A cada período eleitoral, muitos
espíritas voltam a se perguntar qual deve ser sua postura diante da política.
Afinal, um espírita pode assumir um posicionamento político definido? É
possível ser progressista sem contrariar os ensinamentos de Allan Kardec? Ou a
Doutrina Espírita exige neutralidade absoluta diante das questões sociais?
A resposta exige uma reflexão
serena e, acima de tudo, fiel à obra kardequiana. O Espiritismo não nasceu como
uma doutrina política, nem pretendeu indicar partidos, candidatos ou modelos de
governo. Allan Kardec jamais procurou transformar a Doutrina em instrumento de
disputa ideológica. Ao contrário, preocupou-se em oferecer princípios morais
capazes de orientar o progresso espiritual do ser humano, preservando sempre a
liberdade de consciência e o uso da razão.
Isso, entretanto, não significa
que o espírita deva ser indiferente aos problemas da sociedade. O próprio
Espiritismo ensina que o progresso da humanidade ocorre simultaneamente em duas
dimensões. A do indivíduo e a das
instituições humanas. À medida que os Espíritos evoluem moralmente, também são
chamados a construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.
Em O Livro dos Espíritos,
Kardec apresenta a Lei de Justiça, Amor e Caridade como uma das leis morais que
regem a vida humana. Ensina também que todos os Espíritos são criados simples e
ignorantes, iguais perante Deus e destinados ao aperfeiçoamento. Não há
privilégios naturais entre os homens que justifiquem a exploração, a opressão
ou a negação da dignidade de qualquer pessoa.
Esses princípios possuem profundas
implicações sociais. Defender políticas que combatam a pobreza, ampliem
oportunidades, reduzam desigualdades, fortaleçam a educação, promovam a saúde
pública e garantam proteção aos mais vulneráveis pode ser uma consequência
natural da compreensão que muitos espíritas têm da lei de amor ao próximo. Para
esses espíritas, assumir uma posição progressista não representa abandonar
Kardec, mas procurar aplicar, na organização da sociedade, os valores de
fraternidade, solidariedade e justiça ensinados por Jesus e reafirmados pela
Doutrina Espírita.
Isso não significa afirmar que o
Espiritismo seja uma doutrina de esquerda ou que Kardec defenderia determinado
partido político. Tal conclusão não encontra respaldo em suas obras. O
Espiritismo oferece princípios, não programas de governo. Ele forma consciências,
não eleitorados. Cabe a cada indivíduo, utilizando sua inteligência, seu
conhecimento da realidade e sua consciência moral, escolher quais propostas
considera mais coerentes com esses princípios.
Da mesma forma, espíritas podem
chegar a conclusões políticas diferentes sem, por isso, deixarem de ser
sinceros seguidores da Doutrina. A diversidade de opiniões faz parte da
liberdade de consciência defendida por Kardec. O que não encontra amparo na ética
espírita é a intolerância, o fanatismo, o ódio, a mentira deliberada, a
perseguição aos adversários ou a utilização da religião como instrumento de
manipulação política.
O espírita deve lembrar que nenhum
candidato representa o bem absoluto e nenhum adversário encarna o mal absoluto.
A visão espírita convida à humildade, ao discernimento e à compreensão das
imperfeições humanas. Todos estamos em processo de evolução, inclusive aqueles
que exercem funções públicas.
Também é importante recordar que
Jesus jamais se omitiu diante das injustiças de seu tempo. Não organizou
partidos nem buscou o poder político, mas colocou-se sempre ao lado dos
marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos excluídos. Sua mensagem rompeu
estruturas sociais injustas ao proclamar que todos são filhos de Deus e
igualmente dignos de respeito e amor.
Inspirado por
esse exemplo, o espírita pode compreender que participar da vida política é
também uma forma de exercer a caridade.
Votar com responsabilidade, acompanhar os governantes, defender políticas
públicas que promovam o bem comum, combater a corrupção e exigir honestidade
dos representantes são formas legítimas de colaborar para o progresso coletivo.
Ser
progressista, portanto, não é incompatível com o Espiritismo. Tampouco ser conservador exclui alguém da vivência espírita. O
que define a fidelidade à Doutrina não é a posição ideológica, mas a maneira
como cada pessoa vive os ensinamentos de justiça, amor, caridade, respeito,
tolerância e fraternidade.
Nas próximas eleições, talvez a
pergunta mais importante não seja em quem votar, mas quais valores orientarão
essa escolha. O espírita coerente procurará candidatos e propostas que
respeitem a dignidade humana, promovam a paz, combatam as desigualdades sem
alimentar o ódio e fortaleçam uma sociedade onde todos possam desenvolver
plenamente suas potencialidades.
Em última análise, Kardec nos
convida a pensar antes de seguir, a raciocinar antes de repetir e a agir sempre
movidos pelo amor ao próximo. Se nossas escolhas políticas nascerem dessa
consciência, estaremos exercendo não apenas um direito de cidadania, mas também
um compromisso com o progresso moral da humanidade.
