sexta-feira, 27 de março de 2026

O Dilema da Comunicação na Era da Extrema-Direita


 A política brasileira vive mais um momento decisivo, em que se desenham pré-candidaturas e se reorganizam projetos de país.

Nesse cenário, uma dúvida recorrente emerge entre militantes, comunicadores e lideranças.  Criticar duramente a extrema-direita ajuda a derrotá-la ou, ao contrário, contribui para fortalecê-la?

A experiência recente do Brasil sugere que a resposta exige cautela. A ascensão de Bolsonaro demonstrou que a visibilidade, mesmo quando carregada de rejeição, pode funcionar como combustível político. Ao se apresentar como alvo de ataques permanentes, ele consolidou uma narrativa de enfrentamento ao “sistema”, mobilizando afetos e fidelidades que extrapolam o debate racional. Não por acaso, movimentos de grande repercussão, como o “Ele Não”, embora legítimos e necessários, também ampliaram seu alcance e presença no debate público.

Esse fenômeno não é novo. Paulo Maluf já sintetizava essa lógica ao afirmar que não importa se falam bem ou mal, desde que falem. Em contextos de alta polarização e intensa circulação de conteúdos, a repetição de nomes e imagens, ainda que em tom negativo, pode reforçar reconhecimento e familiaridade junto ao eleitorado.

Diante disso, a tarefa colocada para o campo democrático e popular não é silenciar diante dos erros e ameaças da extrema-direita, mas qualificar a forma de intervenção política. A crítica precisa deixar de ser reativa e passar a ser estratégica. Em vez de apenas amplificar declarações polêmicas ou comportamentos grotescos, é necessário contextualizar, comparar e, sobretudo, apresentar alternativas concretas que dialoguem com a vida real das pessoas.

Nesse sentido, as pré-candidaturas de Lula e Haddad devem orientar a disputa para o terreno programático, onde a política pública, o desenvolvimento econômico e a melhoria das condições de vida possam ocupar o centro do debate. Mais do que reagir à agenda adversária, é preciso construir uma agenda própria, capaz de mobilizar esperança, confiança e pertencimento.

A comunicação política eficaz não se limita a denunciar.  Ela organiza sentidos. Criticar é necessário, mas insuficiente. É preciso disputar narrativas, valores e projetos de futuro. Quando a crítica se transforma em mera repetição do adversário, ainda que negativa, ela corre o risco de reforçar aquilo que pretende combater. Quando, ao contrário, se articula com proposta, identidade e direção, ela cumpre seu papel democrático de esclarecer e mobilizar.

O desafio, portanto, não está em falar menos sobre a extrema-direita, mas em falar melhor, com intencionalidade, inteligência e compromisso com o país que se deseja construir.

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