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| Imagem ICL Notícias |
A extrema-direita brasileira começa a viver um problema que sempre tentou esconder atrás do marketing agressivo, dos vídeos inflamados e do patriotismo performático. A ausência completa de projeto político real para o país. E talvez nenhum símbolo disso seja mais evidente do que a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas presidenciais e o constrangimento cada vez maior produzido pelos movimentos da própria família Bolsonaro.
Enquanto o presidente Lula governa, articula
internacionalmente, entrega obras, recompõe políticas públicas e tenta
reorganizar um país devastado pelo negacionismo e pelo caos administrativo, o
bolsonarismo parece preso numa mistura de ressentimento, escândalo e
autopromoção caricata. O episódio envolvendo recursos ligados ao banqueiro Vorcaro,
associados à tentativa de produção de um filme político sobre Bolsonaro,
escancarou algo constrangedor. A
transformação definitiva da política bolsonarista numa indústria familiar de
vitimização e propaganda.
E talvez nada represente melhor esse ridículo do
que a ideia de produzir um filme em inglês para falar de patriotismo
brasileiro. É quase uma metáfora perfeita da lógica vira-lata do bolsonarismo.
Passaram anos berrando “Brasil acima de tudo”, enrolados em bandeiras
nacionais, enquanto sonhavam, no fundo, com aplausos vindos de Miami, da
Flórida ou dos círculos mais radicais da direita internacional. Não é
nacionalismo. É dependência cultural fantasiada de conservadorismo tropical.
A própria trajetória de Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos reforça isso. Um parlamentar brasileiro que prefere atuar como
influencer político internacional contra o próprio país enquanto alimenta
narrativas de perseguição para consumo externo. Um patriotismo tão frágil que
precisa ser legendado em inglês para existir.
E agora, diante do desgaste crescente de Flávio,
surge de maneira cada vez mais organizada a figura de Michelle Bolsonaro. Não
como uma liderança política construída no debate público, na formulação de
ideias ou na experiência administrativa, mas como produto cuidadosamente
embalado para manter viva a marca eleitoral bolsonarista. Uma candidatura que
avança sorrateiramente, protegida pela estética religiosa, pela linguagem
emocional e pela blindagem construída em setores conservadores.
O presidente do PL sabe disso. Sabe que o
sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza uma parcela importante do eleitorado
radicalizado, mas também percebe que Flávio Bolsonaro, agora carrega rejeição
elevada, problemas judiciais e enorme desgaste político. Michelle aparece,
então, como uma alternativa menos agressiva na aparência, embora profundamente
vinculada ao mesmo projeto autoritário, moralista e antipopular.
A estratégia é evidente, ou seja, trocar o grito
pela doçura ensaiada, substituir a brutalidade explícita por um discurso
emocional cuidadosamente moldado para as redes sociais e para setores
religiosos. Mas o conteúdo permanece o mesmo. Continua ali o ataque às
minorias, o negacionismo social, a submissão ao mercado financeiro, o moralismo
seletivo e a exploração política da fé. E claro, toda a história de desvios,
encobertas de malfeitos e outras questões nunca explicadas devidamente ao
eleitorado da direita.
No fundo, o bolsonarismo tenta sobreviver mudando
a embalagem sem alterar o produto.
E talvez seja justamente isso que faça, a partir de agora, parte do Brasil enxergar.














