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| Imagem Carta Capital |
Existe um erro recorrente em setores da esquerda brasileira que precisa ser enfrentado com seriedade e urgência.
Enquanto o país ainda convive com a
ameaça concreta do bolsonarismo, herdeiro direto de práticas e ideias de
caráter fascista, parte da esquerda insiste em travar batalhas internas como se
estivéssemos em tempos normais.
Não estamos.
A recente reação à filiação de Kátia
Abreu ao Partido dos Trabalhadores é mais um exemplo desse problema. Setores do
próprio partido, apoiados por articulistas e veículos identificados com o campo
progressista, correram para levantar um tribunal moral, revisitando o passado
da ex-senadora e suas contradições.
Mas a pergunta central é: isso ajuda
ou atrapalha o campo democrático?
A política não é feita no laboratório da
pureza ideológica. Ela é feita no terreno real, contraditório, complexo, onde
alianças são não apenas desejáveis, mas necessárias.
Foi assim, inclusive, na vitória que
interrompeu o ciclo autoritário recente. A construção da chapa entre Lula e Alckmin
não foi um acidente. Foi uma escolha estratégica. Uma compreensão madura de
que, diante de uma ameaça maior, era preciso ampliar, somar, dialogar com
setores antes distantes.
E funcionou.
No entanto, o que vemos hoje é a
repetição de um comportamento que já foi criticado na própria história da
esquerda: o chamado “esquerdismo infantil”. Uma postura que, em nome de uma
suposta coerência absoluta, acaba isolando o campo progressista e dificultando
sua capacidade de disputar a sociedade.
Transformar divergências passadas em
impedimentos absolutos para alianças no presente é, na prática, entregar
terreno ao adversário.
Enquanto isso, o outro lado não tem
qualquer constrangimento em se reorganizar, se articular internacionalmente e
operar com foco total na retomada do poder.
A esquerda não pode se dar ao luxo de
lutar contra si mesma.
Isso não significa abrir mão de
princípios. Significa compreender prioridades. Significa saber diferenciar o
que é contradição superável do que é incompatibilidade estrutural.
A construção de uma frente ampla, capaz
de derrotar definitivamente o bolsonarismo e qualquer tentativa de regressão
autoritária, exige maturidade política, generosidade estratégica e, sobretudo,
compromisso com o povo brasileiro.
A história não será escrita pelos mais
“puros”. Será escrita por aqueles que entenderem o tamanho do desafio e tiverem
coragem de enfrentá-lo juntos.

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