Há dez anos, uma conversa com meu filho, suscitou um artigo que publiquei nesse mesmo espaço. Outro dia, no entanto, numa conversa dessas despretensiosas, alguém me fez uma pergunta bem parecida com a dele e que, à primeira vista, parecia simples:
“Me explica uma coisa… qual a diferença entre
direita, esquerda… e essa tal de extrema-direita que todo mundo fala?”
Já não era uma criança. Era um adulto,
trabalhador, atento ao que acontece no país, mas como tantos outros,
atravessado por um excesso de informação e uma escassez de explicação.
Na hora, percebi que aquela dúvida era maior do
que parecia. Porque não era só dele. Era de milhões.
Durante muito tempo, se acreditou que todo mundo
sabia o que era direita e esquerda. Mas o mundo mudou. Depois do fim da Guerra
Fria, os discursos se misturaram, os partidos se adaptaram e a política passou
a ser consumida mais como disputa de narrativas do que como debate de ideias.
E, mais recentemente, um novo elemento ganhou
força: a extrema-direita.
Foi por aí que comecei.
Disse que, de forma direta, a esquerda é o campo
político que entende que as desigualdades sociais, como a de renda, de
oportunidade, de acesso são um problema central da sociedade. Por isso, defende
que o Estado e as políticas públicas devem atuar para reduzir essas diferenças
e garantir condições mais justas para todos.
Já a direita, embora também reconheça problemas
sociais, tende a valorizar mais a liberdade individual, o mérito e a
preservação das estruturas existentes, como o mercado, a propriedade privada e
as tradições. Para esse campo, mudanças muito bruscas podem gerar mais
problemas do que soluções.
Ele acompanhava com atenção. Até aqui, fazia
sentido.
Então avancei para o ponto que mais gera confusão
hoje em dia. A extrema-direita.
Expliquei que a extrema-direita não é apenas uma
“direita mais forte” ou mais enfática. Ela representa uma ruptura com algumas
regras básicas da convivência democrática.
Enquanto a direita tradicional atua dentro das
regras do jogo como eleições, instituições, respeito às leis, a extrema-direita
tende a questionar essas próprias regras quando elas não lhe favorecem. Muitas
vezes, aposta na desconfiança generalizada, no ataque a instituições, na
criação de inimigos internos e na ideia de que só um grupo ou liderança
representa “o povo de verdade”.
Além disso, costuma simplificar problemas
complexos, oferecendo respostas rápidas e emocionais, quase sempre baseadas no
medo, na raiva ou na exclusão.
Ele interrompeu:
“Então extrema-direita é a mesma coisa que
ditadura?”
Respondi que não necessariamente, mas pode
caminhar nessa direção se não houver limites. A história mostra que movimentos
desse tipo, quando chegam ao poder sem freios, podem enfraquecer a democracia,
concentrar poder e reduzir direitos.
Seguimos.
Disse que, na prática, essas três posições:
esquerda, direita e extrema-direita, não são caixinhas perfeitas. Existem
misturas, contradições e, muitas vezes, oportunismo político. No Brasil, não é
raro ver discursos que mudam conforme a conveniência.
Ele riu. Porque isso é fácil de reconhecer.
A certa altura, veio a pergunta inevitável:
“E quem está certo nisso tudo?”
Respondi com honestidade que não existe resposta
simples.
Se você acredita que o principal problema da
sociedade é a desigualdade, tende a se aproximar da esquerda. Se valoriza mais o
pensamento individual e a estabilidade das regras, pode se identificar com a
direita. Mas se alguém começa a dizer que só um grupo tem legitimidade, que
instituições não importam ou que regras podem ser ignoradas, é preciso acender
o alerta, porque aí já não estamos mais falando apenas de posição política, mas
de risco democrático.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos,
absorvendo.
Então veio outra pergunta:
“E os corruptos? Estão de que lado?”
A resposta, infelizmente, continuou a mesma. De todos.
Corrupção não é ideologia. É desvio de caráter e
de prática. Está onde há poder sem controle, seja à esquerda, à direita ou em
qualquer outro espaço. Onde há seres humanos, há o risco de distorções, de
egoísmo, de valorização individual ou de querer mais do que deve.
Já no fim da conversa, ele soltou uma frase que
ficou na minha cabeça:
“Engraçado… parece que o problema não é entender.
É que ninguém explica assim.”
Talvez seja isso.
Durante muito tempo, a política foi reduzida a
rótulos, slogans e brigas superficiais. E, nesse vazio, cresceram certezas
fáceis e confusões profundas.
Expliquei, então, que entender essas diferenças
não é escolher um time, mas compreender como diferentes visões tentam responder
às mesmas perguntas:
Quem deve ter mais? Quem decide as regras? E até
onde essas regras devem ser respeitadas?
Quando a gente abandona essas perguntas, a
política vira torcida. Quando enfrenta essas questões de frente, ela volta a
ser escolha.
No fim, ele não disse de que lado estava. Nem eu
perguntei.
Mas saí dali com a sensação de que algo
importante tinha acontecido. Não porque ele passou a concordar comigo, que sou
declaradamente um homem de esquerda, posto que sou humanista. Mas porque,
talvez pela primeira vez, ele teve ferramentas para pensar por conta própria.
E, em tempos como os nossos, isso já é muita
coisa.

Análise perfeita amigo. 👏👏
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