Há
uma disputa eleitoral acontecendo nas ruas, nos debates, na televisão e nas
pesquisas. Mas existe outra disputa, silenciosa, implacável e permanente,
acontecendo dentro dos celulares de cada brasileiro.
Essa
é sem dúvida, uma das maiores mudanças na maneira de fazer política. E aqui
reside um risco terrível que o campo progressista e popular, mesmo estando
mobilizado nas ruas, cheio de pessoas bem-intencionadas e portadoras de
bandeiras legítimas, muitas vezes não está enxergando com a devida urgência.
Na
rua, conseguimos conversar com dezenas, centenas ou, em um grande ato, milhares
de pessoas. Nas redes, uma mensagem pode entrar simultaneamente na casa, no
trabalho, na faculdade e no momento de descanso de milhões.
O
celular acompanha as pessoas o dia inteiro. Está na mão, no bolso, sobre a mesa
e ao lado da cama. A disputa política passou a seguir o eleitor onde quer que
ele esteja.
As
redes sociais aprendem com o que fazemos.
O que curtimos, compartilhamos, comentamos e assistimos até o fim. Os
algoritmos utilizam esses sinais para nos entregar mais do mesmo, criando uma
sensação enganosa de realidade.
Se
todos os vídeos na nossa tela dizem que o nosso candidato está disparado ou que
o adversário é a ruína do país, podemos acreditar que o Brasil inteiro pensa
assim. Mas a nossa timeline não é o país é apenas uma janela
personalizada.
Informações
falsas são produzidas cirurgicamente para provocar indignação e medo, ou apatia
e sensação de “já ganhou” gerando engajamento rápido. Antes de compartilhar
algo só porque confirma o que gostaríamos que fosse verdade, precisamos nos
perguntar: “Eu estou divulgando porque é um fato ou porque é conveniente pro
meu modo de pensar?”
O
grande perigo atual é o descompasso estratégico. Enquanto a militância de
esquerda faz o trabalho árduo e fundamental nas ruas, o campo conservador e de
extrema-direita tem dominado a engenharia de distribuição de conteúdo nas telas
com métodos industriais de desinformação.
Se
a esquerda gasta suas horas de internet apenas replicando conteúdos para quem já
vota nela, ela está pregando para convertidos. É isso o que fazemos quando compartilhamos
só coisas sobre nosso candidato.
Achar
que a pureza dos argumentos de rua se traduz automaticamente em alcance digital
é um erro fatal. O adversário não joga limpo.
Ele empacota o ódio, simplifica inverdades e atinge o eleitor indeciso
ou desatento com uma frequência avassaladora.
Em
uma disputa tão apertada, como mostram os cenários entre Lula e Flávio
Bolsonaro, não há espaço para acomodação baseada naquilo que aparece na nossa
própria bolha.
Para derrotar esse cenário de risco, a mobilização
precisa ser completa. Sair da bolha em primeiro lugar. É preciso produzir
conteúdos que falem com quem não concorda conosco, focando em diálogo, empatia
e clareza.
Responder
à manipulação e à mentira com dados, propostas e resultados concretos, mas sem
cair na tentação de replicar o jogo rasteiro do adversário.
Presença
digital não é apenas publicar notas oficiais. É disputar atenção, simplificar
mensagens complexas, escutar e estar presente onde o eleitor comum consome
informação cotidiana.
A
tecnologia pode até tentar moldar o que aparece diante dos nossos olhos, mas a
decisão sobre o futuro do país continua sendo nossa. Em uma eleição tão
acirrada, não podemos permitir que a mentira chegue mais longe do que a verdade
simplesmente porque foi melhor empacotada nas redes.
O
engajamento popular de rua continua tendo alma e calor humano insubstituíveis,
mas a vitória política hoje exige as duas frentes: a sola de sapato na calçada
e a inteligência estratégica na tela.

Excelente reflexão
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