mundo. Dentre eles é padroeiro da Inglaterra, da Geórgia e de Portugal. Também
é padroeiro de Moscou, capital da Rússia.
No Brasil,
sua devoção atravessa religiões e identidades. É venerado por católicos,
celebrado com intensidade pelas religiões de matriz africana e na umbanda, é
sincretizado com Ogum, o orixá guerreiro, abridor de caminhos, defensor dos que
lutam.
Sua presença
também está no coração do povo. É símbolo de luta para quem enfrenta
dificuldades, para quem batalha diariamente por dignidade. Não à toa, até o
futebol o abraça. O Sport Club Corinthians Paulista carrega São Jorge como
padroeiro, representando a garra, a fé e a resistência de sua torcida.
São Jorge
“se dói” com as injustiças. É o santo daqueles que não aceitam o mundo como ele
está quando ele é desigual. Sua devoção é buscada por quem precisa de proteção,
coragem, abertura de caminhos e força para enfrentar batalhas, visíveis ou
invisíveis.
Salve São
Jorge. Protetor dos que acreditam. Inspiração dos que resistem.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
A vitória de Ana Paula foi popular ou sinal político?
![]() |
| Imagem G1 |
Em um país profundamente politizado como o
Brasil atual, não é incomum que o público associe trajetórias individuais
dentro do programa a posicionamentos ideológicos mais amplos.
No caso recente da vitória de Ana Paula Renaulta,
a percepção de que a mesma tenha afinidade com pautas progressistas,
especialmente ao demonstrar apoio a políticas sociais ou a lideranças políticas
específicas, gerou um debate imediato. Sua
vitória representaria um sinal de maior consciência política da população?
É preciso cautela.
O BBB é, antes de tudo, um programa de grande
alcance popular que mistura carisma, narrativa emocional, identificação do
público e dinâmica de jogo. A escolha do vencedor raramente se dá por critérios
exclusivamente políticos. Elementos como empatia, história de vida, conflitos
vividos na casa e capacidade de comunicação costumam pesar mais diretamente no
resultado.
Isso não significa, por outro lado, que aspectos
políticos estejam ausentes. Em um ambiente social atravessado por debates
intensos, como desigualdade, direitos sociais e papel do Estado,
posicionamentos explícitos ou implícitos dos participantes podem influenciar
parte do público. Especialmente nas redes sociais, esses elementos ganham
amplitude e ajudam a moldar a imagem dos jogadores.
A eventual identificação da vencedora com pautas
associadas ao campo progressista pode, sim, dialogar com parcelas da sociedade
que valorizam essas agendas. Mas interpretar sua vitória como um indicador
direto de apoio majoritário a um projeto político específico seria uma
simplificação excessiva.
O resultado do BBB tende a refletir mais um consenso
emocional momentâneo do que uma decisão política estruturada. Trata-se de
uma escolha mediada por entretenimento, ainda que atravessada por valores
sociais.
Por outro lado, não se pode ignorar que a
televisão aberta, especialmente programas de grande audiência, continua sendo
um espaço relevante de formação simbólica. Quando figuras públicas associadas a
determinados valores ganham projeção positiva, isso contribui para normalizar e
difundir certas visões de mundo.
Nesse sentido, a vitória pode ser lida menos
como um “termômetro eleitoral” e mais como um sinal cultural. A presença de discursos ligados à inclusão
social, direitos e políticas públicas segue encontrando ressonância em parte
significativa do público.
Em síntese, o fenômeno não autoriza conclusões
definitivas sobre a orientação política da sociedade brasileira, mas indica que
o debate sobre justiça social e papel do Estado permanece vivo, inclusive nos
espaços de entretenimento.
Que o Congresso preste bem atenção nisso.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Quando o poder vira delírio.
Há momentos em que a política deixa de ser disputa
de ideias e passa a revelar algo mais preocupante como a desconexão completa
com qualquer senso de limite.
As recentes declarações e encenações de Donald
Trump caminham perigosamente nessa direção.
Atacar uma liderança religiosa, como vem fazendo contra o Papa Leão XIV por defender a paz
já seria, por si só, um gesto questionável. Mas ir além, simulando uma imagem
messiânica como o próprio Cristo, colocando-se como figura divina, enquanto
critica posições humanitárias, não é apenas arrogância. É sintoma de um poder
que já não reconhece freios morais.
O mundo vive tensões reais, conflitos que custam
vidas, especialmente no Oriente Médio. Nesse cenário, vozes que pedem diálogo,
prudência e respeito à vida deveriam ser ouvidas e não ridicularizadas.
A tentativa de deslegitimar esse discurso revela
uma lógica perigosa, qual seja a de que força e imposição valem mais do que
qualquer construção coletiva de paz.
Trump insiste em transformar tudo em espetáculo,
inclusive a política externa. Ao fazer isso, reduz temas complexos a slogans e
ataques pessoais, mentiras absurdas, ignorando que decisões nesse campo não são
bravatas de campanha, mas escolhas que afetam milhões de vidas.
E há algo ainda mais grave. A construção de uma narrativa em que ele
próprio se coloca acima das instituições, acima das críticas e agora, até acima
de referências espirituais. Quando um líder político passa a se enxergar como
incontestável, o problema deixa de ser ideológico e torna-se institucional e em
certa medida, civilizatório.
Não se trata de divergência política, mas de
responsabilidade.
O mundo não precisa de líderes que se comportam
como figuras absolutas. Precisa de equilíbrio, respeito e compromisso com a
vida. E quando isso falta é dever de todos dizer com clareza que o “cara”
passou dos limites.
sábado, 11 de abril de 2026
Do Brasil para o mundo: saúde como direito, não privilégio
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| Imagem - ICL Notícias |
Universal, gratuito e acessível, o SUS materializa
um princípio civilizatório poderoso. O
de que saúde não é privilégio, é direito. Em um mundo onde boa parte dos países
ainda trata o atendimento médico como mercadoria, o Brasil ousou fazer
diferente. E fez certo.
Agora, esse exemplo começa a ecoar além das nossas
fronteiras.
O México se prepara para implantar um sistema
inspirado no modelo brasileiro, com início previsto para 2027. Sob a liderança
da presidenta Claudia Sheinbaum, o país dá passos concretos rumo à
universalização do acesso à saúde, apostando na integração de dados, na
ampliação do atendimento e na construção de uma rede que alcance, sobretudo, os
mais vulneráveis.
Não se trata de copiar por copiar. Trata-se de
reconhecer que políticas públicas bem-sucedidas devem, sim, ser replicadas. O
novo sistema mexicano aposta na unificação de prontuários, no uso de tecnologia
para facilitar o acesso e na ampliação de serviços essenciais, de emergências a
tratamentos contínuos, da saúde mental à prevenção.
É a ideia de que o Estado deve estar presente onde
a vida mais precisa.
O SUS, tantas vezes atacado por quem não
compreende sua grandeza, mostra mais uma vez sua força. Não apenas por atender
milhões de brasileiros todos os dias, mas por se tornar referência
internacional. Por provar, na prática, que é possível construir um sistema de
saúde baseado na solidariedade, na eficiência e no compromisso com a vida.
Quando um país olha para o Brasil e decide seguir
esse caminho, não está apenas adotando um modelo. Está fazendo uma escolha
política e humana. Porque, no fim das contas, o que é bom mesmo foi feito para
ser compartilhado.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
O Tio Sam perdeu a pose. Quando o império blefa e o mundo não compra.
Há uma contradição histórica que
atravessa a identidade dos Estados Unidos e que, mais uma vez, se escancara
diante do mundo. O país que se autoproclama guardião da liberdade e da
democracia segue sendo, também, um dos maiores promotores de intervenções militares,
invasões e desestabilizações em nome desses mesmos valores. A retórica é nobre,
mas a prática, desmente essa lógica.
O recente episódio envolvendo Trump e
o conflito com o Irã expõe essa incoerência com clareza quase didática. Sob o
argumento de defesa e combate a “tiranias”, assistimos a uma escalada agressiva
que, no fim, não entregou aquilo que prometia. Nem vitória, nem estabilidade,
nem liderança moral. O resultado concreto é outro. Um cessar-fogo que revela
limites, um adversário ainda de pé e uma superpotência que sai menor do que
entrou. Bem menor, por sinal.
E há um agravante que não pode ser
ignorado. Os Estados Unidos não entraram nesse cenário apenas por cálculo
estratégico abstrato, mas também para sustentar os interesses de um aliado cada
vez mais questionado no cenário internacional. O governo de Benjamin Netanyahu.
Ao se alinhar de forma quase incondicional a ações duramente criticadas contra
o povo palestino, Washington não apenas reforça sua imagem de seletividade
moral, como se associa diretamente a práticas que contradizem o próprio
discurso que diz defender. A defesa da “democracia” torna-se, assim, um
argumento conveniente, aplicado ou ignorado conforme o interesse geopolítico do
momento.
A realidade impôs um freio à lógica
simplista da “paz pela força”. Ficou evidente que poder militar, por mais vasto
que seja, não resolve tudo. A geopolítica não se dobra apenas à força de
bombas, especialmente quando enfrenta atores dispostos a resistir a qualquer
custo. O controle estratégico do Estreito de Ormuz pelo Irã, por exemplo,
demonstrou que há variáveis que nem o maior orçamento militar do planeta
consegue neutralizar.
Mas talvez o dano mais profundo seja
outro. O desgaste da credibilidade. Aliados tradicionais passaram a questionar
não apenas decisões pontuais, mas o próprio valor da parceria com os EUA. A
confiança, elemento central da liderança global, foi corroída por ameaças não
cumpridas, discursos extremos e uma condução errática. Quando até setores
conservadores começam a duvidar da coerência moral de um presidente, algo está
claramente fora do lugar.
Esse episódio não é um ponto fora da
curva. Ele é, na verdade, mais um capítulo de uma longa história em que os
Estados Unidos oscilam entre o discurso de defensores da ordem internacional e
a prática de agentes de instabilidade. A diferença agora é que o mundo mudou.
Há mais atores, mais resistências, mais limites e menos disposição para
aceitar, sem questionamento, a autoridade autoproclamada de uma potência. Ou no caso, ex-potência.
No fim das contas, a pergunta que fica
é inevitável. Que tipo de liderança global pode emergir de um país que insiste
em resolver conflitos complexos com respostas simplistas e violentas? E mais.
Até quando o discurso da liberdade continuará sendo utilizado como
justificativa para práticas que, na essência, a negam?
Talvez estejamos assistindo não apenas
a um revés pontual, mas a um sintoma de algo maior. O desgaste de um modelo de
poder que já não se sustenta como antes. E, diante disso, o mundo começa, ainda
que lentamente, a buscar outros caminhos.
Como bem sintetizou Jamil Chade, ao
observar o impacto interno desse cenário: “O que as pesquisas revelam é que
alguns daqueles indivíduos que usavam os bonés (Make America Great Again) já se
deram conta de que foram feitos de trouxas. Bonés que, por sinal, são ‘Made in
China’.”
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Entre a pureza e a vitória
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| Imagem Carta Capital |
Existe um erro recorrente em setores da esquerda brasileira que precisa ser enfrentado com seriedade e urgência.
Enquanto o país ainda convive com a
ameaça concreta do bolsonarismo, herdeiro direto de práticas e ideias de
caráter fascista, parte da esquerda insiste em travar batalhas internas como se
estivéssemos em tempos normais.
Não estamos.
A recente reação à filiação de Kátia
Abreu ao Partido dos Trabalhadores é mais um exemplo desse problema. Setores do
próprio partido, apoiados por articulistas e veículos identificados com o campo
progressista, correram para levantar um tribunal moral, revisitando o passado
da ex-senadora e suas contradições.
Mas a pergunta central é: isso ajuda
ou atrapalha o campo democrático?
A política não é feita no laboratório da
pureza ideológica. Ela é feita no terreno real, contraditório, complexo, onde
alianças são não apenas desejáveis, mas necessárias.
Foi assim, inclusive, na vitória que
interrompeu o ciclo autoritário recente. A construção da chapa entre Lula e Alckmin
não foi um acidente. Foi uma escolha estratégica. Uma compreensão madura de
que, diante de uma ameaça maior, era preciso ampliar, somar, dialogar com
setores antes distantes.
E funcionou.
No entanto, o que vemos hoje é a
repetição de um comportamento que já foi criticado na própria história da
esquerda: o chamado “esquerdismo infantil”. Uma postura que, em nome de uma
suposta coerência absoluta, acaba isolando o campo progressista e dificultando
sua capacidade de disputar a sociedade.
Transformar divergências passadas em
impedimentos absolutos para alianças no presente é, na prática, entregar
terreno ao adversário.
Enquanto isso, o outro lado não tem
qualquer constrangimento em se reorganizar, se articular internacionalmente e
operar com foco total na retomada do poder.
A esquerda não pode se dar ao luxo de
lutar contra si mesma.
Isso não significa abrir mão de
princípios. Significa compreender prioridades. Significa saber diferenciar o
que é contradição superável do que é incompatibilidade estrutural.
A construção de uma frente ampla, capaz
de derrotar definitivamente o bolsonarismo e qualquer tentativa de regressão
autoritária, exige maturidade política, generosidade estratégica e, sobretudo,
compromisso com o povo brasileiro.
A história não será escrita pelos mais
“puros”. Será escrita por aqueles que entenderem o tamanho do desafio e tiverem
coragem de enfrentá-lo juntos.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
D. Afonso Henriques - o Fundador de Portugal
| D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, numa pintura a óleo de autor desconhecido do séc. XVIII |
Se existe alguém em Portugal que virou quase um “super-herói medieval”, esse alguém é D. Afonso Henriques. O homem não só fundou um país, como ainda ganhou o título de “o Fundador”, o que, convenhamos, é um baita upgrade de currículo.
Mas a verdade é que, se a gente tirar a capa, a
espada reluzente e o fundo épico com música de filme, sobra algo muito mais
interessante. Um sujeito real, cheio de contradições, dúvidas e boas decisões
estratégicas.
Pra começar, nem o básico a gente sabe direito. Quando ele nasceu? Onde? Guimarães? Coimbra?
Viseu? Ou fora de Portugal? Pois é. O fundador de Portugal talvez nem tenha
nascido em Portugal. Já começa aí a ironia histórica.
E tem mais. Afonso não veio exatamente de uma
família “100% portuguesa raiz”. Seu pai era da Borgonha (quase um francês
medieval importado) e sua mãe, D. Teresa, filha de rei de Leão e Castela. Ou
seja, o DNA do fundador já era mais internacional que um mochileiro europeu.
Aliás, sobre a mãe de Afonso, esquece aquela
história simplista de vilã dominada por paixões. D. Teresa tinha projeto
político, estratégia e ambição, coisa que incomodava muita gente. No fim das
contas, Afonso acabou enfrentando a própria mãe numa disputa de poder que
culminou na famosa Batalha de São Mamede, em 1128.
Sim, o sujeito basicamente começou a carreira
“fundando o país” brigando em casa. Quem nunca?
Antes mesmo de existir como país, “Portugal” já
era só o nome de um lugar. Tudo começou com Portus Cale, um antigo povoado às
margens do rio Douro, na região onde hoje ficam o Porto e Vila Nova de Gaia. O
nome vinha do latim “portus”, porto, e “Cale”, uma antiga
povoação de origem Celta, que com o tempo virou “Portucale” e depois “Portugal”. Ou seja, antes
de ser um país, Portugal era só um porto com nome estranho tentando virar
alguma coisa maior.
Mas calma. Achar que ali “nasceu Portugal” num
estalo é simplificar demais. Portugal não surgiu num dia mágico. Foi um
processo longo, cheio de idas, vindas, alianças improváveis e muita
improvisação política até porque aquele antigo Portucale ainda estava longe de
ser um reino de verdade.
E aqui entra uma das partes mais curiosas. Afonso
Henriques não era esse cavaleiro puro lutando contra um bloco inimigo
homogêneo. Nada disso. Ele lutava contra muçulmanos, mas às vezes se aliava a
eles. Lutava contra cristãos e também fazia acordos com eles. Ou seja. Menos
“cruzada épica”, mais “xadrez político em nível hard”.
A tal “Reconquista”, inclusive, não era essa
guerra religiosa contínua que a gente aprendeu na escola. Na época, era mais
sobre recuperar territórios e garantir poder do que sobre um embate ideológico
total. A palavra “Reconquista” nem existia naquele tempo.
Afonso, no fundo, fazia o que todo governante
pragmático faz. Negociava, guerreava, recuava, avançava e tentava sobreviver no
meio de um mundo caótico. Parece até nosso presidente lidando aqui com o Centrão.
E não foi só na espada que ele jogou. O homem
também entendia de marketing político medieval, claro. Foi lá em Roma, bateu na
porta do Papa e disse, basicamente que queria ser rei “oficial”.
Demorou. O reconhecimento só veio décadas depois,
em 1179. Ou seja, até pra virar rei “oficial”, o fundador teve que insistir.
No fim das contas, o que sobra de D. Afonso
Henriques não é só o herói, mas algo melhor. Um líder que construiu um reino
onde antes não havia um. Não reconquistou. Ele inventou.
E talvez essa seja a parte mais interessante de
todas. Portugal não nasceu de um plano perfeito, nem de um destino inevitável.
Nasceu de decisões difíceis, alianças improváveis e de um sujeito que, longe de
ser perfeito, soube jogar o jogo do seu tempo.
Sem capa. Sem trilha sonora. Mas com um talento raro. Fazer história de verdade.
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