| Jovens na Fila dos Cartórios - 1º título eleitoral Imagem - Agência Nacional |
Existe algo de profundamente inquietante no nosso tempo. Uma parcela da juventude brasileira, que deveria representar rebeldia contra injustiças, defesa de direitos e abertura ao novo, parece caminhar na direção oposta. Abraça discursos autoritários, veste símbolos da extrema-direita e em muitos casos, transforma a intolerância em identidade política.
A pergunta que surge é inevitável: o
que está acontecendo?
Talvez estejamos diante de uma juventude sem
memória histórica. Jovens que não viveram os anos duros da ditadura militar
brasileira e que, por isso, não conseguem dimensionar o peso da censura, da
tortura, da perseguição política e da ausência de liberdade. Da mesma forma,
muitos desconhecem as consequências sociais da hiperinflação do governo Sarney,
do confisco da poupança promovido por Fernando Collor de Mello ou dos desmontes
trabalhistas e previdenciários ocorridos durante o governo Michel Temer.
Sem essa memória, parte da juventude passa a
enxergar a política apenas pela superfície das redes sociais, dos cortes
rápidos, dos memes e da estética do confronto. E isso é decisivo. A
extrema-direita compreendeu antes de muitos setores progressistas que, no mundo
digital, emoção mobiliza mais do que argumento. Raiva, medo, sensação de
pertencimento e discurso simplificado têm enorme poder de sedução,
principalmente em tempos de insegurança econômica, ansiedade social e crise de
perspectivas.
Há também um elemento psicológico importante. Muitos jovens cresceram em um ambiente de
hipercompetição, individualismo e frustração. Encontram dificuldade de inserção
econômica, convivem com trabalhos precarizados e vivem sob constante pressão
por desempenho e reconhecimento. Nesse contexto, discursos autoritários
oferecem algo sedutor. Respostas fáceis
para problemas complexos e a falsa sensação de força e identidade.
Isso não significa que toda juventude
conservadora seja “descerebrada”, como muitas vezes a indignação nos leva a
afirmar. Seria um erro repetir a mesma lógica de desumanização que criticamos.
O desafio talvez seja outro. Compreender
como uma geração conectada a tudo pode, paradoxalmente, estar desconectada da
própria história.
Também existe uma falha das forças democráticas
e progressistas. Durante muito tempo, acreditou-se que avanços sociais falariam
por si mesmos. Mas direitos sem memória política se tornam frágeis. Quando a
história deixa de ser ensinada de maneira viva, emocional e concreta, ela passa
a parecer distante, abstrata e irrelevante para quem não a viveu.
O resultado é uma juventude que, em alguns
casos, envelhece antes do tempo. Não biologicamente, mas moral e politicamente.
Jovens que deveriam sonhar com mais liberdade acabam defendendo controle. Que
deveriam ampliar direitos acabam relativizando desigualdades. Que deveriam combater opressões acabam
reproduzindo intolerância.
Ainda assim, seria injusto transformar essa
reflexão numa condenação definitiva da juventude. Há milhares de jovens
organizados em movimentos sociais, universidades, coletivos culturais e lutas
populares. A disputa está em aberto. E talvez a saída não esteja em desprezar
ou ridicularizar quem pensa diferente, mas em reconstruir pontes de diálogo,
memória e consciência crítica.
Porque nenhuma geração nasce pronta. Toda
juventude é, antes de tudo, um território em disputa.












