segunda-feira, 6 de abril de 2026

Entre a pureza e a vitória

Imagem Carta Capital

 Existe um erro recorrente em setores da esquerda brasileira que precisa ser enfrentado com seriedade e urgência.

Enquanto o país ainda convive com a ameaça concreta do bolsonarismo, herdeiro direto de práticas e ideias de caráter fascista, parte da esquerda insiste em travar batalhas internas como se estivéssemos em tempos normais.

Não estamos.

A recente reação à filiação de Kátia Abreu ao Partido dos Trabalhadores é mais um exemplo desse problema. Setores do próprio partido, apoiados por articulistas e veículos identificados com o campo progressista, correram para levantar um tribunal moral, revisitando o passado da ex-senadora e suas contradições.

Mas a pergunta central é: isso ajuda ou atrapalha o campo democrático?

A política não é feita no laboratório da pureza ideológica. Ela é feita no terreno real, contraditório, complexo, onde alianças são não apenas desejáveis, mas necessárias.

Foi assim, inclusive, na vitória que interrompeu o ciclo autoritário recente. A construção da chapa entre Lula e Alckmin não foi um acidente. Foi uma escolha estratégica. Uma compreensão madura de que, diante de uma ameaça maior, era preciso ampliar, somar, dialogar com setores antes distantes.

E funcionou.

No entanto, o que vemos hoje é a repetição de um comportamento que já foi criticado na própria história da esquerda: o chamado “esquerdismo infantil”. Uma postura que, em nome de uma suposta coerência absoluta, acaba isolando o campo progressista e dificultando sua capacidade de disputar a sociedade.

Transformar divergências passadas em impedimentos absolutos para alianças no presente é, na prática, entregar terreno ao adversário.

Enquanto isso, o outro lado não tem qualquer constrangimento em se reorganizar, se articular internacionalmente e operar com foco total na retomada do poder.

A esquerda não pode se dar ao luxo de lutar contra si mesma.

Isso não significa abrir mão de princípios. Significa compreender prioridades. Significa saber diferenciar o que é contradição superável do que é incompatibilidade estrutural.

A construção de uma frente ampla, capaz de derrotar definitivamente o bolsonarismo e qualquer tentativa de regressão autoritária, exige maturidade política, generosidade estratégica e, sobretudo, compromisso com o povo brasileiro.

A história não será escrita pelos mais “puros”. Será escrita por aqueles que entenderem o tamanho do desafio e tiverem coragem de enfrentá-lo juntos.

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