sexta-feira, 31 de julho de 2026

Espiritismo e eleições: é possível ser progressista à luz de Kardec?

 

A cada período eleitoral, muitos espíritas voltam a se perguntar qual deve ser sua postura diante da política. Afinal, um espírita pode assumir um posicionamento político definido? É possível ser progressista sem contrariar os ensinamentos de Allan Kardec? Ou a Doutrina Espírita exige neutralidade absoluta diante das questões sociais?

A resposta exige uma reflexão serena e, acima de tudo, fiel à obra kardequiana. O Espiritismo não nasceu como uma doutrina política, nem pretendeu indicar partidos, candidatos ou modelos de governo. Allan Kardec jamais procurou transformar a Doutrina em instrumento de disputa ideológica. Ao contrário, preocupou-se em oferecer princípios morais capazes de orientar o progresso espiritual do ser humano, preservando sempre a liberdade de consciência e o uso da razão.

Isso, entretanto, não significa que o espírita deva ser indiferente aos problemas da sociedade. O próprio Espiritismo ensina que o progresso da humanidade ocorre simultaneamente em duas dimensões.  A do indivíduo e a das instituições humanas. À medida que os Espíritos evoluem moralmente, também são chamados a construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec apresenta a Lei de Justiça, Amor e Caridade como uma das leis morais que regem a vida humana. Ensina também que todos os Espíritos são criados simples e ignorantes, iguais perante Deus e destinados ao aperfeiçoamento. Não há privilégios naturais entre os homens que justifiquem a exploração, a opressão ou a negação da dignidade de qualquer pessoa.

Esses princípios possuem profundas implicações sociais. Defender políticas que combatam a pobreza, ampliem oportunidades, reduzam desigualdades, fortaleçam a educação, promovam a saúde pública e garantam proteção aos mais vulneráveis pode ser uma consequência natural da compreensão que muitos espíritas têm da lei de amor ao próximo. Para esses espíritas, assumir uma posição progressista não representa abandonar Kardec, mas procurar aplicar, na organização da sociedade, os valores de fraternidade, solidariedade e justiça ensinados por Jesus e reafirmados pela Doutrina Espírita.

Isso não significa afirmar que o Espiritismo seja uma doutrina de esquerda ou que Kardec defenderia determinado partido político. Tal conclusão não encontra respaldo em suas obras. O Espiritismo oferece princípios, não programas de governo. Ele forma consciências, não eleitorados. Cabe a cada indivíduo, utilizando sua inteligência, seu conhecimento da realidade e sua consciência moral, escolher quais propostas considera mais coerentes com esses princípios.

Da mesma forma, espíritas podem chegar a conclusões políticas diferentes sem, por isso, deixarem de ser sinceros seguidores da Doutrina. A diversidade de opiniões faz parte da liberdade de consciência defendida por Kardec. O que não encontra amparo na ética espírita é a intolerância, o fanatismo, o ódio, a mentira deliberada, a perseguição aos adversários ou a utilização da religião como instrumento de manipulação política.

O espírita deve lembrar que nenhum candidato representa o bem absoluto e nenhum adversário encarna o mal absoluto. A visão espírita convida à humildade, ao discernimento e à compreensão das imperfeições humanas. Todos estamos em processo de evolução, inclusive aqueles que exercem funções públicas.

Também é importante recordar que Jesus jamais se omitiu diante das injustiças de seu tempo. Não organizou partidos nem buscou o poder político, mas colocou-se sempre ao lado dos marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos excluídos. Sua mensagem rompeu estruturas sociais injustas ao proclamar que todos são filhos de Deus e igualmente dignos de respeito e amor.

Inspirado por esse exemplo, o espírita pode compreender que participar da vida política é também uma forma de exercer a caridade. Votar com responsabilidade, acompanhar os governantes, defender políticas públicas que promovam o bem comum, combater a corrupção e exigir honestidade dos representantes são formas legítimas de colaborar para o progresso coletivo.

Ser progressista, portanto, não é incompatível com o Espiritismo. Tampouco ser conservador exclui alguém da vivência espírita. O que define a fidelidade à Doutrina não é a posição ideológica, mas a maneira como cada pessoa vive os ensinamentos de justiça, amor, caridade, respeito, tolerância e fraternidade.

Nas próximas eleições, talvez a pergunta mais importante não seja em quem votar, mas quais valores orientarão essa escolha. O espírita coerente procurará candidatos e propostas que respeitem a dignidade humana, promovam a paz, combatam as desigualdades sem alimentar o ódio e fortaleçam uma sociedade onde todos possam desenvolver plenamente suas potencialidades.

Em última análise, Kardec nos convida a pensar antes de seguir, a raciocinar antes de repetir e a agir sempre movidos pelo amor ao próximo. Se nossas escolhas políticas nascerem dessa consciência, estaremos exercendo não apenas um direito de cidadania, mas também um compromisso com o progresso moral da humanidade.

 

Espiritismo e eleições: é possível ser progressista à luz de Kardec?

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