segunda-feira, 5 de outubro de 2026

As urnas dizem pro PT: A extrema direita disputa o sentimento. A esquerda precisa voltar a disputar a esperança.

 

Imagem - UOL
Se o resultado das urnas colocou Flávio Bolsonaro em primeiro lugar, a primeira reação de qualquer militante do PT não deveria ser a negação. Deveria ser a pergunta: o que estamos deixando de enxergar?

É evidente que, a partir de agora, bolsonaristas de todos os cantos voltarão a aparecer, revitalizados pela possibilidade concreta de derrotar Lula. Mas seria um erro atribuir esse resultado apenas à força das redes, ao dinheiro, à máquina política ou à radicalização do adversário. Tudo isso pode ter peso. Precisamos, inclusive, exigir transparência absoluta sobre eventuais impulsionamentos, financiamento estrangeiro, desinformação e qualquer conduta eleitoral irregular, deixando que as instituições investiguem e apresentem provas. Mas existe uma pergunta anterior, mais incômoda e muito mais importante.  Por que uma parcela tão significativa do povo ainda encontra na extrema direita uma resposta emocional para suas angústias?

Talvez esteja na hora de admitirmos que a extrema direita compreendeu uma coisa que a esquerda, em determinados momentos, esqueceu.  A eleição não se ganha apenas com indicadores econômicos, obras, programas sociais ou argumentos racionalmente corretos. Política também é sentimento. É pertencimento. É identidade. É esperança. É medo. É indignação.

O bolsonarismo aprendeu a falar diretamente com o fígado do eleitor. Explora ressentimentos, inseguranças, medos e preconceitos, muitas vezes de maneira irresponsável e criminosa. Mas consegue transformar problemas complexos em narrativas simples.  Alguém é culpado, alguém está ameaçando você, alguém precisa ser combatido. Enquanto isso, nós frequentemente respondemos com números, realizações administrativas e uma linguagem que, embora correta, nem sempre alcança o coração de quem está ouvindo.

Não estou dizendo que o PT deva abandonar suas convicções. Estou dizendo exatamente o contrário.  Precisamos reaprender a explicar por que elas melhoram concretamente a vida das pessoas.

O trabalhador quer emprego e salário digno. A mãe quer saber se haverá médico quando seu filho adoecer. O jovem quer oportunidade, universidade, profissão e perspectiva. O aposentado quer tranquilidade. A família quer comida na mesa e segurança para sair de casa. O pequeno empreendedor quer crédito, mercado e condições para sobreviver. O cidadão quer pagar seus impostos sabendo que o dinheiro retorna em serviços públicos.

É nessa vida concreta que precisamos reencontrar nossa política. E isso exige uma autocrítica que não pode ser adiada.

O PT precisa olhar para dentro de si e perguntar se conseguiu politizar suas bases, formar novos militantes, ouvir suas periferias e construir um projeto coletivo capaz de ir além dos interesses eleitorais individuais. Não podemos permitir que o partido seja percebido como uma soma de feudos parlamentares, cada qual cuidando de seu território, enquanto a sociedade muda diante dos nossos olhos.

Partido político não pode existir apenas durante a eleição.

Precisamos voltar às comunidades, aos sindicatos, às universidades, às escolas, aos bairros, às associações, às igrejas, aos pequenos negócios e aos locais de trabalho. Precisamos ouvir antes de falar. Precisamos compreender antes de tentar convencer.

Também precisamos ter coragem para discutir nossas próprias pautas. Não para abandonar direitos, mas para explicar suas razões e dialogar com quem pensa diferente. Uma esquerda que não consegue conversar com quem discorda dela entrega milhões de brasileiros ao discurso simplista da extrema direita.

O eleitor não precisa concordar conosco em tudo. Ele precisa voltar a acreditar que estamos falando com ele e não apenas sobre ele.

Há ainda outra questão que não pode ser ignorada.  O ambiente eleitoral precisa ser absolutamente democrático, transparente e equilibrado. Se houver indícios de uso irregular de recursos, interferência estrangeira, impulsionamento clandestino, abuso econômico ou qualquer outra ilegalidade, cabe às autoridades investigar com independência e rigor. Não podemos combater a desinformação utilizando outra forma de desinformação. Democracia exige verdade, inclusive quando a verdade nos incomoda.

O resultado desta eleição, portanto, não deveria produzir apenas indignação. Deveria produzir reflexão.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja “como Flávio chegou ao primeiro lugar?”.

Talvez seja mais adequado perguntar:

“O que precisamos fazer para que o povo volte a enxergar no PT não apenas um partido que governa, mas uma força política que compreende suas dores, compartilha seus sonhos e oferece um caminho para o futuro?”

A resposta não virá de uma reunião de dirigentes. Não virá de uma campanha publicitária. Não virá apenas de Brasília. Ela precisa nascer novamente na base.

Precisamos recuperar a capacidade de conversar com o povo sobre aquilo que realmente mexe com sua vida. Precisamos oferecer esperança sem vender ilusões, firmeza sem ódio, identidade sem intolerância e um projeto de país que faça as pessoas sentirem que vale a pena lutar por ele.

A extrema direita está voltando a acreditar que pode vencer.

Que isso sirva para nós não como motivo de desespero, mas como um chamado à realidade.

Se queremos reconstruir a esperança popular, primeiro precisamos reaprender a escutar o povo. A grande questão é se em menos de 20 dias, vamos conseguir.

 

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