segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O projeto progressista sob ameaça

 

Há uma disputa eleitoral acontecendo nas ruas, nos debates, na televisão e nas pesquisas. Mas existe outra disputa, silenciosa, implacável e permanente, acontecendo dentro dos celulares de cada brasileiro.

Essa é sem dúvida, uma das maiores mudanças na maneira de fazer política. E aqui reside um risco terrível que o campo progressista e popular, mesmo estando mobilizado nas ruas, cheio de pessoas bem-intencionadas e portadoras de bandeiras legítimas, muitas vezes não está enxergando com a devida urgência.

Na rua, conseguimos conversar com dezenas, centenas ou, em um grande ato, milhares de pessoas. Nas redes, uma mensagem pode entrar simultaneamente na casa, no trabalho, na faculdade e no momento de descanso de milhões.

O celular acompanha as pessoas o dia inteiro. Está na mão, no bolso, sobre a mesa e ao lado da cama. A disputa política passou a seguir o eleitor onde quer que ele esteja.

As redes sociais aprendem com o que fazemos.  O que curtimos, compartilhamos, comentamos e assistimos até o fim. Os algoritmos utilizam esses sinais para nos entregar mais do mesmo, criando uma sensação enganosa de realidade.

Se todos os vídeos na nossa tela dizem que o nosso candidato está disparado ou que o adversário é a ruína do país, podemos acreditar que o Brasil inteiro pensa assim. Mas a nossa timeline não é o país é apenas uma janela personalizada.

Informações falsas são produzidas cirurgicamente para provocar indignação e medo, ou apatia e sensação de “já ganhou” gerando engajamento rápido. Antes de compartilhar algo só porque confirma o que gostaríamos que fosse verdade, precisamos nos perguntar: “Eu estou divulgando porque é um fato ou porque é conveniente pro meu modo de pensar?”

O grande perigo atual é o descompasso estratégico. Enquanto a militância de esquerda faz o trabalho árduo e fundamental nas ruas, o campo conservador e de extrema-direita tem dominado a engenharia de distribuição de conteúdo nas telas com métodos industriais de desinformação.

Se a esquerda gasta suas horas de internet apenas replicando conteúdos para quem já vota nela, ela está pregando para convertidos. É isso o que fazemos quando compartilhamos só coisas sobre nosso candidato.

Achar que a pureza dos argumentos de rua se traduz automaticamente em alcance digital é um erro fatal. O adversário não joga limpo.  Ele empacota o ódio, simplifica inverdades e atinge o eleitor indeciso ou desatento com uma frequência avassaladora.

Em uma disputa tão apertada, como mostram os cenários entre Lula e Flávio Bolsonaro, não há espaço para acomodação baseada naquilo que aparece na nossa própria bolha.

Para derrotar esse cenário de risco, a mobilização precisa ser completa. Sair da bolha em primeiro lugar. É preciso produzir conteúdos que falem com quem não concorda conosco, focando em diálogo, empatia e clareza.

Responder à manipulação e à mentira com dados, propostas e resultados concretos, mas sem cair na tentação de replicar o jogo rasteiro do adversário.

Presença digital não é apenas publicar notas oficiais. É disputar atenção, simplificar mensagens complexas, escutar e estar presente onde o eleitor comum consome informação cotidiana.

A tecnologia pode até tentar moldar o que aparece diante dos nossos olhos, mas a decisão sobre o futuro do país continua sendo nossa. Em uma eleição tão acirrada, não podemos permitir que a mentira chegue mais longe do que a verdade simplesmente porque foi melhor empacotada nas redes.

O engajamento popular de rua continua tendo alma e calor humano insubstituíveis, mas a vitória política hoje exige as duas frentes: a sola de sapato na calçada e a inteligência estratégica na tela.

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