Nos primeiros dias de 2026, o mundo assistiu a um acontecimento histórico e ao mesmo tempo alarmante. A ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa em Caracas e na sua transferência para um tribunal em Nova York sob acusações federais, entre elas narcoterrorismo e conspiração para tráfico de drogas.
O episódio desencadeou um debate internacional profundo sobre soberania, direito internacional e padrões duplos de intervenção, que revela tensões e contradições na chamada ordem mundial.
Soberania Nacional vs. Intervenção Imperial
De acordo com diversos líderes e análises diplomáticas, a operação dos EUA constitui uma clara violação da soberania venezuelana. Autoridades brasileiras qualificaram o episódio como uma afronta ao direito internacional e um precedente perigoso para a estabilidade regional, ressaltando que nenhum país soberano deve ser alvo de intervenção militar externa, mesmo diante de acusações criminais graves.
Ligado a narrativas de segurança e “guerra ao narcotráfico”, o caso Maduro é apresentado por Washington como uma ação de “aplicação da lei” além-fronteiras, mas para muitos observadores é também expressão de uma lógica de hegemonia. Países poderosos sentem-se com autoridade para impor sua justiça e seus interesses, muitas vezes à custa dos princípios que proclamam defender.
A Disputa pela Narração da História
A prisão de Maduro não ocorre em vácuo histórico. A política externa dos EUA tem sido marcada por intervenções repetidas, do Oriente Médio à América Latina, frequentemente justificadas por discursos de combate ao terrorismo, direitos humanos ou defesa da democracia. Análises publicadas por observadores internacionais apontam a ação na Venezuela como continuadora dessa tradição intervencionista sob a fachada de legalidade, enquanto interesses econômicos e geoestratégicos permanecem centrais.
Essa disputa simbólica, quem conta a história, quem define “crimes” e quem detém poder para julgar é parte de um problema maior. A justiça global tende a ser aplicada de forma seletiva, dependendo da posição geopolítica de cada Estado e de seus aliados.
O Caso Epstein e a Justiça Interna dos Poderosos
Enquanto acusações de intervenção e violação de soberania dominam manchetes geopolíticas, outro escândalo de incrustações de poder e impunidade segue resonando nos EUA e em vários países. A divulgação de grandes volumes de documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein, que expõem uma vasta rede de contatos entre o financiador condenado por tráfico sexual de menores e figuras políticas, empresariais e sociais influentes.
Mesmo com milhões de páginas divulgadas e material que inclui contatos de centenas de personalidades de destaque, a resposta institucional tem sido, até agora, morna e fragmentada, com investigações tardias, omissões e indefinições. A divulgação desses arquivos revelou ligações com figuras como Donald Trump, Bill Clinton, o irmão do Rei Charles e outras personalidades poderosas, muitas das quais ainda não enfrentaram responsabilização judicial plena por suas associações ou comportamentos supostamente revelados nos documentos.
Esse contraste evidencia outra faceta do que poderíamos chamar de falta de justiça global. Quando os próprios Estados Unidos, que agora prendem um presidente estrangeiro em solo americano, enfrentam denúncias de conivência, de favorecimento ou de encobrimento de abusos cometidos por membros da sua elite política e econômica, o sistema de justiça internacional se vê questionado não apenas na letra da lei, mas na sua aplicação.
O Silêncio Global diante de Crises Humanitárias
Paralelamente a tudo isso, o mundo tem se mostrado profundamente insuficiente em enfrentar outro acontecimento humanitário de proporções dramáticas. A crise em Gaza, onde milhares de civis palestinos morreram, feridos e deslocados. Organizações internacionais e redes de direitos humanos têm denunciado a escala das violações e pedem urgência em medidas protetivas, mas o silêncio ou a insuficiência de ações de algumas potências e organismos multilaterais expõe uma disparidade gritante. Grandes intervenções militares e processos judiciais ocorrem rapidamente quando os interesses de nações poderosas estão em jogo, enquanto genocídios, guerras prolongadas e violência contra populações civis muitas vezes encontram apenas respostas diplomáticas tímidas. Relatórios de direitos humanos têm documentado extensivamente essas violações.
Justiça: Universal ou Seletiva?
A questão que se impõe, então, é esta. A justiça internacional é um princípio universal ou um instrumento de poder? Quando um presidente estrangeiro é preso em solo americano em nome da lei federal, mas elites domésticas poderosas parecem escapar de consequências proporcionais por escândalos de abusos e redes de exploração, quando crimes contra populações civis recebem respostas tímidas, as instituições que deveriam defender a universalidade da justiça, como o Organização das Nações Unidas ou o Tribunal Penal Internacional, parecem incapazes de fazer valer princípios básicos de igualdade perante a lei.
A reflexão não pode ser apenas moral ou retórica. Ela precisa ser prática. Como reconstruir uma ordem global em que soberania, direitos humanos e justiça sejam aplicados com imparcialidade? Como garantir que poder econômico ou político não impeça a responsabilização justa? E como assegurar que o sofrimento de povos inteiros não seja relegado ao silêncio?







