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É evidente que, a partir de agora, bolsonaristas
de todos os cantos voltarão a aparecer, revitalizados pela possibilidade
concreta de derrotar Lula. Mas seria um erro atribuir esse resultado apenas à
força das redes, ao dinheiro, à máquina política ou à radicalização do
adversário. Tudo isso pode ter peso. Precisamos, inclusive, exigir
transparência absoluta sobre eventuais impulsionamentos, financiamento
estrangeiro, desinformação e qualquer conduta eleitoral irregular, deixando que
as instituições investiguem e apresentem provas. Mas existe uma pergunta
anterior, mais incômoda e muito mais importante. Por que uma parcela tão significativa do povo
ainda encontra na extrema direita uma resposta emocional para suas angústias?
Talvez esteja na hora de admitirmos que a extrema
direita compreendeu uma coisa que a esquerda, em determinados momentos,
esqueceu. A eleição não se ganha apenas
com indicadores econômicos, obras, programas sociais ou argumentos
racionalmente corretos. Política também é sentimento. É pertencimento. É
identidade. É esperança. É medo. É indignação.
O bolsonarismo aprendeu a falar diretamente com o
fígado do eleitor. Explora ressentimentos, inseguranças, medos e preconceitos,
muitas vezes de maneira irresponsável e criminosa. Mas consegue transformar
problemas complexos em narrativas simples.
Alguém é culpado, alguém está ameaçando você, alguém precisa ser
combatido. Enquanto isso, nós frequentemente respondemos com números,
realizações administrativas e uma linguagem que, embora correta, nem sempre
alcança o coração de quem está ouvindo.
Não estou dizendo que o PT deva abandonar suas
convicções. Estou dizendo exatamente o contrário. Precisamos reaprender a explicar por que elas
melhoram concretamente a vida das pessoas.
O trabalhador quer emprego e salário digno. A mãe
quer saber se haverá médico quando seu filho adoecer. O jovem quer
oportunidade, universidade, profissão e perspectiva. O aposentado quer
tranquilidade. A família quer comida na mesa e segurança para sair de casa. O
pequeno empreendedor quer crédito, mercado e condições para sobreviver. O
cidadão quer pagar seus impostos sabendo que o dinheiro retorna em serviços
públicos.
É nessa vida concreta que precisamos reencontrar
nossa política. E isso exige uma autocrítica que não pode ser adiada.
O PT precisa olhar para dentro de si e perguntar
se conseguiu politizar suas bases, formar novos militantes, ouvir suas
periferias e construir um projeto coletivo capaz de ir além dos interesses
eleitorais individuais. Não podemos permitir que o partido seja percebido como
uma soma de feudos parlamentares, cada qual cuidando de seu território,
enquanto a sociedade muda diante dos nossos olhos.
Partido político não pode existir
apenas durante a eleição.
Precisamos voltar às comunidades, aos sindicatos,
às universidades, às escolas, aos bairros, às associações, às igrejas, aos
pequenos negócios e aos locais de trabalho. Precisamos ouvir antes de falar.
Precisamos compreender antes de tentar convencer.
Também precisamos ter coragem para discutir nossas
próprias pautas. Não para abandonar direitos, mas para explicar suas razões e
dialogar com quem pensa diferente. Uma esquerda que não consegue conversar com
quem discorda dela entrega milhões de brasileiros ao discurso simplista da
extrema direita.
O eleitor não precisa concordar conosco em tudo. Ele
precisa voltar a acreditar que estamos falando com ele e não apenas sobre ele.
Há ainda outra questão que não pode ser ignorada. O ambiente eleitoral precisa ser
absolutamente democrático, transparente e equilibrado. Se houver indícios de
uso irregular de recursos, interferência estrangeira, impulsionamento
clandestino, abuso econômico ou qualquer outra ilegalidade, cabe às autoridades
investigar com independência e rigor. Não podemos combater a desinformação
utilizando outra forma de desinformação. Democracia exige verdade, inclusive
quando a verdade nos incomoda.
O resultado desta eleição, portanto, não deveria
produzir apenas indignação. Deveria produzir reflexão.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja
“como Flávio chegou ao primeiro lugar?”.
Talvez seja mais adequado perguntar:
“O que precisamos fazer para que o povo volte a
enxergar no PT não apenas um partido que governa, mas uma força política que
compreende suas dores, compartilha seus sonhos e oferece um caminho para o
futuro?”
A resposta não virá de uma reunião de dirigentes.
Não virá de uma campanha publicitária. Não virá apenas de Brasília. Ela precisa
nascer novamente na base.
Precisamos recuperar a capacidade de conversar com
o povo sobre aquilo que realmente mexe com sua vida. Precisamos oferecer
esperança sem vender ilusões, firmeza sem ódio, identidade sem intolerância e
um projeto de país que faça as pessoas sentirem que vale a pena lutar por ele.
A extrema direita está voltando a acreditar que
pode vencer.
Que isso sirva para nós não como motivo de
desespero, mas como um chamado à realidade.
Se queremos reconstruir a esperança popular,
primeiro precisamos reaprender a escutar o povo. A grande questão é se em menos
de 20 dias, vamos conseguir.
Concordo sem nunca perder a esperança.
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