| D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, numa pintura a óleo de autor desconhecido do séc. XVIII |
Se existe alguém em Portugal que virou quase um “super-herói medieval”, esse alguém é D. Afonso Henriques. O homem não só fundou um país, como ainda ganhou o título de “o Fundador”, o que, convenhamos, é um baita upgrade de currículo.
Mas a verdade é que, se a gente tirar a capa, a
espada reluzente e o fundo épico com música de filme, sobra algo muito mais
interessante. Um sujeito real, cheio de contradições, dúvidas e boas decisões
estratégicas.
Pra começar, nem o básico a gente sabe direito. Quando ele nasceu? Onde? Guimarães? Coimbra?
Viseu? Ou fora de Portugal? Pois é. O fundador de Portugal talvez nem tenha
nascido em Portugal. Já começa aí a ironia histórica.
E tem mais. Afonso não veio exatamente de uma
família “100% portuguesa raiz”. Seu pai era da Borgonha (quase um francês
medieval importado) e sua mãe, D. Teresa, filha de rei de Leão e Castela. Ou
seja, o DNA do fundador já era mais internacional que um mochileiro europeu.
Aliás, sobre a mãe de Afonso, esquece aquela
história simplista de vilã dominada por paixões. D. Teresa tinha projeto
político, estratégia e ambição, coisa que incomodava muita gente. No fim das
contas, Afonso acabou enfrentando a própria mãe numa disputa de poder que
culminou na famosa Batalha de São Mamede, em 1128.
Sim, o sujeito basicamente começou a carreira
“fundando o país” brigando em casa. Quem nunca?
Antes mesmo de existir como país, “Portugal” já
era só o nome de um lugar. Tudo começou com Portus Cale, um antigo povoado às
margens do rio Douro, na região onde hoje ficam o Porto e Vila Nova de Gaia. O
nome vinha do latim “portus”, porto, e “Cale”, uma antiga
povoação de origem Celta, que com o tempo virou “Portucale” e depois “Portugal”. Ou seja, antes
de ser um país, Portugal era só um porto com nome estranho tentando virar
alguma coisa maior.
Mas calma. Achar que ali “nasceu Portugal” num
estalo é simplificar demais. Portugal não surgiu num dia mágico. Foi um
processo longo, cheio de idas, vindas, alianças improváveis e muita
improvisação política até porque aquele antigo Portucale ainda estava longe de
ser um reino de verdade.
E aqui entra uma das partes mais curiosas. Afonso
Henriques não era esse cavaleiro puro lutando contra um bloco inimigo
homogêneo. Nada disso. Ele lutava contra muçulmanos, mas às vezes se aliava a
eles. Lutava contra cristãos e também fazia acordos com eles. Ou seja. Menos
“cruzada épica”, mais “xadrez político em nível hard”.
A tal “Reconquista”, inclusive, não era essa
guerra religiosa contínua que a gente aprendeu na escola. Na época, era mais
sobre recuperar territórios e garantir poder do que sobre um embate ideológico
total. A palavra “Reconquista” nem existia naquele tempo.
Afonso, no fundo, fazia o que todo governante
pragmático faz. Negociava, guerreava, recuava, avançava e tentava sobreviver no
meio de um mundo caótico. Parece até nosso presidente lidando aqui com o Centrão.
E não foi só na espada que ele jogou. O homem
também entendia de marketing político medieval, claro. Foi lá em Roma, bateu na
porta do Papa e disse, basicamente que queria ser rei “oficial”.
Demorou. O reconhecimento só veio décadas depois,
em 1179. Ou seja, até pra virar rei “oficial”, o fundador teve que insistir.
No fim das contas, o que sobra de D. Afonso
Henriques não é só o herói, mas algo melhor. Um líder que construiu um reino
onde antes não havia um. Não reconquistou. Ele inventou.
E talvez essa seja a parte mais interessante de
todas. Portugal não nasceu de um plano perfeito, nem de um destino inevitável.
Nasceu de decisões difíceis, alianças improváveis e de um sujeito que, longe de
ser perfeito, soube jogar o jogo do seu tempo.
Sem capa. Sem trilha sonora. Mas com um talento raro. Fazer história de verdade.