segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quando o samba vira memória, resistência e esperança

Imagem - Revista Veja
A Avenida não é apenas um palco de espetáculo.  É também território simbólico do Brasil profundo. E quando uma escola de samba transforma seu desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que se vê não é apenas exaltação de uma liderança política. É a expressão de uma narrativa histórica construída nas lutas populares, nos sindicatos, nas periferias e nos movimentos sociais que moldaram o país contemporâneo.

A apresentação da Acadêmicos de Niterói no Sambódromo da Marquês de Sapucaí foi mais do que um desfile. Foi afirmação cultural. O samba, que nasceu marginalizado, perseguido e criminalizado, sempre foi espaço de resistência. Quando ele ocupa a Avenida para homenagear um líder identificado com as camadas populares, ele reafirma seu papel histórico de dar voz aos que nem sempre tiveram voz.

O Carnaval é, por essência, político, não no sentido partidário estreito, mas no sentido mais profundo da palavra. O de debater a vida coletiva. Ao longo das décadas, as escolas de samba denunciaram desigualdades, celebraram conquistas sociais, revisitaram a história sob o olhar do povo e provocaram reflexões sobre os rumos do país. É natural, portanto, que também enfrentem visões conservadoras que tentam reduzir a cultura popular a entretenimento vazio.

A homenagem na Sapucaí reafirma algo que incomoda setores da direita. A esquerda popular brasileira não é um fenômeno de gabinete. Ela é cultural, simbólica, enraizada. Está nas comunidades que constroem carros alegóricos durante meses, nos trabalhadores que costuram fantasias, nos compositores que traduzem em verso e tamborim as dores e esperanças de uma nação desigual.

Provocar o bolsonarismo dentro da estética do samba não é apenas disputa política.  É disputa de narrativa histórica. É dizer que o Brasil não se resume ao medo, à intolerância ou ao negacionismo. Há um Brasil que canta, que defende políticas sociais, que valoriza a educação pública, que acredita na inclusão e na democracia.

A Sapucaí mostrou, mais uma vez, que o Carnaval não é fuga da realidade, mas interpretação dela. E quando a arte assume lado, assume também responsabilidade histórica. Defender a esquerda popular brasileira é defender a ideia de que o país pode ser mais justo, mais solidário e mais plural.

O samba ensinou isso há muito tempo.  Enquanto houver tamborim e voz coletiva, haverá resistência. E resistência, no Brasil, também se faz em forma de desfile. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por contribuir com sua opinião. Nossos apontamentos só tem razão de existir se outros puderem participar.

Quando o samba vira memória, resistência e esperança

Imagem - Revista Veja A Avenida não é apenas um palco de espetáculo.   É também território simbólico do Brasil profundo. E quando uma escola...