sexta-feira, 8 de maio de 2026

Juventude velhaca ou envelhecida?

Jovens na Fila dos Cartórios - 1º título eleitoral
Imagem - Agência Nacional

Existe algo de profundamente inquietante no nosso tempo. Uma parcela da juventude brasileira, que deveria representar rebeldia contra injustiças, defesa de direitos e abertura ao novo, parece caminhar na direção oposta.  Abraça discursos autoritários, veste símbolos da extrema-direita e em muitos casos, transforma a intolerância em identidade política.

A pergunta que surge é inevitável: o que está acontecendo?

Talvez estejamos diante de uma juventude sem memória histórica. Jovens que não viveram os anos duros da ditadura militar brasileira e que, por isso, não conseguem dimensionar o peso da censura, da tortura, da perseguição política e da ausência de liberdade. Da mesma forma, muitos desconhecem as consequências sociais da hiperinflação do governo Sarney, do confisco da poupança promovido por Fernando Collor de Mello ou dos desmontes trabalhistas e previdenciários ocorridos durante o governo Michel Temer.

Sem essa memória, parte da juventude passa a enxergar a política apenas pela superfície das redes sociais, dos cortes rápidos, dos memes e da estética do confronto. E isso é decisivo. A extrema-direita compreendeu antes de muitos setores progressistas que, no mundo digital, emoção mobiliza mais do que argumento. Raiva, medo, sensação de pertencimento e discurso simplificado têm enorme poder de sedução, principalmente em tempos de insegurança econômica, ansiedade social e crise de perspectivas.

Há também um elemento psicológico importante.  Muitos jovens cresceram em um ambiente de hipercompetição, individualismo e frustração. Encontram dificuldade de inserção econômica, convivem com trabalhos precarizados e vivem sob constante pressão por desempenho e reconhecimento. Nesse contexto, discursos autoritários oferecem algo sedutor.  Respostas fáceis para problemas complexos e a falsa sensação de força e identidade.

Isso não significa que toda juventude conservadora seja “descerebrada”, como muitas vezes a indignação nos leva a afirmar. Seria um erro repetir a mesma lógica de desumanização que criticamos. O desafio talvez seja outro.  Compreender como uma geração conectada a tudo pode, paradoxalmente, estar desconectada da própria história.

Também existe uma falha das forças democráticas e progressistas. Durante muito tempo, acreditou-se que avanços sociais falariam por si mesmos. Mas direitos sem memória política se tornam frágeis. Quando a história deixa de ser ensinada de maneira viva, emocional e concreta, ela passa a parecer distante, abstrata e irrelevante para quem não a viveu.

O resultado é uma juventude que, em alguns casos, envelhece antes do tempo. Não biologicamente, mas moral e politicamente. Jovens que deveriam sonhar com mais liberdade acabam defendendo controle. Que deveriam ampliar direitos acabam relativizando desigualdades.  Que deveriam combater opressões acabam reproduzindo intolerância.

Ainda assim, seria injusto transformar essa reflexão numa condenação definitiva da juventude. Há milhares de jovens organizados em movimentos sociais, universidades, coletivos culturais e lutas populares. A disputa está em aberto. E talvez a saída não esteja em desprezar ou ridicularizar quem pensa diferente, mas em reconstruir pontes de diálogo, memória e consciência crítica.

Porque nenhuma geração nasce pronta. Toda juventude é, antes de tudo, um território em disputa.

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