A Avenida não é apenas um palco de
espetáculo. É também território
simbólico do Brasil profundo. E quando uma escola de samba transforma seu
desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que se vê não é
apenas exaltação de uma liderança política. É a expressão de uma narrativa
histórica construída nas lutas populares, nos sindicatos, nas periferias e nos
movimentos sociais que moldaram o país contemporâneo.
Imagem - Revista Veja
A apresentação da Acadêmicos de Niterói
no Sambódromo da Marquês de Sapucaí foi mais do que um desfile. Foi afirmação
cultural. O samba, que nasceu marginalizado, perseguido e criminalizado, sempre
foi espaço de resistência. Quando ele ocupa a Avenida para homenagear um líder
identificado com as camadas populares, ele reafirma seu papel histórico de dar
voz aos que nem sempre tiveram voz.
O Carnaval é, por essência, político,
não no sentido partidário estreito, mas no sentido mais profundo da palavra. O
de debater a vida coletiva. Ao longo das décadas, as escolas de samba
denunciaram desigualdades, celebraram conquistas sociais, revisitaram a
história sob o olhar do povo e provocaram reflexões sobre os rumos do país. É
natural, portanto, que também enfrentem visões conservadoras que tentam reduzir
a cultura popular a entretenimento vazio.
A homenagem na Sapucaí reafirma algo que
incomoda setores da direita. A esquerda popular brasileira não é um fenômeno de
gabinete. Ela é cultural, simbólica, enraizada. Está nas comunidades que
constroem carros alegóricos durante meses, nos trabalhadores que costuram
fantasias, nos compositores que traduzem em verso e tamborim as dores e
esperanças de uma nação desigual.
Provocar o bolsonarismo dentro da
estética do samba não é apenas disputa política. É disputa de narrativa histórica. É dizer que
o Brasil não se resume ao medo, à intolerância ou ao negacionismo. Há um Brasil
que canta, que defende políticas sociais, que valoriza a educação pública, que
acredita na inclusão e na democracia.
A Sapucaí mostrou, mais uma vez, que o
Carnaval não é fuga da realidade, mas interpretação dela. E quando a arte
assume lado, assume também responsabilidade histórica. Defender a esquerda
popular brasileira é defender a ideia de que o país pode ser mais justo, mais
solidário e mais plural.
O samba ensinou isso há muito tempo. Enquanto houver tamborim e voz coletiva, haverá resistência. E resistência, no Brasil, também se faz em forma de desfile.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por contribuir com sua opinião. Nossos apontamentos só tem razão de existir se outros puderem participar.