Há uma contradição histórica que
atravessa a identidade dos Estados Unidos e que, mais uma vez, se escancara
diante do mundo. O país que se autoproclama guardião da liberdade e da
democracia segue sendo, também, um dos maiores promotores de intervenções militares,
invasões e desestabilizações em nome desses mesmos valores. A retórica é nobre,
mas a prática, desmente essa lógica.
O recente episódio envolvendo Trump e
o conflito com o Irã expõe essa incoerência com clareza quase didática. Sob o
argumento de defesa e combate a “tiranias”, assistimos a uma escalada agressiva
que, no fim, não entregou aquilo que prometia. Nem vitória, nem estabilidade,
nem liderança moral. O resultado concreto é outro. Um cessar-fogo que revela
limites, um adversário ainda de pé e uma superpotência que sai menor do que
entrou. Bem menor, por sinal.
E há um agravante que não pode ser
ignorado. Os Estados Unidos não entraram nesse cenário apenas por cálculo
estratégico abstrato, mas também para sustentar os interesses de um aliado cada
vez mais questionado no cenário internacional. O governo de Benjamin Netanyahu.
Ao se alinhar de forma quase incondicional a ações duramente criticadas contra
o povo palestino, Washington não apenas reforça sua imagem de seletividade
moral, como se associa diretamente a práticas que contradizem o próprio
discurso que diz defender. A defesa da “democracia” torna-se, assim, um
argumento conveniente, aplicado ou ignorado conforme o interesse geopolítico do
momento.
A realidade impôs um freio à lógica
simplista da “paz pela força”. Ficou evidente que poder militar, por mais vasto
que seja, não resolve tudo. A geopolítica não se dobra apenas à força de
bombas, especialmente quando enfrenta atores dispostos a resistir a qualquer
custo. O controle estratégico do Estreito de Ormuz pelo Irã, por exemplo,
demonstrou que há variáveis que nem o maior orçamento militar do planeta
consegue neutralizar.
Mas talvez o dano mais profundo seja
outro. O desgaste da credibilidade. Aliados tradicionais passaram a questionar
não apenas decisões pontuais, mas o próprio valor da parceria com os EUA. A
confiança, elemento central da liderança global, foi corroída por ameaças não
cumpridas, discursos extremos e uma condução errática. Quando até setores
conservadores começam a duvidar da coerência moral de um presidente, algo está
claramente fora do lugar.
Esse episódio não é um ponto fora da
curva. Ele é, na verdade, mais um capítulo de uma longa história em que os
Estados Unidos oscilam entre o discurso de defensores da ordem internacional e
a prática de agentes de instabilidade. A diferença agora é que o mundo mudou.
Há mais atores, mais resistências, mais limites e menos disposição para
aceitar, sem questionamento, a autoridade autoproclamada de uma potência. Ou no caso, ex-potência.
No fim das contas, a pergunta que fica
é inevitável. Que tipo de liderança global pode emergir de um país que insiste
em resolver conflitos complexos com respostas simplistas e violentas? E mais.
Até quando o discurso da liberdade continuará sendo utilizado como
justificativa para práticas que, na essência, a negam?
Talvez estejamos assistindo não apenas
a um revés pontual, mas a um sintoma de algo maior. O desgaste de um modelo de
poder que já não se sustenta como antes. E, diante disso, o mundo começa, ainda
que lentamente, a buscar outros caminhos.
Como bem sintetizou Jamil Chade, ao
observar o impacto interno desse cenário: “O que as pesquisas revelam é que
alguns daqueles indivíduos que usavam os bonés (Make America Great Again) já se
deram conta de que foram feitos de trouxas. Bonés que, por sinal, são ‘Made in
China’.”

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