sexta-feira, 3 de abril de 2026

D. Afonso Henriques - o Fundador de Portugal

D. Afonso Henriques, o primeiro rei
de Portugal, numa pintura a óleo
 de autor desconhecido do séc. XVIII

Se existe alguém em Portugal que virou quase um “super-herói medieval”, esse alguém é D. Afonso Henriques. O homem não só fundou um país, como ainda ganhou o título de “o Fundador”, o que, convenhamos, é um baita upgrade de currículo.

Mas a verdade é que, se a gente tirar a capa, a espada reluzente e o fundo épico com música de filme, sobra algo muito mais interessante. Um sujeito real, cheio de contradições, dúvidas e boas decisões estratégicas.

Pra começar, nem o básico a gente sabe direito.  Quando ele nasceu? Onde? Guimarães? Coimbra? Viseu? Ou fora de Portugal? Pois é. O fundador de Portugal talvez nem tenha nascido em Portugal. Já começa aí a ironia histórica.

E tem mais. Afonso não veio exatamente de uma família “100% portuguesa raiz”. Seu pai era da Borgonha (quase um francês medieval importado) e sua mãe, D. Teresa, filha de rei de Leão e Castela. Ou seja, o DNA do fundador já era mais internacional que um mochileiro europeu.

Aliás, sobre a mãe de Afonso, esquece aquela história simplista de vilã dominada por paixões. D. Teresa tinha projeto político, estratégia e ambição, coisa que incomodava muita gente. No fim das contas, Afonso acabou enfrentando a própria mãe numa disputa de poder que culminou na famosa Batalha de São Mamede, em 1128.

Sim, o sujeito basicamente começou a carreira “fundando o país” brigando em casa. Quem nunca?

Antes mesmo de existir como país, “Portugal” já era só o nome de um lugar. Tudo começou com Portus Cale, um antigo povoado às margens do rio Douro, na região onde hoje ficam o Porto e Vila Nova de Gaia. O nome vinha do latim “portus”, porto, e “Cale”, uma antiga povoação de origem Celta, que com o tempo virou “Portucale” e depois “Portugal”. Ou seja, antes de ser um país, Portugal era só um porto com nome estranho tentando virar alguma coisa maior.

Mas calma. Achar que ali “nasceu Portugal” num estalo é simplificar demais. Portugal não surgiu num dia mágico. Foi um processo longo, cheio de idas, vindas, alianças improváveis e muita improvisação política até porque aquele antigo Portucale ainda estava longe de ser um reino de verdade.

E aqui entra uma das partes mais curiosas. Afonso Henriques não era esse cavaleiro puro lutando contra um bloco inimigo homogêneo. Nada disso. Ele lutava contra muçulmanos, mas às vezes se aliava a eles. Lutava contra cristãos e também fazia acordos com eles. Ou seja. Menos “cruzada épica”, mais “xadrez político em nível hard”. 

A tal “Reconquista”, inclusive, não era essa guerra religiosa contínua que a gente aprendeu na escola. Na época, era mais sobre recuperar territórios e garantir poder do que sobre um embate ideológico total. A palavra “Reconquista” nem existia naquele tempo.

Afonso, no fundo, fazia o que todo governante pragmático faz. Negociava, guerreava, recuava, avançava e tentava sobreviver no meio de um mundo caótico. Parece até nosso presidente lidando aqui com o Centrão.

E não foi só na espada que ele jogou. O homem também entendia de marketing político medieval, claro. Foi lá em Roma, bateu na porta do Papa e disse, basicamente que queria ser rei “oficial”.

Demorou. O reconhecimento só veio décadas depois, em 1179. Ou seja, até pra virar rei “oficial”, o fundador teve que insistir.

No fim das contas, o que sobra de D. Afonso Henriques não é só o herói, mas algo melhor. Um líder que construiu um reino onde antes não havia um. Não reconquistou. Ele inventou.

E talvez essa seja a parte mais interessante de todas. Portugal não nasceu de um plano perfeito, nem de um destino inevitável. Nasceu de decisões difíceis, alianças improváveis e de um sujeito que, longe de ser perfeito, soube jogar o jogo do seu tempo.

Sem capa. Sem trilha sonora. Mas com um talento raro. Fazer história de verdade.


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