sábado, 25 de abril de 2026

Entre o craque e o homem

 

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Meu pai era corinthiano daqueles de raiz. Mas, mais do que isso, era apaixonado pelo futebol bem jogado. Não era só o clube, era o espetáculo, a arte, o improviso, a genialidade em campo. E nisso ele era generoso. Reconhecia talento onde ele estivesse.

Por isso, nossas discussões eram inevitáveis.

Ele defendia Pelé com a convicção de quem não aceitava comparação. Eu, teimoso, tentava levar Diego Maradona ao mesmo altar. E ali, entre argumentos e provocações, travávamos batalhas que, hoje vejo, eram menos sobre futebol e mais sobre amor.  Aquele amor que só se expressa assim, no calor das palavras.

Mas foi na última Copa, em 2022, que tivemos nossa conversa mais difícil.

Já próximo de sua partida, meu pai ainda tinha energia pra defender o jogo bonito e, naquele momento, ele enxergava isso em Neymar. Dizia que era um grande jogador, que merecia respeito, que minhas críticas eram duras demais.

E eram mesmo.

Porque eu nunca consegui separar o jogador do homem. Nunca consegui ver só o drible, ignorando o que estava fora de campo. Meu pai, não. Ele tinha essa sabedoria.  Enxergava o futebol na sua essência, quase como uma obra de arte que existe por si.

Discutimos. Elevamos o tom. Como sempre fizemos.

Hoje, isso me dói.

Não pelo que pensamos, porque pensar diferente sempre fez parte de nós, mas pela intensidade, pelo excesso, pelo tempo que já não volta.

Com o passar dos dias, fui entendendo que meu pai via algo que eu ainda estou aprendendo a ver.  O futebol como linguagem própria, como beleza autônoma, como expressão que não precisa carregar todo o peso do mundo.

Ele entendia mais. E eu reconheço isso com humildade.

Mas ainda carrego em mim essa dificuldade, essa insistência em misturar o campo com a vida, o craque com o cidadão. Talvez seja defeito. Talvez seja convicção. Talvez seja só o meu jeito de ver o mundo.

E é por isso que, mesmo hoje, não consigo lamentar a ausência de Neymar em uma convocação. Há em mim algo que ainda cobra mais do que talento.

Meu pai, provavelmente, discordaria.

E talvez sorrisse diante disso.

No fim, nossas discussões nunca foram sobre quem estava certo. Foram sobre estarmos juntos, vivendo o futebol com paixão, cada um à sua maneira.

E se hoje eu penso diferente, ainda assim carrego comigo o que ele me ensinou sem dizer que o futebol, como a vida, é feito de olhares.

E o dele… era mais bonito que o meu.


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