sábado, 21 de fevereiro de 2026

Onde Está a Justiça Mundial? Reflexões sobre Soberania, Poder e Silêncios Globais


Nos primeiros dias de 2026, o mundo assistiu a um acontecimento histórico e ao mesmo tempo alarmante.  A ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa em Caracas e na sua transferência para um tribunal em Nova York sob acusações federais, entre elas narcoterrorismo e conspiração para tráfico de drogas.

O episódio desencadeou um debate internacional profundo sobre soberania, direito internacional e padrões duplos de intervenção, que revela tensões e contradições na chamada ordem mundial.

Soberania Nacional vs. Intervenção Imperial

De acordo com diversos líderes e análises diplomáticas, a operação dos EUA constitui uma clara violação da soberania venezuelana. Autoridades brasileiras qualificaram o episódio como uma afronta ao direito internacional e um precedente perigoso para a estabilidade regional, ressaltando que nenhum país soberano deve ser alvo de intervenção militar externa, mesmo diante de acusações criminais graves.

Ligado a narrativas de segurança e “guerra ao narcotráfico”, o caso Maduro é apresentado por Washington como uma ação de “aplicação da lei” além-fronteiras, mas para muitos observadores é também expressão de uma lógica de hegemonia.  Países poderosos sentem-se com autoridade para impor sua justiça e seus interesses, muitas vezes à custa dos princípios que proclamam defender.

A Disputa pela Narração da História

A prisão de Maduro não ocorre em vácuo histórico. A política externa dos EUA tem sido marcada por intervenções repetidas, do Oriente Médio à América Latina, frequentemente justificadas por discursos de combate ao terrorismo, direitos humanos ou defesa da democracia. Análises publicadas por observadores internacionais apontam a ação na Venezuela como continuadora dessa tradição intervencionista sob a fachada de legalidade, enquanto interesses econômicos e geoestratégicos permanecem centrais.

Essa disputa simbólica, quem conta a história, quem define “crimes” e quem detém poder para julgar é parte de um problema maior.  A justiça global tende a ser aplicada de forma seletiva, dependendo da posição geopolítica de cada Estado e de seus aliados.

O Caso Epstein e a Justiça Interna dos Poderosos

Enquanto acusações de intervenção e violação de soberania dominam manchetes geopolíticas, outro escândalo de incrustações de poder e impunidade segue resonando nos EUA e em vários países.  A divulgação de grandes volumes de documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein, que expõem uma vasta rede de contatos entre o financiador condenado por tráfico sexual de menores e figuras políticas, empresariais e sociais influentes.

Mesmo com milhões de páginas divulgadas e material que inclui contatos de centenas de personalidades de destaque, a resposta institucional tem sido, até agora, morna e fragmentada, com investigações tardias, omissões e indefinições. A divulgação desses arquivos revelou ligações com figuras como Donald Trump, Bill Clinton, o irmão do Rei Charles e outras personalidades poderosas, muitas das quais ainda não enfrentaram responsabilização judicial plena por suas associações ou comportamentos supostamente revelados nos documentos.

Esse contraste evidencia outra faceta do que poderíamos chamar de falta de justiça global.  Quando os próprios Estados Unidos, que agora prendem um presidente estrangeiro em solo americano, enfrentam denúncias de conivência, de favorecimento ou de encobrimento de abusos cometidos por membros da sua elite política e econômica, o sistema de justiça internacional se vê questionado não apenas na letra da lei, mas na sua aplicação.

O Silêncio Global diante de Crises Humanitárias

Paralelamente a tudo isso, o mundo tem se mostrado profundamente insuficiente em enfrentar outro acontecimento humanitário de proporções dramáticas.  A crise em Gaza, onde milhares de civis palestinos morreram, feridos e deslocados. Organizações internacionais e redes de direitos humanos têm denunciado a escala das violações e pedem urgência em medidas protetivas, mas o silêncio ou a insuficiência de ações de algumas potências e organismos multilaterais expõe uma disparidade gritante.  Grandes intervenções militares e processos judiciais ocorrem rapidamente quando os interesses de nações poderosas estão em jogo, enquanto genocídios, guerras prolongadas e violência contra populações civis muitas vezes encontram apenas respostas diplomáticas tímidas. Relatórios de direitos humanos têm documentado extensivamente essas violações.

Justiça: Universal ou Seletiva?

A questão que se impõe, então, é esta.  A justiça internacional é um princípio universal ou um instrumento de poder? Quando um presidente estrangeiro é preso em solo americano em nome da lei federal, mas elites domésticas poderosas parecem escapar de consequências proporcionais por escândalos de abusos e redes de exploração, quando crimes contra populações civis recebem respostas tímidas, as instituições que deveriam defender a universalidade da justiça, como o Organização das Nações Unidas ou o Tribunal Penal Internacional, parecem incapazes de fazer valer princípios básicos de igualdade perante a lei.

A reflexão não pode ser apenas moral ou retórica.  Ela precisa ser prática.  Como reconstruir uma ordem global em que soberania, direitos humanos e justiça sejam aplicados com imparcialidade? Como garantir que poder econômico ou político não impeça a responsabilização justa? E como assegurar que o sofrimento de povos inteiros não seja relegado ao silêncio?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quando o samba vira memória, resistência e esperança

Imagem - Revista Veja
A Avenida não é apenas um palco de espetáculo.  É também território simbólico do Brasil profundo. E quando uma escola de samba transforma seu desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que se vê não é apenas exaltação de uma liderança política. É a expressão de uma narrativa histórica construída nas lutas populares, nos sindicatos, nas periferias e nos movimentos sociais que moldaram o país contemporâneo.

A apresentação da Acadêmicos de Niterói no Sambódromo da Marquês de Sapucaí foi mais do que um desfile. Foi afirmação cultural. O samba, que nasceu marginalizado, perseguido e criminalizado, sempre foi espaço de resistência. Quando ele ocupa a Avenida para homenagear um líder identificado com as camadas populares, ele reafirma seu papel histórico de dar voz aos que nem sempre tiveram voz.

O Carnaval é, por essência, político, não no sentido partidário estreito, mas no sentido mais profundo da palavra. O de debater a vida coletiva. Ao longo das décadas, as escolas de samba denunciaram desigualdades, celebraram conquistas sociais, revisitaram a história sob o olhar do povo e provocaram reflexões sobre os rumos do país. É natural, portanto, que também enfrentem visões conservadoras que tentam reduzir a cultura popular a entretenimento vazio.

A homenagem na Sapucaí reafirma algo que incomoda setores da direita. A esquerda popular brasileira não é um fenômeno de gabinete. Ela é cultural, simbólica, enraizada. Está nas comunidades que constroem carros alegóricos durante meses, nos trabalhadores que costuram fantasias, nos compositores que traduzem em verso e tamborim as dores e esperanças de uma nação desigual.

Provocar o bolsonarismo dentro da estética do samba não é apenas disputa política.  É disputa de narrativa histórica. É dizer que o Brasil não se resume ao medo, à intolerância ou ao negacionismo. Há um Brasil que canta, que defende políticas sociais, que valoriza a educação pública, que acredita na inclusão e na democracia.

A Sapucaí mostrou, mais uma vez, que o Carnaval não é fuga da realidade, mas interpretação dela. E quando a arte assume lado, assume também responsabilidade histórica. Defender a esquerda popular brasileira é defender a ideia de que o país pode ser mais justo, mais solidário e mais plural.

O samba ensinou isso há muito tempo.  Enquanto houver tamborim e voz coletiva, haverá resistência. E resistência, no Brasil, também se faz em forma de desfile. 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Carnaval - fé, cultura e alegria do povo brasileiro

Bloco do Vasco - São José do Rio Preto 

Todos os anos, quando fevereiro se aproxima, o Brasil se transforma. Ruas ganham cores, ritmos ecoam nos bairros, famílias inteiras se reúnem e milhões de trabalhadores encontram no Carnaval não apenas uma festa, mas uma expressão legítima de cultura, identidade e pertencimento.

O Carnaval brasileiro é, antes de tudo, uma manifestação popular. Nasceu do encontro de tradições europeias, africanas e indígenas, foi moldado pela criatividade do povo e consolidou-se como patrimônio cultural reconhecido mundialmente. Reduzi-lo a estereótipos de exagero, descontrole ou promiscuidade é desconhecer sua história e ignorar a realidade da maioria que participa dele.

Quem frequenta blocos de rua sabe.  Ali estão famílias, crianças fantasiadas, idosos animados, trabalhadores que passaram o ano inteiro lutando e encontram alguns dias de descanso e celebração coletiva. É a costureira que preparou a fantasia do filho, o ambulante que reforça sua renda, o músico que vive de sua arte, o comerciante que aquece seu caixa. O Carnaval movimenta a economia, fortalece o turismo e sustenta milhares de empregos diretos e indiretos nas grandes cidades e no interior.

Os desfiles das escolas de samba, por sua vez, são verdadeiras obras de arte a céu aberto. Envolvem planejamento, investimento, geração de renda e, sobretudo, trabalho coletivo. São meses de dedicação de comunidades inteiras para entregar espetáculos que projetam o Brasil para o mundo.

É claro que, como em qualquer grande evento, podem ocorrer excessos individuais. Mas isso não define a essência da festa. Generalizar é injusto com milhões de brasileiros que celebram com responsabilidade e respeito.

Também é importante lembrar que fé e cultura popular nunca foram inimigas. O Brasil é um país de maioria cristã e profundamente festivo. Alegria, música e convivência comunitária não são sinônimos de pecado. O próprio calendário cristão situa o Carnaval como período anterior à Quaresma, dentro de uma tradição histórica que atravessa séculos.

Para muitos cristãos, participar do Carnaval não significa abandonar valores, mas viver a alegria de forma consciente, com responsabilidade e fraternidade. Demonizar a festa como algo “anticristão” ignora que ela é, sobretudo, encontro humano, arte e expressão cultural.

O Carnaval de rua contemporâneo é democrático. Não é espaço de elite restrita nem privilégio de poucos. É manifestação aberta, plural, onde o trabalhador ocupa o espaço público com música, criatividade e celebração. É o Brasil que canta, dança e resiste.

Defender o Carnaval é defender a cultura popular, a economia criativa, o turismo, o direito à cidade e a alegria coletiva. É reconhecer que um povo que trabalha duro também merece celebrar junto.

Porque, no fim das contas, o Carnaval é isso.  Gente simples, reunida, celebrando a vida.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Porque o Partido dos Trabalhadores segue sendo necessário ao Brasil.

O Partido dos Trabalhadores completa mais um aniversário reafirmando uma trajetória que se confunde com a própria história da democracia brasileira. Fundado em 1980, em plena ditadura militar, o PT nasceu como um fato político inédito. Um partido criado a partir da organização dos trabalhadores, dos movimentos sociais, do sindicalismo combativo, de intelectuais comprometidos com a transformação social e de setores progressistas da Igreja.

Diferente dos partidos tradicionais, o PT surgiu não para administrar privilégios, mas para enfrentá-los, defendendo uma democracia que ultrapassasse o voto e alcançasse participação popular real. Teve papel decisivo na redemocratização, participou ativamente da Constituinte e foi protagonista na defesa dos direitos sociais inscritos na Constituição de 1988. Saúde, educação, previdência, assistência social, direitos trabalhistas e liberdades democráticas.

Antes mesmo de chegar ao Governo Federal, o PT já demonstrava, em prefeituras e governos estaduais, que era possível governar com participação popular, transparência e prioridade aos interesses coletivos. No plano nacional, promoveu o maior ciclo de inclusão social da história do país. Milhões saíram da fome e da extrema pobreza, o salário mínimo teve valorização real, o SUS foi fortalecido, o Bolsa Família tornou-se referência mundial, o acesso à universidade foi ampliado e o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU.

Essa história nacional também se reflete em Rio Preto. Fundado nos primeiros anos da redemocratização, o PT local consolidou-se como referência na defesa dos direitos sociais e no enfrentamento às desigualdades. Ao longo de sua trajetória, participou ativamente dos debates sobre políticas públicas, formou lideranças comprometidas com a cidade e manteve viva a participação popular, mesmo nos momentos mais adversos.

Na Câmara, nos movimentos sociais, nas entidades sindicais e nas lutas cotidianas da cidade, o PT de Rio Preto sempre representou uma alternativa democrática e popular frente aos interesses conservadores que historicamente dominaram a política local.

Celebrar o aniversário do Partido dos Trabalhadores é reafirmar um compromisso com o futuro, com a democracia, com a justiça social, com a soberania nacional e com a construção de um Brasil e de uma Rio Preto mais justos, solidários e inclusivos.

O PT não é um partido perfeito, mas é um partido necessário. Necessário porque nasceu do povo, cresceu com o povo e continua sendo uma das principais ferramentas de transformação social no Brasil.

Publicado no Diário da Região - 10/01/2026

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Ubatuba. Lugar onde o tempo desacelera e a alma respira.

 

Praia do Lázaro

Há viagens que não são apenas deslocamentos no mapa. São travessias internas.
A nossa, em família, para Ubatuba, foi assim.  Um encontro entre mar, afeto e silêncio bom, daquele que fala mais do que palavras.

Com os anfitriões
Fomos eu, Bianca, meus filhos Gabriel, Rafael e Daniel, minha enteada Heloísa, atendendo ao convite generoso do meu irmão Marcelo e da minha sobrinha Annia Yeva.

Ficamos na Praia do Lázaro, em uma casa acolhedora, dessas que parecem já conhecer a gente antes mesmo da chegada.
Ali, o tempo decidiu andar descalço.

Entre idas e vindas, deixamos que os dias se organizassem sozinhos. Visitamos a Sununga, com seu mar intenso e misterioso, e a vizinha Domingas Dias, onde a água parece sempre convidar à contemplação.
Sununga ao entardecer

Em um desses dias, fomos à cidade.  Almoço simples, conversa boa e um encontro especial. Daniel conheceu, finalmente, um amigo que até então existia apenas pelas linhas invisíveis da internet. Um abraço que atravessou telas.


À tarde, a Praia Grande nos recebeu com ondas estonteantes, dessas que fazem o corpo lembrar que ainda é jovem e a alma, ousada. Rimos, nos desafiamos, nos deixamos cair e levantar, como se o mar estivesse, discretamente, nos ensinando algo sobre a vida.
Vista noturna da janela do quarto

Mas foi na Sununga que o extraordinário se apresentou sem pedir licença. Tartarugas surgiram próximas, serenas, permitindo que as tocássemos com o cuidado de quem sabe estar diante de algo sagrado. 

E, como se não bastasse, no entardecer dourado, golfinhos saltaram diante de nós. Não para um espetáculo, mas como quem compartilha um segredo antigo com quem sabe olhar.

Os amanheceres pediam oração. Não necessariamente palavras, mas gratidão. Os entardeceres pediam sonhos, desses que só nascem quando o coração está em paz.

Entre um e outro, experimentamos camarões, cervejas geladas, pastéis, conversas longas e até um churrasquinho improvisado, que sempre tem gosto de celebração.
Pneu furado do Marcelo na ida

E então veio o dia da volta. Meu aniversário. Um dia fantástico, vivido mais com presença do que com registros. Talvez por isso eu quase não tenha fotos desses dias, apenas fragmentos capturados por outros olhares durante o passeio.

E tudo bem. Há momentos que não pedem câmera, pedem memória viva.

Voltamos diferentes. Não por grandes acontecimentos, mas pelo acúmulo delicado de pequenas coisas.  Um riso à mesa, um mergulho inesperado, um silêncio compartilhado, um pôr do sol que parecia saber nosso nome e talvez alguma discussão mais acalorada, mas não menos amável ou digna.

Almoço no dia da volta - meu aniversário
Ubatuba nos ensinou, mais uma vez, que felicidade não é excesso. É encontro. É família. É mar. É estar junto quando o tempo resolve, generosamente, parar.
Mamãe e papai fizeram falta.  Ela menos, pois nos esperava pro domingo.  Mas ele, com certeza, de algum modo, deu um jeito de estar junto.


Enfim... obrigado Marcelo e Yeva. Obrigado filhos amados.  Obrigado Bianca e Helô. 

Vocês foram maravilhosas companhias. E os momentos, estão todos aqui, guardados pra sempre no meu coração envelhecido pelo tempo, mas renovado pela graça dessa doce viagem.
E isso, definitivamente, é o que fica.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

COMO FIZ PARA ABRIR A MENTE

 



Daniel Gouvêa Gomes
Estudante





Tudo que vem, um dia se vai.

A lembrarmos da pluralidade e mortalidade de nossas vidas nos acostumamos com a soberba existência material.  Vulgo, passamos a ver a vida como ela é não como será ou foi, por meio de escalas universais somos, poeira.

Dado o fato de sermos assim, podemos construir uma visão pobre e inerte, ou seja, intocável e imutável, para reconhecermos a vida, temos que passar pela morte, pois só há vida se existe a morte.

Temos passado, futuro e presente, só estamos vivos em um deles de verdade.  Passado é história.  Futuro é o que um dia foi presente e que virou passado.  Temos então a base “agora”.  Vamos à prática.

Todo meio de intervir é inútil, pois somos seres que não controlam tudo.  Pois bem, temos que entender que não somos tudo.  Ser nada é como viver bem por não termos que ser tudo.

Concluindo então, somos o que somos, mas não podemos mudar nossa natureza e vamos um dia deixar de estar nessa natureza.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Quando o império abandona o disfarce, a barbárie aparece

 

Caracas Essa Madrugada - Imagem G1
Se confirmadas as informações que circulam nesta madrugada, o mundo assiste a um dos atos mais graves das últimas décadas.  Uma ação militar direta dos Estados Unidos contra a Venezuela, com a captura forçada de seu presidente, realizada à margem do direito internacional, em desprezo absoluto às Nações Unidas e em afronta aberta à soberania dos povos.

Não há adjetivo elegante para isso. É agressão imperial. É sequestro de Estado. É terrorismo geopolítico.

Donald Trump não age como chefe de governo.  Age como senhor de guerra de um império em decadência, que já não consegue convencer, apenas intimidar. A velha retórica da “operação brilhante”, do “combate ao crime” e da “libertação” é o mesmo roteiro usado no Iraque, na Líbia, no Afeganistão e em tantos outros lugares onde a democracia nunca chegou, mas a destruição sim.

A América Latina conhece bem esse método. Golpes, bloqueios, sanções, assassinatos políticos, operações clandestinas. Nada disso é novo. O que assusta é o descaramento.  Agora sem intermediários, sem disfarce, sem vergonha. Tropas, ataques aéreos, captura de um chefe de Estado. Um precedente que, se naturalizado, implode qualquer noção de ordem internacional.

É preciso fazer autocrítica.  Durante anos, parte da comunidade internacional tolerou sanções criminosas, sabotagens econômicas e campanhas de desestabilização contra a Venezuela em nome de uma suposta “defesa da democracia”. O resultado está aí. Quando se aceita o estrangulamento de um povo, não se pode fingir surpresa quando vêm os bombardeios.

A reação internacional mostra o tamanho do risco. Rússia, China, Cuba, Irã e diversos países latino-americanos denunciam a agressão. Governos responsáveis falam em escalada, em crise regional, em guerra. Já a extrema direita comemora. Milei vibra. Parlamentares trumpistas aplaudem. O colonialismo nunca foi envergonhado, apenas espera ocasião.

E o Brasil? O Brasil não pode vacilar.

O governo Lula tem um papel histórico a cumprir. Não por afinidade ideológica com este ou aquele governo, mas por compromisso com princípios que sempre nortearam a diplomacia brasileira.  A autodeterminação dos povos, não intervenção, solução pacífica dos conflitos e defesa intransigente da soberania.

O silêncio, aqui, seria cumplicidade. A neutralidade, covardia.
Cabe ao Brasil liderar, junto a outros países do Sul Global, uma reação firme no âmbito da ONU, exigir provas, denunciar a ilegalidade da ação e trabalhar ativamente para impedir a escalada militar. A América do Sul não pode voltar a ser campo de batalha de interesses estrangeiros.

Não se trata de “defender Maduro”. Trata-se de defender algo muito maior.  O direito de qualquer povo escolher seu destino sem ser ameaçado por porta-aviões e drones. Hoje é a Venezuela. Amanhã pode ser qualquer país que ouse dizer não. O Brasil mesmo, por exemplo.

A história já julgou o imperialismo e sempre o condenou.
Resta saber quem, neste momento decisivo, estará do lado da legalidade, da paz e da dignidade dos povos. O Brasil precisa estar do lado certo da história.

Onde Está a Justiça Mundial? Reflexões sobre Soberania, Poder e Silêncios Globais

Nos primeiros dias de 2026, o mundo assistiu a um acontecimento histórico e ao mesmo tempo alarmante.  A ação militar dos Estados Unidos na ...