sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BETs - quando a aposta deixa de ser diversão e começa a comer a renda das famílias

 

Imagem - Agência GOV BR

Há uma mentira confortável sendo vendida aos brasileiros, a saber, de que as bets são apenas uma forma moderna de entretenimento, uma diversão inofensiva para quem quer arriscar alguns reais.

Não são. O tamanho que esse mercado alcançou e principalmente, a forma como ele passou a disputar o dinheiro das famílias brasileiras transformaram as apostas online em um problema econômico e social que o país não pode mais tratar como simples questão de gosto individual.

Os números são impressionantes. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), com base em informações do Banco Central, mostram que as bets movimentaram cerca de R$ 351 bilhões em transferências via Pix no período analisado, enquanto as perdas líquidas das famílias chegaram a R$ 62,5 bilhões. Isso significa dinheiro que entrou nas plataformas e não voltou para os apostadores na forma de prêmios. O valor equivale a cerca de 68 milhões de cestas básicas paulistas, tomando como referência os R$ 915,01 registrados pelo DIEESE em julho de 2026.

E aqui está uma questão que deveria provocar indignação. R$ 62,5 bilhões não são dinheiro que apareceu do nada. São recursos que saíram do orçamento de pessoas e famílias. Dinheiro que poderia estar pagando uma conta, comprando alimentos, quitando uma dívida, comprando uma roupa, fazendo uma pequena reforma, pagando uma escola, frequentando um restaurante ou simplesmente ficando guardado para enfrentar uma emergência.

O Banco Central já havia identificado o problema antes mesmo de termos a dimensão atual do fenômeno. Em agosto de 2024, estimou cerca de R$ 20,8 bilhões em transferências mensais para empresas de apostas e calculou que aproximadamente 15% do valor apostado ficava retido pelas plataformas. Mais preocupante ainda é que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets naquele mês, sendo que 4 milhões eram chefes de família. O próprio Banco Central advertiu que as famílias de baixa renda estavam entre as mais prejudicadas e que o fenômeno merecia atenção por seus efeitos sobre o bem-estar financeiro e a economia.

Não estamos, portanto, falando apenas de pessoas com dinheiro sobrando procurando diversão. Estamos falando de uma indústria que descobriu uma maneira extremamente eficiente de alcançar justamente quem tem menos margem financeira.

Uma pesquisa do Procon-SP, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, encontrou outro dado assustador. 39,7% dos apostadores pesquisados disseram ter se endividado depois de começar a apostar. E uma pesquisa nacional do CNDL/SPC Brasil mostrou que, entre os apostadores, 19% admitiram ter comprometido a própria renda, 17% deixaram de pagar alguma conta para jogar e 29% já tiveram o nome negativado por causa das apostas.

O problema não termina no bolso do apostador. Ele chega ao comércio.

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou aproximadamente R$ 143 bilhões do comércio varejista, cerca de 2,5% do faturamento do setor no período. A entidade estima ainda que os gastos com apostas passaram de R$ 30 bilhões por mês e contribuíram para o agravamento da inadimplência. É importante registrar que o setor de apostas contestou a metodologia da CNC e afirmou que o endividamento brasileiro tem múltiplas causas, como juros elevados e custo do crédito. A contestação deve ser considerada, mas ela não apaga os demais dados que mostram a transferência de renda das famílias para as plataformas.

E é justamente aí que precisamos discutir as bets também como um problema macroeconômico.

Quando uma família compra comida, paga uma prestação, contrata um serviço ou compra um produto no comércio local, aquele dinheiro continua circulando.  Remunera trabalhadores, paga fornecedores, gera impostos e volta para a economia. Quando parte desse dinheiro é perdida em uma aposta, a família não recebe um produto ou serviço equivalente em troca. E quando a perda é grande, ela ainda pode precisar recorrer a crédito para pagar aquilo que antes seria pago com a própria renda.

Isso cria um efeito perverso.  A pessoa aposta porque precisa melhorar sua renda.  Perde dinheiro e reduz o consumo.  Endivida-se e depois precisa trabalhar mais ou tomar crédito para recompor aquilo que perdeu.

É uma máquina de transformar esperança em dívida.

Também precisamos tomar cuidado com a forma como interpretamos os indicadores econômicos. Não é correto afirmar que as bets simplesmente "maquiam" o PIB ou que todo dinheiro apostado representa crescimento econômico. Nas contas nacionais, não se contabiliza o valor bruto apostado como se fosse produção. Mas existe, sim, um problema de interpretação quando olhamos apenas para determinados indicadores de atividade e ignoramos para onde está indo a renda das famílias e qual é a qualidade desse consumo.

Uma economia pode registrar emprego, renda e circulação financeira enquanto milhões de pessoas estão comprometendo sua renda com apostas. Pode haver dinheiro circulando e ao mesmo tempo, famílias reduzindo a compra de alimentos, roupas, serviços e bens duráveis. Pode haver crescimento nominal da atividade sem que isso signifique melhora proporcional do bem-estar.

É preciso olhar não apenas quanto dinheiro circula, mas o que esse dinheiro está financiando.

E há uma diferença fundamental entre uma economia que cresce porque as famílias consomem, as empresas investem e os trabalhadores recebem melhores salários e uma economia em que uma parcela crescente da renda disponível é capturada por um mercado cuja lógica matemática é fazer com que, no conjunto, o apostador perca.

As bets podem até gerar impostos e empregos. Será? Mas isso não transforma um modelo baseado na perda financeira de milhões de consumidores em uma política de desenvolvimento. O governo já precisou proibir crédito para apostas, bônus de entrada e cartão de crédito justamente para tentar conter o endividamento. Também criou mecanismos de autoexclusão para impedir que pessoas bloqueadas continuem apostando.

Isso demonstra que até o Estado reconhece que não estamos diante de um mercado qualquer.

Precisamos parar de aceitar a propaganda que apresenta a aposta como investimento, renda extra ou caminho para mudar de vida. Aposta não é investimento. Aposta não é renda. E para a imensa maioria, não é caminho para enriquecimento.

É um jogo em que a plataforma conhece as probabilidades antes de você jogar.

Por isso, a discussão brasileira não deveria ser simplesmente se somos "a favor" ou "contra" quem aposta. Precisamos perguntar algo muito maior. Quanto de renda das famílias brasileiras estamos dispostos a permitir que seja drenado por uma indústria que cresce justamente sobre a esperança de quem precisa de dinheiro?

“Quando a aposta começa a disputar espaço com a comida, com a conta de luz, com o aluguel, com a prestação e com a cesta básica, ela deixou de ser entretenimento.

Virou um problema econômico, social e de saúde pública.

E diante de um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais, endivida milhões de brasileiros e retira recursos do consumo cotidiano, não basta dizer ao cidadão: "jogue com responsabilidade".

É hora de dizer às bets que lucro não pode valer mais do que a proteção das famílias brasileiras.

domingo, 9 de agosto de 2026

943 árvores não são apenas 943 árvores

Mais uma vez a administração pública de Rio Preto, na pessoa do seu executivo o Prefeito Fábio Cândido do PL, quer solucionar alguma coisa com "machadadas" a exemplo das "marteladas" do governador do Estado de sua mesma linha política.

A obra que visa minimizar o impacto das enchentes na Murchid Honsi, propõe o corte de quase mil árvores.

É revoltante imaginar que uma decisão com impacto tão grande sobre o meio ambiente e a qualidade de vida de Rio Preto possa avançar sem transparência, sem diálogo amplo com a população e sem que sejam apresentadas, de forma convincente, todas as alternativas possíveis.

Estamos falando de 943 árvores. São décadas de crescimento, sombra, equilíbrio ambiental, redução do calor, qualidade do ar e vida para a nossa cidade. Não se pode tratar uma árvore como simples obstáculo a uma obra ou a um projeto. Antes de qualquer corte, é obrigação do poder público demonstrar que todas as possibilidades de preservação, adequação, transplante ou alteração do projeto foram efetivamente estudadas.

O que não podemos aceitar é a lógica do “é preciso cortar e pronto”. A população tem o direito de saber quem decidiu, por quê, com base em quais estudos, quais alternativas foram analisadas e por que foram descartadas.

Desenvolvimento não pode ser sinônimo de destruição. Obras públicas precisam respeitar a cidade, o meio ambiente e, principalmente, as pessoas que vivem nela.

Por isso, quarta-feira, 12 de agosto, às 18h30, na Câmara Municipal, teremos uma audiência pública sobre a questão das árvores da Murchid Honsi.

Rio Preto precisa estar presente. Não podemos deixar que 943 árvores sejam reduzidas a uma estatística. Vamos ocupar a Câmara, exigir transparência e defender o direito da população de participar das decisões sobre a cidade que é de todos nós.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Soberania não se comunica com resignação

Imagem - Correio Brasiliense

 É evidente que nenhuma pessoa minimamente informada acredita que o Brasil tenha capacidade militar para enfrentar sozinho uma potência como os Estados Unidos em um conflito convencional. Essa constatação não é o problema. O problema é quando essa ideia é expressa pelo próprio ministro da Defesa em termos como "abrir o portão". Um ministro dessa área não representa apenas uma opinião pessoal.  Ele representa a postura institucional de um país soberano.

A função de um ministro da Defesa é transmitir confiança, capacidade de dissuasão e compromisso permanente com a proteção da integridade nacional. Mesmo quando defende a necessidade de ampliar investimentos nas Forças Armadas, sua comunicação deve reforçar que o Brasil trabalha para preservar sua soberania, fortalecer sua indústria de defesa e garantir condições para proteger seu território e seus interesses. É justamente esse o argumento que o próprio ministro vem apresentando ao defender um orçamento mais previsível para o setor.

Governos democráticos precisam conciliar transparência com responsabilidade institucional. Reconhecer limitações orçamentárias é legítimo. Transformá-las em uma metáfora de rendição pode transmitir uma mensagem muito diferente da pretendida. Em política internacional, palavras têm peso. Elas influenciam a percepção sobre a capacidade, a confiança e a determinação de um país.

Cabe ao presidente da República, como comandante supremo das Forças Armadas, definir a orientação política da área de Defesa e assegurar que a comunicação de seus ministros esteja alinhada aos interesses permanentes do Estado brasileiro. O Brasil deve investir em sua capacidade de defesa não para alimentar aventuras militares, mas para fortalecer a soberania, ampliar sua capacidade de dissuasão e demonstrar que a paz se constrói, também, pela credibilidade de suas instituições.


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Espiritismo e eleições: é possível ser progressista à luz de Kardec?

 

A cada período eleitoral, muitos espíritas voltam a se perguntar qual deve ser sua postura diante da política. Afinal, um espírita pode assumir um posicionamento político definido? É possível ser progressista sem contrariar os ensinamentos de Allan Kardec? Ou a Doutrina Espírita exige neutralidade absoluta diante das questões sociais?

A resposta exige uma reflexão serena e, acima de tudo, fiel à obra kardequiana. O Espiritismo não nasceu como uma doutrina política, nem pretendeu indicar partidos, candidatos ou modelos de governo. Allan Kardec jamais procurou transformar a Doutrina em instrumento de disputa ideológica. Ao contrário, preocupou-se em oferecer princípios morais capazes de orientar o progresso espiritual do ser humano, preservando sempre a liberdade de consciência e o uso da razão.

Isso, entretanto, não significa que o espírita deva ser indiferente aos problemas da sociedade. O próprio Espiritismo ensina que o progresso da humanidade ocorre simultaneamente em duas dimensões.  A do indivíduo e a das instituições humanas. À medida que os Espíritos evoluem moralmente, também são chamados a construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec apresenta a Lei de Justiça, Amor e Caridade como uma das leis morais que regem a vida humana. Ensina também que todos os Espíritos são criados simples e ignorantes, iguais perante Deus e destinados ao aperfeiçoamento. Não há privilégios naturais entre os homens que justifiquem a exploração, a opressão ou a negação da dignidade de qualquer pessoa.

Esses princípios possuem profundas implicações sociais. Defender políticas que combatam a pobreza, ampliem oportunidades, reduzam desigualdades, fortaleçam a educação, promovam a saúde pública e garantam proteção aos mais vulneráveis pode ser uma consequência natural da compreensão que muitos espíritas têm da lei de amor ao próximo. Para esses espíritas, assumir uma posição progressista não representa abandonar Kardec, mas procurar aplicar, na organização da sociedade, os valores de fraternidade, solidariedade e justiça ensinados por Jesus e reafirmados pela Doutrina Espírita.

Isso não significa afirmar que o Espiritismo seja uma doutrina de esquerda ou que Kardec defenderia determinado partido político. Tal conclusão não encontra respaldo em suas obras. O Espiritismo oferece princípios, não programas de governo. Ele forma consciências, não eleitorados. Cabe a cada indivíduo, utilizando sua inteligência, seu conhecimento da realidade e sua consciência moral, escolher quais propostas considera mais coerentes com esses princípios.

Da mesma forma, espíritas podem chegar a conclusões políticas diferentes sem, por isso, deixarem de ser sinceros seguidores da Doutrina. A diversidade de opiniões faz parte da liberdade de consciência defendida por Kardec. O que não encontra amparo na ética espírita é a intolerância, o fanatismo, o ódio, a mentira deliberada, a perseguição aos adversários ou a utilização da religião como instrumento de manipulação política.

O espírita deve lembrar que nenhum candidato representa o bem absoluto e nenhum adversário encarna o mal absoluto. A visão espírita convida à humildade, ao discernimento e à compreensão das imperfeições humanas. Todos estamos em processo de evolução, inclusive aqueles que exercem funções públicas.

Também é importante recordar que Jesus jamais se omitiu diante das injustiças de seu tempo. Não organizou partidos nem buscou o poder político, mas colocou-se sempre ao lado dos marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos excluídos. Sua mensagem rompeu estruturas sociais injustas ao proclamar que todos são filhos de Deus e igualmente dignos de respeito e amor.

Inspirado por esse exemplo, o espírita pode compreender que participar da vida política é também uma forma de exercer a caridade. Votar com responsabilidade, acompanhar os governantes, defender políticas públicas que promovam o bem comum, combater a corrupção e exigir honestidade dos representantes são formas legítimas de colaborar para o progresso coletivo.

Ser progressista, portanto, não é incompatível com o Espiritismo. Tampouco ser conservador exclui alguém da vivência espírita. O que define a fidelidade à Doutrina não é a posição ideológica, mas a maneira como cada pessoa vive os ensinamentos de justiça, amor, caridade, respeito, tolerância e fraternidade.

Nas próximas eleições, talvez a pergunta mais importante não seja em quem votar, mas quais valores orientarão essa escolha. O espírita coerente procurará candidatos e propostas que respeitem a dignidade humana, promovam a paz, combatam as desigualdades sem alimentar o ódio e fortaleçam uma sociedade onde todos possam desenvolver plenamente suas potencialidades.

Em última análise, Kardec nos convida a pensar antes de seguir, a raciocinar antes de repetir e a agir sempre movidos pelo amor ao próximo. Se nossas escolhas políticas nascerem dessa consciência, estaremos exercendo não apenas um direito de cidadania, mas também um compromisso com o progresso moral da humanidade.

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Terrorismo, soberania e o velho complexo de vira-lata

 

Imagem - ICL Notícias
O governo dos Estados Unidos decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas estrangeiras”. A medida veio logo após a visita de Flávio Bolsonaro a autoridades americanas e foi celebrada pela extrema-direita brasileira como se fosse uma medalha de honra nacional. Mas antes do delírio colonizado dos patriotas de joelho dobrado diante da bandeira dos EUA, talvez seja necessário fazer algumas perguntas sérias.

Desde quando cabe a um governo estrangeiro definir unilateralmente o enquadramento jurídico de organizações que atuam em território brasileiro?

Desde quando a soberania nacional virou mera sugestão diplomática?

O Brasil possui legislação própria sobre terrorismo. E o próprio governo brasileiro, por meio de especialistas em segurança pública, já afirmou anteriormente que PCC e CV não se enquadram juridicamente na definição de terrorismo prevista em nossa legislação, justamente porque não possuem motivação política, religiosa ou ideológica. São organizações criminosas violentas? Evidentemente. Mas isso não autoriza qualquer potência estrangeira a reclassificar juridicamente fenômenos internos brasileiros conforme seus interesses geopolíticos.

Porque é disso que se trata.

Os Estados Unidos nunca agem apenas por princípios abstratos. A história mundial mostra exatamente o contrário. Quando Washington decide transformar algo em “ameaça à segurança nacional”, normalmente o passo seguinte envolve pressão diplomática, sanções, interferência econômica, espionagem, cooperação militar assimétrica ou tutela política.

É exatamente aí que mora o perigo.

Hoje classificam facções brasileiras. Amanhã alegam que existe ameaça regional. Depois dizem que precisam “cooperar diretamente” no combate ao terrorismo dentro do território nacional. E quando percebemos, parte da elite brasileira já está aplaudindo a relativização da própria soberania em nome da submissão ideológica aos interesses americanos.

O mais impressionante é ver setores que se dizem patrióticos comemorando isso.

Patriotas de verdade defendem a autonomia nacional. Não entregam prerrogativas estratégicas do país para governos estrangeiros. Não transformam o Brasil em quintal geopolítico dos Estados Unidos. Não vibram quando autoridades estrangeiras passam a reivindicar autoridade moral, política ou operacional sobre problemas internos brasileiros.

O combate ao crime organizado é obrigação do Estado brasileiro. Das instituições brasileiras. Da inteligência brasileira. Das leis brasileiras.

Ou agora teremos que pedir autorização em Washington para definir nossa política de segurança pública?

E é inevitável a pergunta: qual foi exatamente o papel da visita de Flávio Bolsonaro nessa decisão?

Porque, se houve participação direta de um senador brasileiro estimulando uma potência estrangeira a endurecer mecanismos de pressão internacional sobre o próprio país, o debate deixa de ser apenas diplomático e passa a envolver algo muito mais profundo. A deterioração completa do conceito de soberania entre setores da extrema-direita brasileira.

Existe uma diferença brutal entre cooperação internacional e submissão política.

Uma coisa é trocar informações, integrar inteligência e combater fluxos internacionais do crime organizado. Outra, completamente diferente é celebrar a ampliação informal do poder político estadunidense sobre assuntos internos brasileiros.

O Brasil não precisa de tutela estrangeira. Precisa de instituições fortes, inteligência estatal séria, investimento em investigação financeira, controle de fronteiras e combate estrutural às organizações criminosas.

Mas talvez isso dê menos likes do que posar sorridente ao lado de autoridades do norte enquanto se terceiriza a própria soberania nacional.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Patriotismo em Inglês dos Bolsonaro. O bolsonarismo tentando trocar de máscara.

Imagem ICL Notícias

A extrema-direita brasileira começa a viver um problema que sempre tentou esconder atrás do marketing agressivo, dos vídeos inflamados e do patriotismo performático.  A ausência completa de projeto político real para o país. E talvez nenhum símbolo disso seja mais evidente do que a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas presidenciais e o constrangimento cada vez maior produzido pelos movimentos da própria família Bolsonaro.

Enquanto o presidente Lula governa, articula internacionalmente, entrega obras, recompõe políticas públicas e tenta reorganizar um país devastado pelo negacionismo e pelo caos administrativo, o bolsonarismo parece preso numa mistura de ressentimento, escândalo e autopromoção caricata. O episódio envolvendo recursos ligados ao banqueiro Vorcaro, associados à tentativa de produção de um filme político sobre Bolsonaro, escancarou algo constrangedor.  A transformação definitiva da política bolsonarista numa indústria familiar de vitimização e propaganda.

E talvez nada represente melhor esse ridículo do que a ideia de produzir um filme em inglês para falar de patriotismo brasileiro. É quase uma metáfora perfeita da lógica vira-lata do bolsonarismo. Passaram anos berrando “Brasil acima de tudo”, enrolados em bandeiras nacionais, enquanto sonhavam, no fundo, com aplausos vindos de Miami, da Flórida ou dos círculos mais radicais da direita internacional. Não é nacionalismo. É dependência cultural fantasiada de conservadorismo tropical.

A própria trajetória de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos reforça isso. Um parlamentar brasileiro que prefere atuar como influencer político internacional contra o próprio país enquanto alimenta narrativas de perseguição para consumo externo. Um patriotismo tão frágil que precisa ser legendado em inglês para existir.

E agora, diante do desgaste crescente de Flávio, surge de maneira cada vez mais organizada a figura de Michelle Bolsonaro. Não como uma liderança política construída no debate público, na formulação de ideias ou na experiência administrativa, mas como produto cuidadosamente embalado para manter viva a marca eleitoral bolsonarista. Uma candidatura que avança sorrateiramente, protegida pela estética religiosa, pela linguagem emocional e pela blindagem construída em setores conservadores.

O presidente do PL sabe disso. Sabe que o sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza uma parcela importante do eleitorado radicalizado, mas também percebe que Flávio Bolsonaro, agora carrega rejeição elevada, problemas judiciais e enorme desgaste político. Michelle aparece, então, como uma alternativa menos agressiva na aparência, embora profundamente vinculada ao mesmo projeto autoritário, moralista e antipopular.

A estratégia é evidente, ou seja, trocar o grito pela doçura ensaiada, substituir a brutalidade explícita por um discurso emocional cuidadosamente moldado para as redes sociais e para setores religiosos. Mas o conteúdo permanece o mesmo. Continua ali o ataque às minorias, o negacionismo social, a submissão ao mercado financeiro, o moralismo seletivo e a exploração política da fé. E claro, toda a história de desvios, encobertas de malfeitos e outras questões nunca explicadas devidamente ao eleitorado da direita.

No fundo, o bolsonarismo tenta sobreviver mudando a embalagem sem alterar o produto.

E talvez seja justamente isso que faça, a partir de agora, parte do Brasil enxergar.

domingo, 10 de maio de 2026

Entre a origem e o sentido. Por que o Dia das Mães ainda importa.

 

Imagem - News Brasil

Muito se tem dito sobre as contradições que envolvem o Dia das Mães. A história de Anna Jarvis é frequentemente resgatada para lembrar que a data nasceu de um gesto sincero de amor e reconhecimento e não de uma estratégia de mercado. De fato, ao idealizar a homenagem à sua mãe, Ann Reeves Jarvis, Anna desejava um dia de reflexão, afeto verdadeiro e valorização das mulheres, longe das vitrines, das campanhas publicitárias e do consumo desenfreado que, mais tarde, passariam a marcar a celebração.

Esse resgate histórico é importante e merece respeito. No entanto, há um equívoco em transformar essa crítica em negação do próprio valor que a data adquiriu ao longo do tempo. O fato de o Dia das Mães ter sido incorporado à lógica comercial não anula, por si só, o seu significado mais profundo. Afinal, vivemos em uma sociedade onde praticamente todas as datas simbólicas convivem com o mercado. Ainda assim, isso não impede que sejam, também, momentos legítimos de encontro, memória e expressão de sentimentos.

Reduzir o Dia das Mães a uma “data comercial” é, em certa medida, desconsiderar a experiência concreta de milhões de pessoas que encontram nesse dia uma oportunidade, muitas vezes rara, de expressar gratidão, carinho e reconhecimento.

Em meio à correria da vida cotidiana, nem sempre conseguimos dizer o que sentimos. Há afetos que ficam adiados, palavras que não encontram tempo. E nesse contexto, datas como essa funcionam como um convite coletivo à pausa, à lembrança e ao gesto.

É preciso reconhecer que o valor de uma data não está apenas na sua origem, mas naquilo que fazemos com ela. Se há quem compre presentes por obrigação ou convenção, há também quem escreva mensagens sinceras, quem abrace mais forte, quem relembre histórias, quem agradeça. O comércio pode até cercar a data, mas não é capaz de esvaziar, por completo, o sentido que cada pessoa decide atribuir a ela.

Além disso, o próprio conceito de maternidade se ampliou. Hoje, celebramos não apenas as mães biológicas, mas todas as formas de cuidado, dedicação e amor que se manifestam na experiência de ser mãe, inclusive aquelas construídas por escolha, por vínculo e por afeto. Isso torna a data ainda mais relevante, pois reconhece a diversidade das relações humanas e a profundidade do papel que essas mulheres exercem na formação de vidas.

Honrar o Dia das Mães, portanto, não é ignorar sua história, mas dar continuidade ao seu propósito essencial. É reconhecer que, mesmo em um mundo marcado por contradições, ainda somos capazes de transformar uma data em algo significativo. Celebrar não é se render ao consumo.  É reafirmar valores.

Porque, no fim das contas, o que sustenta o Dia das Mães não são as vitrines, mas os sentimentos. E enquanto houver amor, memória e gratidão, sempre haverá motivo, legítimo e necessário, para celebrar.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Juventude velhaca ou envelhecida?

Jovens na Fila dos Cartórios - 1º título eleitoral
Imagem - Agência Nacional

Existe algo de profundamente inquietante no nosso tempo. Uma parcela da juventude brasileira, que deveria representar rebeldia contra injustiças, defesa de direitos e abertura ao novo, parece caminhar na direção oposta.  Abraça discursos autoritários, veste símbolos da extrema-direita e em muitos casos, transforma a intolerância em identidade política.

A pergunta que surge é inevitável: o que está acontecendo?

Talvez estejamos diante de uma juventude sem memória histórica. Jovens que não viveram os anos duros da ditadura militar brasileira e que, por isso, não conseguem dimensionar o peso da censura, da tortura, da perseguição política e da ausência de liberdade. Da mesma forma, muitos desconhecem as consequências sociais da hiperinflação do governo Sarney, do confisco da poupança promovido por Fernando Collor de Mello ou dos desmontes trabalhistas e previdenciários ocorridos durante o governo Michel Temer.

Sem essa memória, parte da juventude passa a enxergar a política apenas pela superfície das redes sociais, dos cortes rápidos, dos memes e da estética do confronto. E isso é decisivo. A extrema-direita compreendeu antes de muitos setores progressistas que, no mundo digital, emoção mobiliza mais do que argumento. Raiva, medo, sensação de pertencimento e discurso simplificado têm enorme poder de sedução, principalmente em tempos de insegurança econômica, ansiedade social e crise de perspectivas.

Há também um elemento psicológico importante.  Muitos jovens cresceram em um ambiente de hipercompetição, individualismo e frustração. Encontram dificuldade de inserção econômica, convivem com trabalhos precarizados e vivem sob constante pressão por desempenho e reconhecimento. Nesse contexto, discursos autoritários oferecem algo sedutor.  Respostas fáceis para problemas complexos e a falsa sensação de força e identidade.

Isso não significa que toda juventude conservadora seja “descerebrada”, como muitas vezes a indignação nos leva a afirmar. Seria um erro repetir a mesma lógica de desumanização que criticamos. O desafio talvez seja outro.  Compreender como uma geração conectada a tudo pode, paradoxalmente, estar desconectada da própria história.

Também existe uma falha das forças democráticas e progressistas. Durante muito tempo, acreditou-se que avanços sociais falariam por si mesmos. Mas direitos sem memória política se tornam frágeis. Quando a história deixa de ser ensinada de maneira viva, emocional e concreta, ela passa a parecer distante, abstrata e irrelevante para quem não a viveu.

O resultado é uma juventude que, em alguns casos, envelhece antes do tempo. Não biologicamente, mas moral e politicamente. Jovens que deveriam sonhar com mais liberdade acabam defendendo controle. Que deveriam ampliar direitos acabam relativizando desigualdades.  Que deveriam combater opressões acabam reproduzindo intolerância.

Ainda assim, seria injusto transformar essa reflexão numa condenação definitiva da juventude. Há milhares de jovens organizados em movimentos sociais, universidades, coletivos culturais e lutas populares. A disputa está em aberto. E talvez a saída não esteja em desprezar ou ridicularizar quem pensa diferente, mas em reconstruir pontes de diálogo, memória e consciência crítica.

Porque nenhuma geração nasce pronta. Toda juventude é, antes de tudo, um território em disputa.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Entre tensões globais e impasses internos, para onde estamos indo?

 

Imagem - ICL Noticias
O cenário político atual, no Brasil e no mundo, revela um tempo de instabilidade, disputas e decisões que impactam diretamente a vida das pessoas.

Até por isso, Lula visita Trump com a clara tarefa de exigir (ou negociar) seu distanciamento do processo eleitoral brasileiro.

Como vimos, no plano internacional, aumentam as tensões e os conflitos. Rússia e Ucrânia, com destaque para Irã, EUA e Libano, esses por conta de Israel, agora envolto no episódio da prisão do ativista brasileiro.

Ações estatais e denúncias de violações de direitos que reacendem debates importantes sobre soberania, justiça e direitos humanos.

Esses acontecimentos não são distantes, pois refletem um mundo em que a política internacional volta a ocupar o centro das preocupações.

No Brasil, o ambiente político também segue marcado por forte disputa institucional. O governo do presidente Lula enfrenta dificuldades na articulação com o Congresso, com episódios recentes como a rejeição do indicado do presidente ao Supremo e a derrubada dos vetos presidenciais sobre a PL da dosimetria, que evidenciam essa tensão.

Nesse contexto, iniciativas de investigação e controle, como a proposta de CPI envolvendo o Banco Máster, ganham relevância ao colocar em debate a necessidade de transparência e responsabilização no sistema financeiro e nas relações institucionais, sobretudo expondo os envolvidos do Congresso inimigo do povo.

Ao mesmo tempo, o debate político nacional segue atravessado por projetos distintos de país, representados por diferentes lideranças, como Romeu Zema, que se posiciona dentro da extrema-direita e tem apresentado propostas que geram debates e divergências sobre seus impactos sociais e econômicos.  Dentre elas o aumento da idade para aposentadorias, a liberação do trabalho infantil e outros absurdos.

Diante desse cenário, o que se impõe é uma reflexão mais profunda.  Qual projeto de sociedade queremos construir? Um país marcado por conflitos institucionais e disputas permanentes, ou um ambiente político capaz de equilibrar interesses, garantir direitos e promover desenvolvimento com justiça social?

A resposta a essa pergunta não está apenas nos governos ou nas lideranças, mas na capacidade da sociedade de acompanhar, compreender e participar do debate público com responsabilidade e consciência crítica.

Mais do que nunca, o momento exige atenção, informação qualificada e compromisso com os valores democráticos.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Espiritismo, Evangelho e Política

 

Imagem Carta Capital
Em tempos de intensa polarização é comum ouvirmos que espiritualidade e política não devem se misturar.

No entanto, essa separação rígida nem sempre encontra respaldo nas próprias bases morais que orientam muitas tradições religiosas.

No caso da doutrina espírita, codificada por Allan Kardec, há elementos claros que apontam para a importância da vida em sociedade como campo de evolução moral, o que inevitavelmente nos conduz à reflexão sobre o papel da política em nossas vidas.

Em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões que tratam da lei de sociedade, afirma-se que o ser humano não foi feito para viver isolado. A convivência é uma necessidade natural e é por meio dela que se desenvolvem virtudes, se corrigem imperfeições e se constrói o progresso coletivo.

Se viver em sociedade é uma lei natural, então a forma como essa sociedade se organiza também se torna uma responsabilidade humana. E é exatamente nesse ponto que a política, entendida como organização da vida comum, se insere.

A doutrina espírita também aborda a lei de justiça, amor e caridade, indicando que as leis humanas devem se aproximar cada vez mais das leis divinas. Quando há desigualdade, exploração ou injustiça, isso não é reflexo de uma ordem superior, mas sim das imperfeições humanas ainda presentes. Cabe, portanto, ao próprio homem trabalhar pela melhoria dessas estruturas. Essa tarefa não se limita ao campo individual, mas se estende às instituições, às leis e às decisões coletivas que moldam a sociedade.

Nesse sentido, a omissão diante das questões sociais não parece compatível com o ideal espírita. Se temos consciência, se compreendemos o certo e o errado, somos também responsáveis por agir, não apenas em nossas relações pessoais, mas no espaço coletivo. A política, nesse contexto, deixa de ser um território distante ou “impuro” e passa a ser um instrumento possível de construção do bem comum.

Os ensinamentos de Jesus Cristo reforçam ainda mais essa perspectiva. Ao longo do Evangelho, vemos uma mensagem profundamente comprometida com a dignidade humana. Jesus não se limitou a discursos abstratos.  Esteve ao lado dos marginalizados, confrontou hipocrisias, denunciou injustiças e apontou para uma ética baseada no amor ao próximo. Quando ensina “amai-vos uns aos outros” ou “fazei ao próximo o que quereis que vos façam”, ele estabelece princípios que, se levados a sério, têm impacto direto na organização da sociedade.

Não se trata de defender partidos ou ideologias específicas, mas de reconhecer que a construção de uma sociedade mais justa exige posicionamento, consciência e participação. A neutralidade absoluta, diante de cenários de desigualdade e sofrimento, pode significar, na prática, a manutenção dessas mesmas condições.

Assim, tanto a doutrina espírita quanto os ensinamentos do Evangelho convergem em um ponto essencial, a saber, que a vida em sociedade é parte do processo evolutivo do ser humano, e a busca por justiça, dignidade e fraternidade não pode ser apenas individual, precisa também se refletir nas estruturas coletivas.

Participar, refletir, escolher e agir são, portanto, expressões não apenas de cidadania, mas também de compromisso moral. Afinal, transformar o mundo ao nosso redor é em última instância, uma das formas mais concretas de viver aquilo que se acredita.

sábado, 25 de abril de 2026

Entre o craque e o homem

 

Imagem UOL
Meu pai era corinthiano daqueles de raiz. Mas, mais do que isso, era apaixonado pelo futebol bem jogado. Não era só o clube, era o espetáculo, a arte, o improviso, a genialidade em campo. E nisso ele era generoso. Reconhecia talento onde ele estivesse.

Por isso, nossas discussões eram inevitáveis.

Ele defendia Pelé com a convicção de quem não aceitava comparação. Eu, teimoso, tentava levar Diego Maradona ao mesmo altar. E ali, entre argumentos e provocações, travávamos batalhas que, hoje vejo, eram menos sobre futebol e mais sobre amor.  Aquele amor que só se expressa assim, no calor das palavras.

Mas foi na última Copa, em 2022, que tivemos nossa conversa mais difícil.

Já próximo de sua partida, meu pai ainda tinha energia pra defender o jogo bonito e, naquele momento, ele enxergava isso em Neymar. Dizia que era um grande jogador, que merecia respeito, que minhas críticas eram duras demais.

E eram mesmo.

Porque eu nunca consegui separar o jogador do homem. Nunca consegui ver só o drible, ignorando o que estava fora de campo. Meu pai, não. Ele tinha essa sabedoria.  Enxergava o futebol na sua essência, quase como uma obra de arte que existe por si.

Discutimos. Elevamos o tom. Como sempre fizemos.

Hoje, isso me dói.

Não pelo que pensamos, porque pensar diferente sempre fez parte de nós, mas pela intensidade, pelo excesso, pelo tempo que já não volta.

Com o passar dos dias, fui entendendo que meu pai via algo que eu ainda estou aprendendo a ver.  O futebol como linguagem própria, como beleza autônoma, como expressão que não precisa carregar todo o peso do mundo.

Ele entendia mais. E eu reconheço isso com humildade.

Mas ainda carrego em mim essa dificuldade, essa insistência em misturar o campo com a vida, o craque com o cidadão. Talvez seja defeito. Talvez seja convicção. Talvez seja só o meu jeito de ver o mundo.

E é por isso que, mesmo hoje, não consigo lamentar a ausência de Neymar em uma convocação. Há em mim algo que ainda cobra mais do que talento.

Meu pai, provavelmente, discordaria.

E talvez sorrisse diante disso.

No fim, nossas discussões nunca foram sobre quem estava certo. Foram sobre estarmos juntos, vivendo o futebol com paixão, cada um à sua maneira.

E se hoje eu penso diferente, ainda assim carrego comigo o que ele me ensinou sem dizer que o futebol, como a vida, é feito de olhares.

E o dele… era mais bonito que o meu.


A mídia tem lado e isso precisa ser compreendido.

 

Imagem Carta Capital

A ideia de uma mídia completamente neutra é mais um ideal do que uma realidade concreta. Em um mundo atravessado por disputas econômicas, políticas e culturais, a informação também é parte desse jogo. O que vemos diariamente nos grandes veículos de comunicação não é apenas a descrição dos fatos, mas a construção de narrativas e toda narrativa carrega escolhas.

Basta observar a cobertura de temas internacionais para perceber esse fenômeno com clareza. Conflitos envolvendo países como o Irã costumam ser apresentados sob uma ótica específica, na qual determinados atores são rapidamente posicionados como vilões, enquanto outros, agressores de fato como os EUA ou Israel, têm suas ações relativizadas ou justificadas. Movimentos como o Hezbollah ou Hamas são frequentemente rotulados apenas como terroristas, desconsiderando sua dimensão política e social em seus territórios de atuação. Isso não significa ignorar práticas condenáveis, mas evidencia que a forma de narrar influencia diretamente a percepção pública.

O mesmo ocorre com lideranças políticas de países que não estão alinhados aos interesses das grandes potências ocidentais. Governantes de nações como Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte são frequentemente enquadrados sob rótulos como “ditadores” ou “regimes”, enquanto aliados estratégicos recebem tratamentos mais moderados, mesmo diante de situações igualmente controversas, como a Arábia Saudita. A linguagem não é neutra, ela orienta o olhar.

No cenário interno, a lógica não é muito diferente. Figuras públicas que atuam simultaneamente como líderes religiosos e empresários de comunicação são muitas vezes, apresentadas apenas por seus títulos eclesiásticos (pastores, bispos), o que pode obscurecer sua atuação econômica e política. Isso revela como a mídia também simplifica ou enquadra personagens conforme determinadas convenções e interesses, deixando de lado nuances importantes.

Esse processo não decorre, necessariamente, de uma conspiração deliberada, mas de fatores estruturais. A concentração dos meios de comunicação em grandes grupos econômicos, a dependência de fontes oficiais, o alinhamento histórico com determinados centros de poder e a necessidade de simplificar temas complexos para consumo rápido. Tudo isso contribui para a reprodução de determinadas visões de mundo em detrimento de outras.

Diante desse cenário, o desafio não é rejeitar ou tentar transformar a mídia, mas aprender a lê-la criticamente. Isso significa buscar diferentes fontes, comparar versões, entender quem fala e de onde fala, e reconhecer que toda informação carrega contexto. A pluralidade de olhares é essencial para evitar uma compreensão limitada da realidade.

A mídia tem lado ou, mais precisamente, múltiplos lados em disputa. Ignorar isso é abrir mão da própria capacidade de interpretar o mundo. Compreender esse processo, por outro lado, é um passo fundamental para exercer cidadania com consciência e autonomia.

Deus salve os jornalistas livres que podem exercer suas profissões com verdade e fatos. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O santo que não se curva diante da injustiça

 

Imagem - The Independent - UK

Celebrado em 23 de abril, São Jorge é muito mais do que um santo da tradição cristã. Ele é símbolo universal de coragem, resistência e justiça.  Um guerreiro que atravessou séculos e culturas, mantendo viva a chama da luta contra o mal.

Sua história remonta ao século III. Jorge foi um soldado romano que se recusou a negar sua fé cristã diante das perseguições do imperador. Por essa coragem, foi torturado e morto, tornando-se mártir.

A tradição conta que seus restos mortais foram enterrados em Lida, na antiga região da Palestina, local que até hoje recebe peregrinos.

Mas é na imagem que São Jorge ganha contornos ainda mais grandiosos. Em tempos difíceis, sua imagem montada no cavalo, enfrentando o dragão, nos lembra de algo essencial.  O mal pode ser grande, mas nunca é invencível.

Mais do que um combate físico, esse episódio simboliza a vitória da justiça sobre a opressão, da fé sobre o medo, da dignidade sobre a violência.

Não por acaso, São Jorge é padroeiro de diversos lugares e instituições ao redor do mundo. Dentre eles é padroeiro da Inglaterra, da Geórgia e de Portugal. Também é padroeiro de Moscou, capital da Rússia. 

No Brasil, sua devoção atravessa religiões e identidades. É venerado por católicos, celebrado com intensidade pelas religiões de matriz africana e na umbanda, é sincretizado com Ogum, o orixá guerreiro, abridor de caminhos, defensor dos que lutam.

Sua presença também está no coração do povo. É símbolo de luta para quem enfrenta dificuldades, para quem batalha diariamente por dignidade. Não à toa, até o futebol o abraça. O Sport Club Corinthians Paulista carrega São Jorge como padroeiro, representando a garra, a fé e a resistência de sua torcida.

São Jorge “se dói” com as injustiças. É o santo daqueles que não aceitam o mundo como ele está quando ele é desigual. Sua devoção é buscada por quem precisa de proteção, coragem, abertura de caminhos e força para enfrentar batalhas, visíveis ou invisíveis.

Salve São Jorge. Protetor dos que acreditam. Inspiração dos que resistem.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A vitória de Ana Paula foi popular ou sinal político?

 

Imagem  G1
A vitória de uma participante no Big Brother Brasil frequentemente desperta interpretações que vão além do entretenimento.

Em um país profundamente politizado como o Brasil atual, não é incomum que o público associe trajetórias individuais dentro do programa a posicionamentos ideológicos mais amplos.

No caso recente da vitória de Ana Paula Renaulta, a percepção de que a mesma tenha afinidade com pautas progressistas, especialmente ao demonstrar apoio a políticas sociais ou a lideranças políticas específicas, gerou um debate imediato.  Sua vitória representaria um sinal de maior consciência política da população?

É preciso cautela.

O BBB é, antes de tudo, um programa de grande alcance popular que mistura carisma, narrativa emocional, identificação do público e dinâmica de jogo. A escolha do vencedor raramente se dá por critérios exclusivamente políticos. Elementos como empatia, história de vida, conflitos vividos na casa e capacidade de comunicação costumam pesar mais diretamente no resultado.

Isso não significa, por outro lado, que aspectos políticos estejam ausentes. Em um ambiente social atravessado por debates intensos, como desigualdade, direitos sociais e papel do Estado, posicionamentos explícitos ou implícitos dos participantes podem influenciar parte do público. Especialmente nas redes sociais, esses elementos ganham amplitude e ajudam a moldar a imagem dos jogadores.

A eventual identificação da vencedora com pautas associadas ao campo progressista pode, sim, dialogar com parcelas da sociedade que valorizam essas agendas. Mas interpretar sua vitória como um indicador direto de apoio majoritário a um projeto político específico seria uma simplificação excessiva.

O resultado do BBB tende a refletir mais um consenso emocional momentâneo do que uma decisão política estruturada. Trata-se de uma escolha mediada por entretenimento, ainda que atravessada por valores sociais.

Por outro lado, não se pode ignorar que a televisão aberta, especialmente programas de grande audiência, continua sendo um espaço relevante de formação simbólica. Quando figuras públicas associadas a determinados valores ganham projeção positiva, isso contribui para normalizar e difundir certas visões de mundo.

Nesse sentido, a vitória pode ser lida menos como um “termômetro eleitoral” e mais como um sinal cultural.  A presença de discursos ligados à inclusão social, direitos e políticas públicas segue encontrando ressonância em parte significativa do público.

Em síntese, o fenômeno não autoriza conclusões definitivas sobre a orientação política da sociedade brasileira, mas indica que o debate sobre justiça social e papel do Estado permanece vivo, inclusive nos espaços de entretenimento.

Que o Congresso preste bem atenção nisso.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Quando o poder vira delírio.

 

Há momentos em que a política deixa de ser disputa de ideias e passa a revelar algo mais preocupante como a desconexão completa com qualquer senso de limite.

As recentes declarações e encenações de Donald Trump caminham perigosamente nessa direção.

Atacar uma liderança religiosa, como vem fazendo contra o Papa Leão XIV por defender a paz já seria, por si só, um gesto questionável. Mas ir além, simulando uma imagem messiânica como o próprio Cristo, colocando-se como figura divina, enquanto critica posições humanitárias, não é apenas arrogância. É sintoma de um poder que já não reconhece freios morais.

O mundo vive tensões reais, conflitos que custam vidas, especialmente no Oriente Médio. Nesse cenário, vozes que pedem diálogo, prudência e respeito à vida deveriam ser ouvidas e não ridicularizadas.

A tentativa de deslegitimar esse discurso revela uma lógica perigosa, qual seja a de que força e imposição valem mais do que qualquer construção coletiva de paz.

Trump insiste em transformar tudo em espetáculo, inclusive a política externa. Ao fazer isso, reduz temas complexos a slogans e ataques pessoais, mentiras absurdas, ignorando que decisões nesse campo não são bravatas de campanha, mas escolhas que afetam milhões de vidas.

E há algo ainda mais grave.  A construção de uma narrativa em que ele próprio se coloca acima das instituições, acima das críticas e agora, até acima de referências espirituais. Quando um líder político passa a se enxergar como incontestável, o problema deixa de ser ideológico e torna-se institucional e em certa medida, civilizatório.

Não se trata de divergência política, mas de responsabilidade.

O mundo não precisa de líderes que se comportam como figuras absolutas. Precisa de equilíbrio, respeito e compromisso com a vida. E quando isso falta é dever de todos dizer com clareza que o “cara” passou dos limites.

sábado, 11 de abril de 2026

Do Brasil para o mundo: saúde como direito, não privilégio

 

Imagem - ICL Notícias
O que é bom se espalha, inspira, transforma. E o Sistema Único de Saúde é exatamente isso.  Uma das maiores expressões de inclusão social já construídas no Brasil.

Universal, gratuito e acessível, o SUS materializa um princípio civilizatório poderoso.  O de que saúde não é privilégio, é direito. Em um mundo onde boa parte dos países ainda trata o atendimento médico como mercadoria, o Brasil ousou fazer diferente. E fez certo.

Agora, esse exemplo começa a ecoar além das nossas fronteiras.

O México se prepara para implantar um sistema inspirado no modelo brasileiro, com início previsto para 2027. Sob a liderança da presidenta Claudia Sheinbaum, o país dá passos concretos rumo à universalização do acesso à saúde, apostando na integração de dados, na ampliação do atendimento e na construção de uma rede que alcance, sobretudo, os mais vulneráveis.

Não se trata de copiar por copiar. Trata-se de reconhecer que políticas públicas bem-sucedidas devem, sim, ser replicadas. O novo sistema mexicano aposta na unificação de prontuários, no uso de tecnologia para facilitar o acesso e na ampliação de serviços essenciais, de emergências a tratamentos contínuos, da saúde mental à prevenção.

É a ideia de que o Estado deve estar presente onde a vida mais precisa.

O SUS, tantas vezes atacado por quem não compreende sua grandeza, mostra mais uma vez sua força. Não apenas por atender milhões de brasileiros todos os dias, mas por se tornar referência internacional. Por provar, na prática, que é possível construir um sistema de saúde baseado na solidariedade, na eficiência e no compromisso com a vida.

Quando um país olha para o Brasil e decide seguir esse caminho, não está apenas adotando um modelo. Está fazendo uma escolha política e humana. Porque, no fim das contas, o que é bom mesmo foi feito para ser compartilhado.

 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Tio Sam perdeu a pose. Quando o império blefa e o mundo não compra.

 

Há uma contradição histórica que atravessa a identidade dos Estados Unidos e que, mais uma vez, se escancara diante do mundo. O país que se autoproclama guardião da liberdade e da democracia segue sendo, também, um dos maiores promotores de intervenções militares, invasões e desestabilizações em nome desses mesmos valores. A retórica é nobre, mas a prática, desmente essa lógica.

O recente episódio envolvendo Trump e o conflito com o Irã expõe essa incoerência com clareza quase didática. Sob o argumento de defesa e combate a “tiranias”, assistimos a uma escalada agressiva que, no fim, não entregou aquilo que prometia. Nem vitória, nem estabilidade, nem liderança moral. O resultado concreto é outro. Um cessar-fogo que revela limites, um adversário ainda de pé e uma superpotência que sai menor do que entrou. Bem menor, por sinal.

E há um agravante que não pode ser ignorado. Os Estados Unidos não entraram nesse cenário apenas por cálculo estratégico abstrato, mas também para sustentar os interesses de um aliado cada vez mais questionado no cenário internacional. O governo de Benjamin Netanyahu. Ao se alinhar de forma quase incondicional a ações duramente criticadas contra o povo palestino, Washington não apenas reforça sua imagem de seletividade moral, como se associa diretamente a práticas que contradizem o próprio discurso que diz defender. A defesa da “democracia” torna-se, assim, um argumento conveniente, aplicado ou ignorado conforme o interesse geopolítico do momento.

A realidade impôs um freio à lógica simplista da “paz pela força”. Ficou evidente que poder militar, por mais vasto que seja, não resolve tudo. A geopolítica não se dobra apenas à força de bombas, especialmente quando enfrenta atores dispostos a resistir a qualquer custo. O controle estratégico do Estreito de Ormuz pelo Irã, por exemplo, demonstrou que há variáveis que nem o maior orçamento militar do planeta consegue neutralizar.

Mas talvez o dano mais profundo seja outro. O desgaste da credibilidade. Aliados tradicionais passaram a questionar não apenas decisões pontuais, mas o próprio valor da parceria com os EUA. A confiança, elemento central da liderança global, foi corroída por ameaças não cumpridas, discursos extremos e uma condução errática. Quando até setores conservadores começam a duvidar da coerência moral de um presidente, algo está claramente fora do lugar.

Esse episódio não é um ponto fora da curva. Ele é, na verdade, mais um capítulo de uma longa história em que os Estados Unidos oscilam entre o discurso de defensores da ordem internacional e a prática de agentes de instabilidade. A diferença agora é que o mundo mudou. Há mais atores, mais resistências, mais limites e menos disposição para aceitar, sem questionamento, a autoridade autoproclamada de uma potência.  Ou no caso, ex-potência.

No fim das contas, a pergunta que fica é inevitável. Que tipo de liderança global pode emergir de um país que insiste em resolver conflitos complexos com respostas simplistas e violentas? E mais. Até quando o discurso da liberdade continuará sendo utilizado como justificativa para práticas que, na essência, a negam?

Talvez estejamos assistindo não apenas a um revés pontual, mas a um sintoma de algo maior. O desgaste de um modelo de poder que já não se sustenta como antes. E, diante disso, o mundo começa, ainda que lentamente, a buscar outros caminhos.

Como bem sintetizou Jamil Chade, ao observar o impacto interno desse cenário: “O que as pesquisas revelam é que alguns daqueles indivíduos que usavam os bonés (Make America Great Again) já se deram conta de que foram feitos de trouxas. Bonés que, por sinal, são ‘Made in China’.”


BETs - quando a aposta deixa de ser diversão e começa a comer a renda das famílias

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