quinta-feira, 28 de maio de 2026

Terrorismo, soberania e o velho complexo de vira-lata

 

Imagem - ICL Notícias
O governo dos Estados Unidos decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas estrangeiras”. A medida veio logo após a visita de Flávio Bolsonaro a autoridades americanas e foi celebrada pela extrema-direita brasileira como se fosse uma medalha de honra nacional. Mas antes do delírio colonizado dos patriotas de joelho dobrado diante da bandeira dos EUA, talvez seja necessário fazer algumas perguntas sérias.

Desde quando cabe a um governo estrangeiro definir unilateralmente o enquadramento jurídico de organizações que atuam em território brasileiro?

Desde quando a soberania nacional virou mera sugestão diplomática?

O Brasil possui legislação própria sobre terrorismo. E o próprio governo brasileiro, por meio de especialistas em segurança pública, já afirmou anteriormente que PCC e CV não se enquadram juridicamente na definição de terrorismo prevista em nossa legislação, justamente porque não possuem motivação política, religiosa ou ideológica. São organizações criminosas violentas? Evidentemente. Mas isso não autoriza qualquer potência estrangeira a reclassificar juridicamente fenômenos internos brasileiros conforme seus interesses geopolíticos.

Porque é disso que se trata.

Os Estados Unidos nunca agem apenas por princípios abstratos. A história mundial mostra exatamente o contrário. Quando Washington decide transformar algo em “ameaça à segurança nacional”, normalmente o passo seguinte envolve pressão diplomática, sanções, interferência econômica, espionagem, cooperação militar assimétrica ou tutela política.

É exatamente aí que mora o perigo.

Hoje classificam facções brasileiras. Amanhã alegam que existe ameaça regional. Depois dizem que precisam “cooperar diretamente” no combate ao terrorismo dentro do território nacional. E quando percebemos, parte da elite brasileira já está aplaudindo a relativização da própria soberania em nome da submissão ideológica aos interesses americanos.

O mais impressionante é ver setores que se dizem patrióticos comemorando isso.

Patriotas de verdade defendem a autonomia nacional. Não entregam prerrogativas estratégicas do país para governos estrangeiros. Não transformam o Brasil em quintal geopolítico dos Estados Unidos. Não vibram quando autoridades estrangeiras passam a reivindicar autoridade moral, política ou operacional sobre problemas internos brasileiros.

O combate ao crime organizado é obrigação do Estado brasileiro. Das instituições brasileiras. Da inteligência brasileira. Das leis brasileiras.

Ou agora teremos que pedir autorização em Washington para definir nossa política de segurança pública?

E é inevitável a pergunta: qual foi exatamente o papel da visita de Flávio Bolsonaro nessa decisão?

Porque, se houve participação direta de um senador brasileiro estimulando uma potência estrangeira a endurecer mecanismos de pressão internacional sobre o próprio país, o debate deixa de ser apenas diplomático e passa a envolver algo muito mais profundo. A deterioração completa do conceito de soberania entre setores da extrema-direita brasileira.

Existe uma diferença brutal entre cooperação internacional e submissão política.

Uma coisa é trocar informações, integrar inteligência e combater fluxos internacionais do crime organizado. Outra, completamente diferente é celebrar a ampliação informal do poder político estadunidense sobre assuntos internos brasileiros.

O Brasil não precisa de tutela estrangeira. Precisa de instituições fortes, inteligência estatal séria, investimento em investigação financeira, controle de fronteiras e combate estrutural às organizações criminosas.

Mas talvez isso dê menos likes do que posar sorridente ao lado de autoridades do norte enquanto se terceiriza a própria soberania nacional.

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