sexta-feira, 21 de março de 2025

Você se Lembra de 1990? Um Marco Traumático na História Econômica do Brasil

 

Imagem: Observo - Ministra Zélia Cardoso de Mello

O ano de 1990 marcou o início de um dos capítulos mais controversos e traumáticos da história econômica do Brasil.

No dia 16 de março, logo no primeiro dia de seu mandato, o então presidente Fernando Collor de Mello anunciou uma medida que chocou o país. O confisco das poupanças e de outras aplicações financeiras.

A decisão, tomada como parte de um plano econômico para controlar a hiperinflação que assolava o país, deixou milhares de brasileiros em situação financeira desesperadora, levando muitos à falência e, em casos extremos, ao suicídio.

Esse episódio, conhecido como o "confisco da poupança", continua sendo um tema de reflexão sobre os limites da intervenção estatal e os impactos sociais das políticas econômicas.

No final dos anos 1980, o Brasil vivia uma crise econômica sem precedentes.

A inflação atingia níveis estratosféricos, chegando a 84% ao mês em março de 1990. Dá pra acreditar?

Esse cenário de instabilidade corroía o poder de compra da população, desestabilizava o mercado e gerava incertezas generalizadas.

Os planos econômicos anteriores, como o Plano Cruzado, o Plano Bresser e o Plano Verão, haviam fracassado em conter a escalada dos preços, deixando o país à beira do colapso.

Foi nesse contexto que Fernando Collor de Mello, eleito presidente em 1989, com apoio massivo da mídia e do Mercado, assumiu o poder com a promessa de modernizar o país, combater a corrupção e controlar a inflação.

Collor, um político jovem e “carismático”, apresentou-se como o "caçador de marajás", disposto a cortar privilégios e moralizar a gestão pública.

No entanto, suas primeiras medidas no cargo surpreenderam e revoltaram a população.

No dia 16 de março de 1990, no auditório do Ministério da Fazenda em Brasília, Collor e sua equipe econômica, liderada pela ministra Zélia Cardoso de Mello, anunciaram o Plano Collor I.

O plano incluía uma série de medidas drásticas, entre elas o bloqueio de ativos financeiros.

Cerca de 80% do dinheiro aplicado em cadernetas de poupança e outras contas correntes foi retido pelo Banco Central por 18 meses. Estima-se que o governo tenha confiscado o equivalente a US$ 100 bilhões, ou 30% do PIB da época.

A justificativa para o confisco era reduzir a quantidade de dinheiro em circulação na economia, um dos fatores que alimentavam a inflação.

No entanto, a medida foi implementada de forma abrupta, sem aviso prévio, pegando a população de surpresa e gerando um clima de desespero generalizado.

O confisco da poupança teve consequências devastadoras para milhões de brasileiros.

Famílias perderam suas economias de uma só vez, pequenos empresários ficaram sem capital de giro, e muitos foram levados à falência.

Relatos de suicídios e crises pessoais se multiplicaram, refletindo o desespero de quem viu seu futuro financeiro ser destruído da noite para o dia.

Além do impacto imediato, o confisco minou a confiança da população no sistema financeiro e no governo.

A medida foi vista como uma violação do direito de propriedade e um ato de autoritarismo, especialmente porque afetou principalmente a classe média e os pequenos poupadores, enquanto grandes investidores e corporações conseguiram proteger seus ativos.

Embora o Plano Collor I tenha conseguido reduzir temporariamente a inflação, seus efeitos positivos foram de curta duração.

A economia brasileira continuou instável, e a inflação voltou a subir nos anos seguintes.

Collor acabou sendo impeachmado em 1992, não apenas por causa das falhas de seu plano econômico, mas também por denúncias de corrupção.

O confisco da poupança deixou um legado de trauma e desconfiança. Ele serve como um alerta sobre os riscos de políticas econômicas autoritárias e mal planejadas, que ignoram o impacto social de suas medidas.

Além disso, o episódio reforça a importância da transparência e do diálogo entre governo e sociedade na implementação de reformas econômicas.

Em um país ainda marcado por desigualdades e instabilidades, é fundamental aprender com os erros do passado para evitar que medidas tão drásticas e traumáticas sejam repetidas.

O caso de 1990 também nos lembra da importância de proteger os direitos dos cidadãos, especialmente em momentos de crise.

Em um mundo onde crises econômicas ainda são uma realidade, o exemplo do confisco da poupança serve como um alerta.

Políticas econômicas devem ser pensadas não apenas em termos de números e metas, mas também em termos de pessoas e histórias.

Afinal, a economia não é uma ciência exata — é, acima de tudo, uma ciência humana.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por contribuir com sua opinião. Nossos apontamentos só tem razão de existir se outros puderem participar.

ONU Latino Americana

  Imagem: Generation Brazil  O governo brasileiro propôs que os países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos se unam em to...