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Por isso,
nossas discussões eram inevitáveis.
Ele defendia
Pelé com a convicção de quem não aceitava comparação. Eu, teimoso, tentava
levar Diego Maradona ao mesmo altar. E ali, entre argumentos e provocações,
travávamos batalhas que, hoje vejo, eram menos sobre futebol e mais sobre amor. Aquele amor que só se expressa assim, no
calor das palavras.
Mas foi na
última Copa, em 2022, que tivemos nossa conversa mais difícil.
Já próximo
de sua partida, meu pai ainda tinha energia pra defender o jogo bonito e,
naquele momento, ele enxergava isso em Neymar. Dizia que era um grande jogador,
que merecia respeito, que minhas críticas eram duras demais.
E eram
mesmo.
Porque eu
nunca consegui separar o jogador do homem. Nunca consegui ver só o drible,
ignorando o que estava fora de campo. Meu pai, não. Ele tinha essa sabedoria. Enxergava o futebol na sua essência, quase
como uma obra de arte que existe por si.
Discutimos.
Elevamos o tom. Como sempre fizemos.
Hoje, isso
me dói.
Não pelo que
pensamos, porque pensar diferente sempre fez parte de nós, mas pela
intensidade, pelo excesso, pelo tempo que já não volta.
Com o passar
dos dias, fui entendendo que meu pai via algo que eu ainda estou aprendendo a
ver. O futebol como linguagem própria,
como beleza autônoma, como expressão que não precisa carregar todo o peso do
mundo.
Ele entendia
mais. E eu reconheço isso com humildade.
Mas ainda
carrego em mim essa dificuldade, essa insistência em misturar o campo com a
vida, o craque com o cidadão. Talvez seja defeito. Talvez seja convicção.
Talvez seja só o meu jeito de ver o mundo.
E é por isso
que, mesmo hoje, não consigo lamentar a ausência de Neymar em uma convocação.
Há em mim algo que ainda cobra mais do que talento.
Meu pai,
provavelmente, discordaria.
E talvez
sorrisse diante disso.
No fim,
nossas discussões nunca foram sobre quem estava certo. Foram sobre estarmos
juntos, vivendo o futebol com paixão, cada um à sua maneira.
E se hoje eu
penso diferente, ainda assim carrego comigo o que ele me ensinou sem dizer que
o futebol, como a vida, é feito de olhares.
E o dele…
era mais bonito que o meu.

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