segunda-feira, 2 de novembro de 2026

FINADOS - Onde termina o túmulo e começa a eternidade?

 

Frase na Lápide de meu pai:
Carlos Alberto Gomes
Falecido em 12/12/2022

Todos os anos, no dia 2 de novembro, milhares de pessoas se dirigem aos cemitérios para visitar os túmulos de seus entes queridos. Levam flores, limpam lápides, acendem velas, fazem orações e diante da pedra que guarda os restos mortais daqueles que amaram, procuram reencontrar, ainda que por alguns instantes, a presença de quem já não está fisicamente entre elas.

É uma tradição antiga, carregada de significados, saudade e humanidade. Não há nada de errado em homenagear aqueles que partiram. A questão que merece nossa reflexão é outra.  Precisamos estar diante de um túmulo para demonstrar amor a quem morreu? Os Espíritos realmente retornam aos cemitérios para receber nossas homenagens? E sobretudo, o que a Doutrina Espírita nos ensina sobre a relação entre os vivos e os chamados mortos?

Allan Kardec, ao organizar os ensinamentos que constituem a base do Espiritismo, dedicou parte de O Livro dos Espíritos justamente a essas questões. E as respostas que encontramos nessa obra nos convidam a olhar para a morte de uma maneira menos material e mais espiritual.

Na questão 321, Kardec pergunta se o dia da comemoração dos mortos possui algum significado especial para os Espíritos e se eles se preparam para encontrar aqueles que vão orar sobre seus túmulos. A resposta esclarece que os Espíritos atendem ao chamado do pensamento tanto nesse dia quanto nos demais.

A explicação é importante. Segundo os ensinamentos apresentados na obra, o que estabelece a possibilidade desse contato não é a data no calendário, nem a localização dos restos mortais, mas o pensamento e os laços afetivos que permanecem entre aqueles que partiram e aqueles que continuam encarnados.

É na questão 323, porém, que encontramos uma das reflexões mais esclarecedoras sobre o assunto. Kardec pergunta se a visita ao túmulo proporciona maior satisfação ao Espírito do que uma prece feita em casa.

A resposta ensina que a visita é uma manifestação exterior da lembrança e que a prece é o que dá sentido espiritual ao ato de recordar. Em outras palavras, não é o lugar que determina a sinceridade do sentimento. É o coração.

Essa compreensão muda a perspectiva pela qual podemos enxergar o Dia de Finados.

O túmulo guarda os restos de um corpo que teve sua história, seus afetos, suas alegrias e suas dores. Mas, para o Espiritismo, o ser humano não se resume à matéria. A morte física representa o término de uma etapa da existência corporal, não a extinção do Espírito.

Se aceitamos essa premissa fundamental da doutrina kardecista, precisamos reconhecer que a relação com aqueles que partiram não pode ficar limitada ao espaço físico em que seus corpos foram sepultados.

O pai que perdemos não está reduzido à lápide que leva seu nome. A mãe que partiu não se resume às flores depositadas sobre seu túmulo. Os amigos que se foram não deixam de fazer parte de nossa história porque já não podemos conversar com eles como antes.

Seus ensinamentos permanecem em nossas escolhas. Seus exemplos continuam presentes em nossas atitudes. O amor que nos ofereceram pode sobreviver em nós e se multiplicar nas relações que construímos com outras pessoas.

A verdadeira memória não está na pedra que identifica o túmulo, mas naquilo que o amor transformou dentro de nós.

Isso significa que devemos abandonar os cemitérios? Evidentemente, não.

A visita pode ser uma experiência legítima de recolhimento, gratidão e elaboração da saudade. Para muitas pessoas, cuidar de um túmulo é uma maneira de expressar carinho, preservar a memória familiar e encontrar serenidade diante da ausência. Há quem precise desse gesto simbólico para organizar os próprios sentimentos e esse processo merece respeito.

O problema começa quando transformamos uma expressão de afeto em uma obrigação espiritual, como se a presença física no cemitério fosse indispensável para que os nossos pensamentos alcançassem aqueles que partiram.

A própria resposta de O Livro dos Espíritos à questão 323 afasta essa interpretação. Se a prece sincera pode ser realizada em qualquer lugar, não há fundamento, nessa passagem, para considerar a visita ao túmulo uma condição necessária para a comunicação espiritual ou para a demonstração de amor.

Podemos orar em casa, em silêncio, durante uma caminhada ou diante de uma paisagem que nos recorde alguém especial. Podemos recordar nossos familiares enquanto ouvimos uma música de que gostavam, revisitamos uma fotografia ou repetimos um ensinamento que nos deixaram.

O amor não depende de coordenadas geográficas.

Também não depende de uma data específica. O Dia de Finados pode nos oferecer uma oportunidade coletiva de reflexão, mas a gratidão, a saudade e a oração não precisam obedecer ao calendário. Aqueles que amamos merecem ser lembrados durante todo o ano, não apenas quando a tradição nos convida a visitar os cemitérios.

Existe, ainda, outra reflexão que considero indispensável.  A diferença entre homenagear os mortos e cuidar dos vivos.

De que vale depositar flores sobre o túmulo de alguém que amamos se, enquanto estava vivo, lhe negamos atenção, respeito e carinho? Que sentido existe em fazer grandes homenagens póstumas quando deixamos de oferecer uma palavra de conforto a quem sofre ao nosso lado?

Não se trata de julgar os sentimentos de ninguém, muito menos de desmerecer a tradição de Finados. Trata-se de reconhecer que o amor encontra sua expressão mais concreta nas atitudes.

Se queremos honrar a memória de nossos pais, podemos tratar os idosos com dignidade. Se desejamos homenagear alguém que dedicou a vida à família, podemos cuidar melhor dos nossos familiares. Se sentimos saudade de uma pessoa generosa, podemos continuar sua obra de generosidade. Se perdemos alguém que acreditava na solidariedade, podemos transformar essa lembrança em auxílio a quem precisa.

A caridade, a fraternidade e o amor ao próximo ocupam um lugar central na ética espírita. Por isso é legítimo perguntar se a melhor homenagem àqueles que partiram não seria, também, tornar um pouco melhor a vida daqueles que permanecem.

Uma cesta de alimentos entregue a uma família necessitada, uma visita a alguém solitário, o acolhimento de uma pessoa enlutada ou a defesa da dignidade de quem sofre não substituem necessariamente a oração ou a visita ao cemitério. São, contudo, maneiras concretas de transformar o amor em ação.

E talvez seja justamente aí que a lembrança adquire uma dimensão ainda mais profunda.  Quando deixa de ser apenas saudade e se converte em compromisso com a vida.

Isso não significa que todo gesto simbólico seja vazio ou que cuidar de um túmulo seja menos digno do que ajudar uma pessoa necessitada. Significa apenas que não devemos confundir a manifestação exterior do sentimento com sua essência. Flores podem expressar amor verdadeiro, assim como uma oração silenciosa. O essencial é que os gestos não se tornem substitutos da fraternidade que podemos praticar todos os dias.

Há, ainda, um aspecto delicado nessa discussão: o luto.

Cada pessoa enfrenta a perda de maneira diferente. Algumas encontram conforto na religião, outras, nas lembranças, na convivência com a família ou no silêncio. Algumas precisam visitar o cemitério, outras preferem preservar a memória em casa, sem se aproximar fisicamente do lugar do sepultamento.

Não existe razão para transformar essas diferenças em uma disputa sobre quem ama mais ou quem possui maior compreensão espiritual.

O respeito à dor alheia também é uma forma de caridade.

A Doutrina Espírita oferece uma perspectiva de continuidade da existência e de esperança diante da morte. Mas essa esperança não deve ser utilizada para exigir que alguém supere rapidamente a saudade, nem para impor um ritual como se ele fosse obrigatório. A compreensão espiritual pode iluminar o caminho do luto, mas não precisa negar a legitimidade da dor humana.

Talvez o maior ensinamento do Dia de Finados seja justamente este, a saber, que precisamos aprender a amar sem aprisionar o amor à matéria, à forma ou ao ritual.

Os corpos retornam aos elementos da natureza. Os túmulos permanecem como testemunhos da passagem humana pela Terra. As flores murcham, as lápides envelhecem e as gerações se sucedem. Mas as consequências do amor que oferecemos podem continuar presentes na vida de muitas pessoas.

Se os ensinamentos espíritas nos convidam a compreender a existência para além da matéria, que essa compreensão também nos ajude a viver melhor o tempo que temos aqui.

Que possamos visitar os cemitérios quando isso fizer sentido para nós, cuidar dos túmulos daqueles que amamos, preservar as histórias de nossas famílias e cultivar a saudade sem culpa. Mas que jamais imaginemos que o amor dependa de uma sepultura para existir ou que a espiritualidade esteja restrita a um ritual.

A melhor homenagem aos que partiram talvez seja viver de modo que os valores que nos ensinaram continuem produzindo frutos.

E se a saudade nos levar a um cemitério, que levemos conosco a gratidão, não a obrigação. Se nos conduzir a uma prece em casa, que ela seja feita com sinceridade. Se nos inspirar a ajudar alguém, que não falte disposição para transformar o sentimento em gesto.

Porque, à luz da reflexão espírita, a questão não é apenas onde depositamos flores, mas o que fazemos florescer dentro de nós.

A morte pode encerrar uma presença física, mas não precisa encerrar o amor. E talvez a maneira mais bonita de honrar quem partiu seja continuar espalhando, entre os vivos, aquilo que de melhor essa pessoa deixou em nós.

Uma observação doutrinária importante

Kardec não afirma que os Espíritos jamais comparecem aos cemitérios, mas afirma que a visita física não é indispensável e que o pensamento e a prece não dependem do lugar.

Na questão 321, a obra admite, dentro de sua concepção da vida espiritual, que mais Espíritos podem se reunir nas necrópoles em Finados, porque também aumenta o número de pessoas que os evocam pelo pensamento. Portanto, seria impreciso dizer que a visitação dos Espíritos aos cemitérios é inteiramente uma invenção da tradição. A formulação mais fiel à obra é que essa visitação não constitui uma obrigação e que o cemitério não possui exclusividade espiritual.

Há também uma distinção importante entre a crença espírita na sobrevivência do Espírito e a possibilidade de comprovar objetivamente que um Espírito específico esteve presente em determinado cemitério. A obra apresenta respostas atribuídas aos Espíritos no contexto da doutrina o que não equivale a uma comprovação científica independente desses acontecimentos.

A luta continua

 

A democracia brasileira venceu mais uma batalha.

A vitória de Lula representa muito mais do que a vitória de um candidato ou partido. Reafirma a esperança, a justiça social e a resistência de um povo que se recusou a entregar o futuro do país à intolerância, ao autoritarismo e ao ódio.

O Brasil escolheu a democracia e essa conquista precisa ser celebrada, compreendida e protegida.

A derrota de Flávio encerra uma disputa marcada por profundas diferenças sobre o país que queremos. De um lado, a defesa do Estado como instrumento de redução das desigualdades, proteção dos trabalhadores, valorização da educação e promoção de oportunidades.

De outro, um projeto que, em nossa avaliação, representa a continuidade de práticas autoritárias, da polarização e da transformação de adversários em inimigos.

A democracia pressupõe divergência, mas não pode se submeter à intolerância.

Após a derrota, Flávio saiu da cena e ao fugir, deixa pra trás eleitores e aliados que defenderam sua candidatura.

Ora, quem mobiliza multidões precisa assumir a responsabilidade pelas suas escolhas. Que liderança frouxa é essa?

Entretanto, críticas políticas não substituem julgamentos jurídicos.
  Ninguém pode estar acima da lei.

A própria trajet
ória de Lula oferece uma reflexão incontornável.

Ap
ós condenações posteriormente anuladas, por incompetência da Justiça Federal de Curitiba e pelo reconhecimento da parcialidade do então juiz Moro, Lula recuperou seus direitos políticos, voltou a disputar eleições e conquistou por duas vezes a Presidência.

Sua hist
ória é exemplo de liderança.  Jamais abandonou seus apoiadores à própria sorte.

Para n
ós, em Rio Preto, sua atual vitória tem significado especial. Como presidente do PT municipal, agradeço profundamente à população, que ampliou expressivamente a votação de Lula do 1º para o 2º turno.

Cada voto conquistado, cada eleitor que compareceu
às urnas, cada pessoa que reconsiderou sua escolha e cada cidadão que compreendeu a importância daquele momento contribuíram para esse resultado inquestionável sob todos os aspectos.

Agrade
ço especialmente a quem, após ouvir nossos argumentos e refletir sobre os caminhos do país, escolheu Lula e a todos que, mesmo diante de divergências, compreenderam a importância de decidir o futuro do Brasil. 

Agrade
ço à militância do PT, aos partidos aliados, movimentos sociais, coletivos, estudantes, voluntários, comunicadores e a todos que contribuíram para essa caminhada.

Em uma cidade onde enfrentamos consider
áveis desafios políticos, essa conquista revela que há uma parcela importante do povo disposta a ouvir, refletir e participar de um projeto comprometido com a democracia e a redução das desigualdades.

Mas seria um erro acreditar que a vitória nas urnas encerra nossa responsabilidade.

As forças políticas, econômicas e ideológicas contrárias às transformações sociais não desaparecem com uma eleição.

O autoritarismo precisa ser enfrentado permanentemente com organização popular, consciência política, participação cidadã e compromisso com as liberdades democráticas.

Lula terá desafios imensos. Disputas no Congresso, pressões econômicas e políticas e a necessidade de construir maiorias sem abrir mão dos princípios fundamentais.

Alguma coisa já se faz presente com a série de fake News sobre o fim da escala 5 x 2, recém aprovada, por exemplo, ou mesmo o aumento do ICMS, imposto estadual que visa aumentar os combustíveis como reação dos governadores contrários que querem jogar sobre Lula a pecha de traidor do povo. Temos que permanecer vigilantes e ligados “na tomada” para desnudar esses farsantes.

Será preciso defender políticas públicas para trabalhadores, população mais pobre, minorias, além de preservar a soberania nacional diante das pressões externas, especialmente dos Estados Unidos.
  E isso ele só conseguirá com nosso apoio irrestrito.

A vit
ória foi conquistada nas urnas. Agora, nossa tarefa é defendê-la todos os dias nas redes e nas ruas. 


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Abstenção. O desafio para Lula no 2o turno.






Ney Sarni

Advogado 
Corretor de Seguros




Dificilmente eu coloco minhas opiniões políticas em voga, mas neste cenário atual vou arriscar a fazê-lo. 

Ter gente ruim, perversa, preconceituosa, homofobia, xenofóbica e que se alinha com os feitos e dizeres que a extrema direita impõe é um movimento mundial. Vide Europa efervescendo...

Isso não fez Flávio ir para o segundo turno em primeiro lugar.  Quem vota nele foi lá e votou.

A grande questão é a abstenção de 33 milhões de brasileiros que optaram em não dizer SIM pro Lula ou qualquer outro candidato e automaticamente não disse NÃO à essa corja de canalhas.

O brasileiro, dizem, é um povo manso. Que nada. É um povo omisso - alguns até submisso - que opta em colocar a culpa em alguém depois que tomou as decisões que ele absteve-se no momento oportuno.

Nosso trabalho é de chamamento à esses 33 milhões de pessoas que poderão reverter esse quadro sinistro e irreversível caso essa quadrilha tome o Executivo, pois, se assim ocorrer, a indicação de mais 4 ministros do STF que deve ocorrer nos próximos 4 anos dará um alinhamento jamais antes visto com um executivo,  judiciário e legislativo com a mesma ideologia de governo e vida.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

As urnas dizem pro PT: A extrema direita disputa o sentimento. A esquerda precisa voltar a disputar a esperança.

 

Imagem - UOL
Se o resultado das urnas colocou Flávio Bolsonaro em primeiro lugar, a primeira reação de qualquer militante do PT não deveria ser a negação. Deveria ser a pergunta: o que estamos deixando de enxergar?

É evidente que, a partir de agora, bolsonaristas de todos os cantos voltarão a aparecer, revitalizados pela possibilidade concreta de derrotar Lula. Mas seria um erro atribuir esse resultado apenas à força das redes, ao dinheiro, à máquina política ou à radicalização do adversário. Tudo isso pode ter peso. Precisamos, inclusive, exigir transparência absoluta sobre eventuais impulsionamentos, financiamento estrangeiro, desinformação e qualquer conduta eleitoral irregular, deixando que as instituições investiguem e apresentem provas. Mas existe uma pergunta anterior, mais incômoda e muito mais importante.  Por que uma parcela tão significativa do povo ainda encontra na extrema direita uma resposta emocional para suas angústias?

Talvez esteja na hora de admitirmos que a extrema direita compreendeu uma coisa que a esquerda, em determinados momentos, esqueceu.  A eleição não se ganha apenas com indicadores econômicos, obras, programas sociais ou argumentos racionalmente corretos. Política também é sentimento. É pertencimento. É identidade. É esperança. É medo. É indignação.

O bolsonarismo aprendeu a falar diretamente com o fígado do eleitor. Explora ressentimentos, inseguranças, medos e preconceitos, muitas vezes de maneira irresponsável e criminosa. Mas consegue transformar problemas complexos em narrativas simples.  Alguém é culpado, alguém está ameaçando você, alguém precisa ser combatido. Enquanto isso, nós frequentemente respondemos com números, realizações administrativas e uma linguagem que, embora correta, nem sempre alcança o coração de quem está ouvindo.

Não estou dizendo que o PT deva abandonar suas convicções. Estou dizendo exatamente o contrário.  Precisamos reaprender a explicar por que elas melhoram concretamente a vida das pessoas.

O trabalhador quer emprego e salário digno. A mãe quer saber se haverá médico quando seu filho adoecer. O jovem quer oportunidade, universidade, profissão e perspectiva. O aposentado quer tranquilidade. A família quer comida na mesa e segurança para sair de casa. O pequeno empreendedor quer crédito, mercado e condições para sobreviver. O cidadão quer pagar seus impostos sabendo que o dinheiro retorna em serviços públicos.

É nessa vida concreta que precisamos reencontrar nossa política. E isso exige uma autocrítica que não pode ser adiada.

O PT precisa olhar para dentro de si e perguntar se conseguiu politizar suas bases, formar novos militantes, ouvir suas periferias e construir um projeto coletivo capaz de ir além dos interesses eleitorais individuais. Não podemos permitir que o partido seja percebido como uma soma de feudos parlamentares, cada qual cuidando de seu território, enquanto a sociedade muda diante dos nossos olhos.

Partido político não pode existir apenas durante a eleição.

Precisamos voltar às comunidades, aos sindicatos, às universidades, às escolas, aos bairros, às associações, às igrejas, aos pequenos negócios e aos locais de trabalho. Precisamos ouvir antes de falar. Precisamos compreender antes de tentar convencer.

Também precisamos ter coragem para discutir nossas próprias pautas. Não para abandonar direitos, mas para explicar suas razões e dialogar com quem pensa diferente. Uma esquerda que não consegue conversar com quem discorda dela entrega milhões de brasileiros ao discurso simplista da extrema direita.

O eleitor não precisa concordar conosco em tudo. Ele precisa voltar a acreditar que estamos falando com ele e não apenas sobre ele.

Há ainda outra questão que não pode ser ignorada.  O ambiente eleitoral precisa ser absolutamente democrático, transparente e equilibrado. Se houver indícios de uso irregular de recursos, interferência estrangeira, impulsionamento clandestino, abuso econômico ou qualquer outra ilegalidade, cabe às autoridades investigar com independência e rigor. Não podemos combater a desinformação utilizando outra forma de desinformação. Democracia exige verdade, inclusive quando a verdade nos incomoda.

O resultado desta eleição, portanto, não deveria produzir apenas indignação. Deveria produzir reflexão.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja “como Flávio chegou ao primeiro lugar?”.

Talvez seja mais adequado perguntar:

“O que precisamos fazer para que o povo volte a enxergar no PT não apenas um partido que governa, mas uma força política que compreende suas dores, compartilha seus sonhos e oferece um caminho para o futuro?”

A resposta não virá de uma reunião de dirigentes. Não virá de uma campanha publicitária. Não virá apenas de Brasília. Ela precisa nascer novamente na base.

Precisamos recuperar a capacidade de conversar com o povo sobre aquilo que realmente mexe com sua vida. Precisamos oferecer esperança sem vender ilusões, firmeza sem ódio, identidade sem intolerância e um projeto de país que faça as pessoas sentirem que vale a pena lutar por ele.

A extrema direita está voltando a acreditar que pode vencer.

Que isso sirva para nós não como motivo de desespero, mas como um chamado à realidade.

Se queremos reconstruir a esperança popular, primeiro precisamos reaprender a escutar o povo. A grande questão é se em menos de 20 dias, vamos conseguir.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O projeto progressista sob ameaça

 

Há uma disputa eleitoral acontecendo nas ruas, nos debates, na televisão e nas pesquisas. Mas existe outra disputa, silenciosa, implacável e permanente, acontecendo dentro dos celulares de cada brasileiro.

Essa é sem dúvida, uma das maiores mudanças na maneira de fazer política. E aqui reside um risco terrível que o campo progressista e popular, mesmo estando mobilizado nas ruas, cheio de pessoas bem-intencionadas e portadoras de bandeiras legítimas, muitas vezes não está enxergando com a devida urgência.

Na rua, conseguimos conversar com dezenas, centenas ou, em um grande ato, milhares de pessoas. Nas redes, uma mensagem pode entrar simultaneamente na casa, no trabalho, na faculdade e no momento de descanso de milhões.

O celular acompanha as pessoas o dia inteiro. Está na mão, no bolso, sobre a mesa e ao lado da cama. A disputa política passou a seguir o eleitor onde quer que ele esteja.

As redes sociais aprendem com o que fazemos.  O que curtimos, compartilhamos, comentamos e assistimos até o fim. Os algoritmos utilizam esses sinais para nos entregar mais do mesmo, criando uma sensação enganosa de realidade.

Se todos os vídeos na nossa tela dizem que o nosso candidato está disparado ou que o adversário é a ruína do país, podemos acreditar que o Brasil inteiro pensa assim. Mas a nossa timeline não é o país é apenas uma janela personalizada.

Informações falsas são produzidas cirurgicamente para provocar indignação e medo, ou apatia e sensação de “já ganhou” gerando engajamento rápido. Antes de compartilhar algo só porque confirma o que gostaríamos que fosse verdade, precisamos nos perguntar: “Eu estou divulgando porque é um fato ou porque é conveniente pro meu modo de pensar?”

O grande perigo atual é o descompasso estratégico. Enquanto a militância de esquerda faz o trabalho árduo e fundamental nas ruas, o campo conservador e de extrema-direita tem dominado a engenharia de distribuição de conteúdo nas telas com métodos industriais de desinformação.

Se a esquerda gasta suas horas de internet apenas replicando conteúdos para quem já vota nela, ela está pregando para convertidos. É isso o que fazemos quando compartilhamos só coisas sobre nosso candidato.

Achar que a pureza dos argumentos de rua se traduz automaticamente em alcance digital é um erro fatal. O adversário não joga limpo.  Ele empacota o ódio, simplifica inverdades e atinge o eleitor indeciso ou desatento com uma frequência avassaladora.

Em uma disputa tão apertada, como mostram os cenários entre Lula e Flávio Bolsonaro, não há espaço para acomodação baseada naquilo que aparece na nossa própria bolha.

Para derrotar esse cenário de risco, a mobilização precisa ser completa. Sair da bolha em primeiro lugar. É preciso produzir conteúdos que falem com quem não concorda conosco, focando em diálogo, empatia e clareza.

Responder à manipulação e à mentira com dados, propostas e resultados concretos, mas sem cair na tentação de replicar o jogo rasteiro do adversário.

Presença digital não é apenas publicar notas oficiais. É disputar atenção, simplificar mensagens complexas, escutar e estar presente onde o eleitor comum consome informação cotidiana.

A tecnologia pode até tentar moldar o que aparece diante dos nossos olhos, mas a decisão sobre o futuro do país continua sendo nossa. Em uma eleição tão acirrada, não podemos permitir que a mentira chegue mais longe do que a verdade simplesmente porque foi melhor empacotada nas redes.

O engajamento popular de rua continua tendo alma e calor humano insubstituíveis, mas a vitória política hoje exige as duas frentes: a sola de sapato na calçada e a inteligência estratégica na tela.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O perigo de não reconhecer a extrema direita

 

Imagem - Vermelho.org
Por que, quando a extrema direita avança na Alemanha, parte significativa da imprensa internacional imediatamente acende o alerta para os riscos de uma reabilitação do nazismo, do autoritarismo e da intolerância? E por que, no Brasil, grupos e lideranças que flertam com ataques às instituições, questionam eleições sem provas, relativizam a violência política e mantêm estreitas conexões ideológicas com movimentos autoritários internacionais (Trump) são, muitas vezes, apresentados simplesmente como “a oposição”?

Não se trata de negar a importância da oposição. Ao contrário: não existe democracia saudável sem oposição forte, legítima e responsável. O problema começa quando a linguagem utilizada para descrever os fatos suaviza comportamentos que deveriam preocupar toda a sociedade. Uma coisa é fazer oposição a um governo, outra, muito diferente, é atacar sistematicamente as regras do jogo democrático, desacreditar instituições e transformar adversários políticos em inimigos a serem eliminados.

A história alemã ensinou ao mundo que a democracia nem sempre desaparece de uma vez. Muitas vezes, ela é corroída aos poucos, pela normalização do discurso de ódio, pela mentira repetida até parecer verdade, pela perseguição às minorias e pelo enfraquecimento gradual das instituições. Por isso, é compreensível que os alemães e a Europa estejam especialmente atentos aos sinais da extrema direita.

E o Brasil? Será que aprendemos as mesmas lições?

Quando setores da extrema direita brasileira se alinham internacionalmente a projetos políticos que defendem o nacionalismo autoritário, atacam organismos multilaterais e alimentam uma permanente desconfiança contra a imprensa, a Justiça e o processo eleitoral, talvez seja necessário perguntar se o simples rótulo de “oposição” é suficiente para explicar o fenômeno.

Isso não significa que todo eleitor de direita seja extremista e essa distinção é fundamental. A direita democrática tem legitimidade, história e um papel indispensável na pluralidade política. Mas também não podemos permitir que o medo de parecer “polarizado” nos impeça de reconhecer a extrema direita quando ela ultrapassa os limites democráticos.

A pergunta que fica é simples.  Estamos usando critérios diferentes para analisar fenômenos semelhantes ou estamos, pouco a pouco, nos acostumando com aquilo que deveria nos alarmar?

A democracia não precisa de silêncio diante dos extremos. Precisa de debate, memória, responsabilidade e coragem para chamar cada coisa pelo seu verdadeiro nome.

sábado, 22 de agosto de 2026

7 homens. 3 talentos. 1 propósito. Nasce um novo projeto: construir a melhor corretora de seguros do Brasil.


San Martin Corretora premiada com o título de
Melhores do Seguro no ano 2019
Há momentos na vida em que a gente precisa parar, olhar para trás e reconhecer quem esteve ao nosso lado quando a caminhada ficou mais difícil.

Ao completar 58 anos de vida e 35 de uma trajetória dedicada ao mercado de seguros, tenho uma certeza a me encher de orgulho.  Eu não conseguiria retomar essa luta e sonhar novamente com o topo sem a presença, o trabalho, a liderança e a dedicação dos meus três filhos, Gabriel, Rafael e Daniel.

Cada um, à sua maneira, ocupa um espaço fundamental nessa reconstrução.

Mas há algo que preciso deixar muito claro. Eles não estão aqui simplesmente porque são meus filhos. Não estão aqui apenas porque herdaram uma profissão, uma empresa ou uma história construída pelo pai e pela mãe. Estão aqui porque são homens feitos, adultos, sérios, comprometidos e porque, em algum momento de suas vidas, compreenderam que assumir os negócios da família também significava assumir responsabilidades, desafios e escolhas.

Eles poderiam seguir outros caminhos. E certamente ainda seguirão muitos outros. Cada um tem seus próprios sonhos, suas próprias vocações e grandes projetos que, tenho certeza, ainda irão construir ao longo da vida.

Mas entenderam que, neste momento, era preciso colocar os pés no chão, trabalhar, consolidar uma base e ajudar a construir algo sólido sobre o qual possam, amanhã, erguer seus próprios sonhos.

E isso, para um pai, não tem preço.

Rafael ainda menino
na San Martin

Rafael é o companheiro de todos os dias, presente no escritório, enfrentando comigo a rotina, os problemas, as urgências e principalmente, as pessoas. É quem está ali, no dia a dia, colocando a mão na massa e ajudando a transformar dificuldades em soluções. Principalmente quando o tema é tecnologia.

O que seria de mim sem seu apoio nessa área, num mercado tomado pelos avanços da informática? E quanta paciência para ensinar a mim e aos franqueados a trafegar pelos sites, sistemas e portais das seguradoras.

Agora, Rafael se prepara também para realizar sua habilitação na SUSEP e dar continuidade a uma história profissional que começou antes da década de 90, construída com honestidade, firmeza, trabalho e respeito ao mercado. Lições que aprendi de um pai vendedor nato e de uma mãe empreendedora.

Gabriel ministrando seu
primeiro treinamento a
 franqueados na San Martin

Gabriel tem uma capacidade admirável de dividir sua vida entre os estudos e o trabalho. Estudante de Filosofia em Uberlândia, aprende, pesquisa, questiona, evolui e ao mesmo tempo, coloca seu conhecimento a serviço das empresas e dos nossos parceiros a quem atende. Sua contribuição muitas vezes é silenciosa e até invisível, pela distância física e trabalho “home”, mas é igualmente essencial para que possamos avançar. Férias?  Já não conhece essa palavra. Sempre que tem folga, se une a nós no escritório. 

Daniel - ainda na escola
em noite de autógrafos
E Daniel, o mais novo nessa caminhada, vem descobrindo, dia após dia, que sempre é possível aprender um pouco mais. Tem sede de conhecimento, vontade de crescer, ajudar, atender e sobretudo, disposição para ouvir.

E é bonito ver seus irmãos compartilhando aquilo que já aprenderam, orientando, corrigindo, explicando e tendo paciência para ajudá-lo a construir seu próprio caminho.

Essa talvez seja uma das maiores riquezas do nosso projeto.  Eles não competem entre si. Eles se completam.

E há outra coisa que tenho aprendido nessa convivência.

Durante muitos anos, fui eu quem ensinou. Hoje, sob a batuta deles em muitas situações, sou eu quem aprende diariamente.

Aprendo com a maneira como enxergam a tecnologia, com a velocidade com que absorvem informações, com a forma como lidam com os problemas, com a paciência que precisam ter e até com aquilo que, às vezes, fazem diferente de mim.

E isso não diminui em nada a minha história. Pelo contrário.

Talvez seja uma das maiores recompensas de uma vida profissional. Perceber que os filhos cresceram, tornaram-se homens e que chegou o momento de também aprender com eles. Hoje, são meus chefes.

À frente da Samba Corretora e agora com o Projeto Velox Seguros, estamos vivendo um novo momento.

E talvez o mais desafiador.  Trabalhar com uma rede constituída e gigante de pessoas que chegam ao mercado cheias de vontade de crescer, faturar e conquistar seu espaço, mas que muitas vezes ainda não possuem o conhecimento técnico necessário para enfrentar a complexidade do seguro.

É preciso ter paciência. É preciso ensinar. É preciso analisar cada situação, resolver conflitos, orientar, acompanhar propostas, explicar procedimentos e muitas vezes, “pegar nas mãos” de quem está começando.

E esses três caras têm feito isso diariamente. Não é pouca coisa.

É um trabalho que exige conhecimento, dedicação, equilíbrio e acima de tudo, generosidade para compartilhar aquilo que aprenderam.  Por vezes, ouvir desabafos, razoavelmente ingratos de quem não percebe as regras de um sistema “bruto” e cheio de detalhes.

Tudo isso me leva a crer que, juntos, podemos chegar novamente ao topo.

Reconquistar aquilo que um dia foi o brilho da San Martin, que chegou a ser a segunda maior corretora de seguros do franchising brasileiro.

Sede do Grupo Velox e da Velox Seguros
O Projeto Velox Corretora de Seguros, em continuidade à Samba Brasil, nasce com a ambição de construir uma das melhores corretoras de seguros do Brasil. E temos, para isso, ao nosso lado, a confiança e carta branca de empresários competentes como Mário Sergio e Edmundo Diniz, sócios do Grupo Velox, que, através da Velox Soluções e da Velox Solar, trazem para esse projeto a experiência e a expertise acumuladas na condução de suas próprias e vigorosas redes.

E pra complicar muito, pra concorrência, nos próximos dias, teremos ainda a chegada de um novo componente ao nosso quadro societário, vindo de uma seguradora e trazendo novas forças, conhecimento e novas possibilidades para fortalecer nossa atuação no mercado de seguros.

Mas quero deixar algo registrado aqui.

Sim, há muita vontade em mim. Há energia. Há vigor. Mas eu não teria conseguido voltar para essa luta sozinho.

Se estou novamente disposto a enfrentar desafios, construir, empreender e sonhar grande é porque tenho ao meu lado o Rafa, o Gabri e o Dani. Meus filhos. Meus parceiros. Meus companheiros de trabalho. E acima de tudo, três homens que escolheram estar aqui. Não por obrigação. Não simplesmente por serem meus filhos. Mas porque entenderam que havia uma história que precisava ser preservada, um trabalho que precisava ser reconstruído e uma base que precisava ser fortalecida.

E talvez seja exatamente isso que permitirá que cada um deles, no futuro, possa seguir ainda mais longe.

Porque crescer agora não significa apenas crescer a empresa. Significa, antes de tudo, construir conhecimento, experiência, caráter, responsabilidade e uma linha de conduta que lhes permita, amanhã, perseguir seus próprios sonhos, sejam eles quais forem.

Quero deixar para eles mais do que uma empresa. Quero deixar uma maneira de trabalhar, uma reputação, uma história e princípios que possam sustentar os próximos passos.

Cada um com seu jeito, sua personalidade, suas virtudes e também seus desafios. Mas todos contribuindo para que uma história iniciada há mais de três décadas possa ganhar um novo capítulo.

E talvez essa seja a maior vitória de todas. Perceber que aquilo que construí ao longo de uma vida profissional não precisa simplesmente terminar em mim.

Pode ser transformado por eles. Pode ser ampliado por eles. Pode até ser superado por eles.

E espero, sinceramente, que seja.

Porque o maior orgulho de um pai não é ver os filhos repetirem os seus passos. É vê-los caminhar com as próprias pernas.

Que venham os novos desafios. Que venham os novos parceiros, os novos franqueados e os novos projetos. Que venham as lutas e enfrentamentos da concorrência, quase sempre extremamente agressiva.

Vamos trabalhar, aprender, ensinar, corrigir, crescer e acima de tudo, permanecer juntos.

Porque se existe uma coisa que aprendi nesses anos é que grandes empresas podem ser construídas com estratégia, competência e trabalho. Mas grandes histórias só são construídas com confiança, companheirismo, dedicação, princípios e muito, mas muito amor envolvido.

Obrigado, Rafa. Obrigado, Gabri. Obrigado, Dani.

Vocês são incríveis. Fundamentais. Essenciais. E a presença de vocês nos nossos projetos é a energia necessária para que possamos perseguir nossos objetivos comuns.

Tenho orgulho dos filhos que criei. Mas tenho ainda mais orgulho dos homens que vocês se tornaram.

E a partir de agora, quero continuar ensinando o que puder, mas principalmente quero continuar aprendendo muito com vocês.

Vamos juntos. A história ainda não terminou. O melhor ainda está por vir.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BETs - quando a aposta deixa de ser diversão e começa a comer a renda das famílias

 

Imagem - Agência GOV BR

Há uma mentira confortável sendo vendida aos brasileiros, a saber, de que as bets são apenas uma forma moderna de entretenimento, uma diversão inofensiva para quem quer arriscar alguns reais.

Não são. O tamanho que esse mercado alcançou e principalmente, a forma como ele passou a disputar o dinheiro das famílias brasileiras transformaram as apostas online em um problema econômico e social que o país não pode mais tratar como simples questão de gosto individual.

Os números são impressionantes. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), com base em informações do Banco Central, mostram que as bets movimentaram cerca de R$ 351 bilhões em transferências via Pix no período analisado, enquanto as perdas líquidas das famílias chegaram a R$ 62,5 bilhões. Isso significa dinheiro que entrou nas plataformas e não voltou para os apostadores na forma de prêmios. O valor equivale a cerca de 68 milhões de cestas básicas paulistas, tomando como referência os R$ 915,01 registrados pelo DIEESE em julho de 2026.

E aqui está uma questão que deveria provocar indignação. R$ 62,5 bilhões não são dinheiro que apareceu do nada. São recursos que saíram do orçamento de pessoas e famílias. Dinheiro que poderia estar pagando uma conta, comprando alimentos, quitando uma dívida, comprando uma roupa, fazendo uma pequena reforma, pagando uma escola, frequentando um restaurante ou simplesmente ficando guardado para enfrentar uma emergência.

O Banco Central já havia identificado o problema antes mesmo de termos a dimensão atual do fenômeno. Em agosto de 2024, estimou cerca de R$ 20,8 bilhões em transferências mensais para empresas de apostas e calculou que aproximadamente 15% do valor apostado ficava retido pelas plataformas. Mais preocupante ainda é que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets naquele mês, sendo que 4 milhões eram chefes de família. O próprio Banco Central advertiu que as famílias de baixa renda estavam entre as mais prejudicadas e que o fenômeno merecia atenção por seus efeitos sobre o bem-estar financeiro e a economia.

Não estamos, portanto, falando apenas de pessoas com dinheiro sobrando procurando diversão. Estamos falando de uma indústria que descobriu uma maneira extremamente eficiente de alcançar justamente quem tem menos margem financeira.

Uma pesquisa do Procon-SP, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, encontrou outro dado assustador. 39,7% dos apostadores pesquisados disseram ter se endividado depois de começar a apostar. E uma pesquisa nacional do CNDL/SPC Brasil mostrou que, entre os apostadores, 19% admitiram ter comprometido a própria renda, 17% deixaram de pagar alguma conta para jogar e 29% já tiveram o nome negativado por causa das apostas.

O problema não termina no bolso do apostador. Ele chega ao comércio.

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou aproximadamente R$ 143 bilhões do comércio varejista, cerca de 2,5% do faturamento do setor no período. A entidade estima ainda que os gastos com apostas passaram de R$ 30 bilhões por mês e contribuíram para o agravamento da inadimplência. É importante registrar que o setor de apostas contestou a metodologia da CNC e afirmou que o endividamento brasileiro tem múltiplas causas, como juros elevados e custo do crédito. A contestação deve ser considerada, mas ela não apaga os demais dados que mostram a transferência de renda das famílias para as plataformas.

E é justamente aí que precisamos discutir as bets também como um problema macroeconômico.

Quando uma família compra comida, paga uma prestação, contrata um serviço ou compra um produto no comércio local, aquele dinheiro continua circulando.  Remunera trabalhadores, paga fornecedores, gera impostos e volta para a economia. Quando parte desse dinheiro é perdida em uma aposta, a família não recebe um produto ou serviço equivalente em troca. E quando a perda é grande, ela ainda pode precisar recorrer a crédito para pagar aquilo que antes seria pago com a própria renda.

Isso cria um efeito perverso.  A pessoa aposta porque precisa melhorar sua renda.  Perde dinheiro e reduz o consumo.  Endivida-se e depois precisa trabalhar mais ou tomar crédito para recompor aquilo que perdeu.

É uma máquina de transformar esperança em dívida.

Também precisamos tomar cuidado com a forma como interpretamos os indicadores econômicos. Não é correto afirmar que as bets simplesmente "maquiam" o PIB ou que todo dinheiro apostado representa crescimento econômico. Nas contas nacionais, não se contabiliza o valor bruto apostado como se fosse produção. Mas existe, sim, um problema de interpretação quando olhamos apenas para determinados indicadores de atividade e ignoramos para onde está indo a renda das famílias e qual é a qualidade desse consumo.

Uma economia pode registrar emprego, renda e circulação financeira enquanto milhões de pessoas estão comprometendo sua renda com apostas. Pode haver dinheiro circulando e ao mesmo tempo, famílias reduzindo a compra de alimentos, roupas, serviços e bens duráveis. Pode haver crescimento nominal da atividade sem que isso signifique melhora proporcional do bem-estar.

É preciso olhar não apenas quanto dinheiro circula, mas o que esse dinheiro está financiando.

E há uma diferença fundamental entre uma economia que cresce porque as famílias consomem, as empresas investem e os trabalhadores recebem melhores salários e uma economia em que uma parcela crescente da renda disponível é capturada por um mercado cuja lógica matemática é fazer com que, no conjunto, o apostador perca.

As bets podem até gerar impostos e empregos. Será? Mas isso não transforma um modelo baseado na perda financeira de milhões de consumidores em uma política de desenvolvimento. O governo já precisou proibir crédito para apostas, bônus de entrada e cartão de crédito justamente para tentar conter o endividamento. Também criou mecanismos de autoexclusão para impedir que pessoas bloqueadas continuem apostando.

Isso demonstra que até o Estado reconhece que não estamos diante de um mercado qualquer.

Precisamos parar de aceitar a propaganda que apresenta a aposta como investimento, renda extra ou caminho para mudar de vida. Aposta não é investimento. Aposta não é renda. E para a imensa maioria, não é caminho para enriquecimento.

É um jogo em que a plataforma conhece as probabilidades antes de você jogar.

Por isso, a discussão brasileira não deveria ser simplesmente se somos "a favor" ou "contra" quem aposta. Precisamos perguntar algo muito maior. Quanto de renda das famílias brasileiras estamos dispostos a permitir que seja drenado por uma indústria que cresce justamente sobre a esperança de quem precisa de dinheiro?

“Quando a aposta começa a disputar espaço com a comida, com a conta de luz, com o aluguel, com a prestação e com a cesta básica, ela deixou de ser entretenimento.

Virou um problema econômico, social e de saúde pública.

E diante de um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais, endivida milhões de brasileiros e retira recursos do consumo cotidiano, não basta dizer ao cidadão: "jogue com responsabilidade".

É hora de dizer às bets que lucro não pode valer mais do que a proteção das famílias brasileiras.

domingo, 9 de agosto de 2026

943 árvores não são apenas 943 árvores

Mais uma vez a administração pública de Rio Preto, na pessoa do seu executivo o Prefeito Fábio Cândido do PL, quer solucionar alguma coisa com "machadadas" a exemplo das "marteladas" do governador do Estado de sua mesma linha política.

A obra que visa minimizar o impacto das enchentes na Murchid Honsi, propõe o corte de quase mil árvores.

É revoltante imaginar que uma decisão com impacto tão grande sobre o meio ambiente e a qualidade de vida de Rio Preto possa avançar sem transparência, sem diálogo amplo com a população e sem que sejam apresentadas, de forma convincente, todas as alternativas possíveis.

Estamos falando de 943 árvores. São décadas de crescimento, sombra, equilíbrio ambiental, redução do calor, qualidade do ar e vida para a nossa cidade. Não se pode tratar uma árvore como simples obstáculo a uma obra ou a um projeto. Antes de qualquer corte, é obrigação do poder público demonstrar que todas as possibilidades de preservação, adequação, transplante ou alteração do projeto foram efetivamente estudadas.

O que não podemos aceitar é a lógica do “é preciso cortar e pronto”. A população tem o direito de saber quem decidiu, por quê, com base em quais estudos, quais alternativas foram analisadas e por que foram descartadas.

Desenvolvimento não pode ser sinônimo de destruição. Obras públicas precisam respeitar a cidade, o meio ambiente e, principalmente, as pessoas que vivem nela.

Por isso, quarta-feira, 12 de agosto, às 18h30, na Câmara Municipal, teremos uma audiência pública sobre a questão das árvores da Murchid Honsi.

Rio Preto precisa estar presente. Não podemos deixar que 943 árvores sejam reduzidas a uma estatística. Vamos ocupar a Câmara, exigir transparência e defender o direito da população de participar das decisões sobre a cidade que é de todos nós.

FINADOS - Onde termina o túmulo e começa a eternidade?

  Frase na Lápide de meu pai: Carlos Alberto Gomes Falecido em 12/12/2022 Todos os anos, no dia 2 de novembro, milhares de pessoas se dirige...