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| Imagem - Agência GOV BR |
Há uma
mentira confortável sendo vendida aos brasileiros, a saber, de que as bets são
apenas uma forma moderna de entretenimento, uma diversão inofensiva para quem
quer arriscar alguns reais.
Não são. O
tamanho que esse mercado alcançou e principalmente, a forma como ele passou a
disputar o dinheiro das famílias brasileiras transformaram as apostas online em
um problema econômico e social que o país não pode mais tratar como simples
questão de gosto individual.
Os números
são impressionantes. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de
Fazenda (Comsefaz), com base em informações do Banco Central, mostram que as
bets movimentaram cerca de R$ 351 bilhões em transferências via Pix no
período analisado, enquanto as perdas líquidas das famílias chegaram a R$
62,5 bilhões. Isso significa dinheiro que entrou nas plataformas e não
voltou para os apostadores na forma de prêmios. O valor equivale a cerca de 68
milhões de cestas básicas paulistas, tomando como referência os R$ 915,01
registrados pelo DIEESE em julho de 2026.
E aqui está
uma questão que deveria provocar indignação. R$ 62,5 bilhões não são
dinheiro que apareceu do nada. São recursos que saíram do orçamento de pessoas
e famílias. Dinheiro que poderia estar pagando uma conta, comprando
alimentos, quitando uma dívida, comprando uma roupa, fazendo uma pequena
reforma, pagando uma escola, frequentando um restaurante ou simplesmente
ficando guardado para enfrentar uma emergência.
O Banco
Central já havia identificado o problema antes mesmo de termos a dimensão atual
do fenômeno. Em agosto de 2024, estimou cerca de R$ 20,8 bilhões em
transferências mensais para empresas de apostas e calculou que
aproximadamente 15% do valor apostado ficava retido pelas plataformas. Mais
preocupante ainda é que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a
famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets naquele
mês, sendo que 4 milhões eram chefes de família. O próprio Banco Central
advertiu que as famílias de baixa renda estavam entre as mais prejudicadas e
que o fenômeno merecia atenção por seus efeitos sobre o bem-estar financeiro e
a economia.
Não estamos,
portanto, falando apenas de pessoas com dinheiro sobrando procurando diversão.
Estamos falando de uma indústria que descobriu uma maneira extremamente
eficiente de alcançar justamente quem tem menos margem financeira.
Uma pesquisa
do Procon-SP, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, encontrou
outro dado assustador. 39,7% dos apostadores pesquisados disseram ter se
endividado depois de começar a apostar. E uma pesquisa nacional do CNDL/SPC
Brasil mostrou que, entre os apostadores, 19% admitiram ter comprometido a
própria renda, 17% deixaram de pagar alguma conta para jogar e 29% já tiveram o
nome negativado por causa das apostas.
O problema
não termina no bolso do apostador. Ele chega ao comércio.
Um estudo da
Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou que, entre janeiro de 2023 e
março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou aproximadamente R$
143 bilhões do comércio varejista, cerca de 2,5% do faturamento do setor no
período. A entidade estima ainda que os gastos com apostas passaram de R$ 30
bilhões por mês e contribuíram para o agravamento da inadimplência. É
importante registrar que o setor de apostas contestou a metodologia da CNC e
afirmou que o endividamento brasileiro tem múltiplas causas, como juros
elevados e custo do crédito. A contestação deve ser considerada, mas ela não
apaga os demais dados que mostram a transferência de renda das famílias para as
plataformas.
E é
justamente aí que precisamos discutir as bets também como um problema
macroeconômico.
Quando uma
família compra comida, paga uma prestação, contrata um serviço ou compra um
produto no comércio local, aquele dinheiro continua circulando. Remunera trabalhadores, paga fornecedores,
gera impostos e volta para a economia. Quando parte desse dinheiro é perdida em
uma aposta, a família não recebe um produto ou serviço equivalente em troca. E
quando a perda é grande, ela ainda pode precisar recorrer a crédito para pagar
aquilo que antes seria pago com a própria renda.
Isso cria um
efeito perverso. A pessoa aposta
porque precisa melhorar sua renda. Perde
dinheiro e reduz o consumo. Endivida-se
e depois precisa trabalhar mais ou tomar crédito para recompor aquilo que
perdeu.
É uma
máquina de transformar esperança em dívida.
Também
precisamos tomar cuidado com a forma como interpretamos os indicadores
econômicos. Não é correto afirmar que as bets simplesmente "maquiam"
o PIB ou que todo dinheiro apostado representa crescimento econômico. Nas
contas nacionais, não se contabiliza o valor bruto apostado como se fosse
produção. Mas existe, sim, um problema de interpretação quando olhamos apenas
para determinados indicadores de atividade e ignoramos para onde está indo a
renda das famílias e qual é a qualidade desse consumo.
Uma economia
pode registrar emprego, renda e circulação financeira enquanto milhões de
pessoas estão comprometendo sua renda com apostas. Pode haver dinheiro
circulando e ao mesmo tempo, famílias reduzindo a compra de alimentos, roupas,
serviços e bens duráveis. Pode haver crescimento nominal da atividade sem que
isso signifique melhora proporcional do bem-estar.
É preciso
olhar não apenas quanto dinheiro circula, mas o que esse dinheiro está
financiando.
E há uma
diferença fundamental entre uma economia que cresce porque as famílias
consomem, as empresas investem e os trabalhadores recebem melhores salários e
uma economia em que uma parcela crescente da renda disponível é capturada por
um mercado cuja lógica matemática é fazer com que, no conjunto, o apostador
perca.
As bets
podem até gerar impostos e empregos. Será? Mas isso não transforma um modelo
baseado na perda financeira de milhões de consumidores em uma política de
desenvolvimento. O governo já precisou proibir crédito para apostas, bônus de
entrada e cartão de crédito justamente para tentar conter o endividamento.
Também criou mecanismos de autoexclusão para impedir que pessoas bloqueadas
continuem apostando.
Isso
demonstra que até o Estado reconhece que não estamos diante de um mercado
qualquer.
Precisamos
parar de aceitar a propaganda que apresenta a aposta como investimento, renda
extra ou caminho para mudar de vida. Aposta não é investimento. Aposta não é
renda. E para a imensa maioria, não é caminho para enriquecimento.
É um jogo em
que a plataforma conhece as probabilidades antes de você jogar.
Por isso, a
discussão brasileira não deveria ser simplesmente se somos "a favor"
ou "contra" quem aposta. Precisamos perguntar algo muito maior. Quanto
de renda das famílias brasileiras estamos dispostos a permitir que seja drenado
por uma indústria que cresce justamente sobre a esperança de quem precisa de
dinheiro?
“Quando a aposta começa a disputar espaço com a
comida, com a conta de luz, com o aluguel, com a prestação e com a cesta
básica, ela deixou de ser entretenimento.
Virou um
problema econômico, social e de saúde pública.
E diante de
um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais, endivida milhões de
brasileiros e retira recursos do consumo cotidiano, não basta dizer ao cidadão:
"jogue com responsabilidade".
É hora de
dizer às bets que lucro não pode valer mais do que a proteção das famílias
brasileiras.















